11 de Julho de 2017 / às 16:55 / em 3 meses

ENTREVISTA-Mercado Livre ensaia voos mais altos para se manter na liderança de comércio eletrônico

SÃO PAULO (Reuters) - O Mercado Livre está se preparando para ampliar sua fatia no comércio eletrônico brasileiro neste ano, avançando sobre áreas que antes eram exclusividades de grandes grupos financeiros e do varejo e que incluem concessão de crédito e gestão de logística.

Stelleo Tolda, vice-presidente de operações, diante da sede do Mercado Livre em São Paulo 10/07/2017 REUTERS/Nacho Doce

Há 10 anos listado na bolsa de tecnologia Nasdaq, o Mercado Livre se transformou no período em referência latino-americana no conceito de marketplace, fornecendo infraestrutura de tecnologia para que pequenos e grandes comerciantes possam vender online desde balas a imóveis.

Agora a companhia começa a se preparar para voos mais altos, buscando evitar que o dinheiro que entra em seu conjunto de sites e serviços saia de seu sistema, assim como fazem os gigantes asiáticos Tencent, com o aplicativo WeChat, e o Alibaba, disse o vice-presidente de operações, Stelleo Tolda, à Reuters.

“Enxergamos que estamos apenas no início, o comércio eletrônico hoje no Brasil equivale a apenas 4 por cento das vendas do varejo como um todo”, disse Tolda na sede da empresa no Brasil, que ocupa o terreno de uma antiga metalúrgica na região metropolitana de São Paulo, assemelhando-se a um campus universitário.

Para a empresa de pesquisa de mercado Ebit, o comércio eletrônico brasileiro deve faturar cerca de 50 bilhões de reais este ano, um crescimento de 12 por cento sobre 2016, apesar do cenário de crise econômica atravessada pelo país. O dado não inclui os números do Mercado Livre, que no ano passado teve faturamento de 256,3 milhões de dólares nos 18 países em que opera na América Latina mais Portugal, um crescimento de quase 42 por cento.

Tolda, que está no Mercado Livre desde 1999, tendo passado antes pelos bancos de investimento BTG Pactual e Merrill Lynch, não deu dados específicos sobre o Brasil, mas afirmou que a operação brasileira representa cerca de metade dos negócios do Mercado Livre no mundo. E é com base nesse desempenho que ele previu que a companhia deverá em 2017 superar pela primeira vez a B2W -dona de marcas que incluem Submarino e Americanas.com e Shoptime- como maior empresa de comércio eletrônico do Brasil.

No primeiro trimestre, a B2W teve um GMV, indicador que mede vendas próprias de mercadorias e vendas de terceiros, de 2,67 bilhões de reais, crescimento de 8,4 por cento sobre o mesmo período do ano passado.

Já as operações brasileiras do Mercado Livre, considerando que o Brasil representa cerca de 50 por cento da companhia, teriam tido um GMV de cerca de 1,17 bilhão de dólares, ou 3,7 bilhões de reais, crescimento anual de 31 por cento, segundo cálculos da Reuters.

“Tem muito espaço ainda para todos crescerem no Brasil, o mercado brasileiro está mais em uma fase marcada pelo crescimento do bolo que de roubo de fatias dos outros”, disse Tolda.

LOGÍSTICA

Comentando que “há ainda muito o que fazer no Brasil e na América Latina” antes de o Mercado Livre se lançar a outras regiões do mundo, Tolda afirmou que a empresa está iniciando testes sobre oferta de serviço de coleta para grandes clientes que usam o site para vender seus produtos.

Com o serviço, o próprio Mercado Livre se encarregaria da negociação de preços com transportadores, que disputariam uma espécie de leilão organizado pelo site para terem direito ao frete. O site também está discutindo parcerias com empresas gestoras de centros de distribuição para viabilizar a entrega do produto do grande fornecedor até os clientes finais dele, disse Tolda.

“Estamos desenvolvendo tecnologia de operação de centros de distribuição... em parte é por isso que compramos a Axado”, afirmou Tolda sobre a aquisição de 26 milhões de reais realizada no ano passado.

Segundo o executivo, o custo de frete é um dos principais entraves ao crescimento do comércio online no país, representando cerca de 15 a 20 por cento do valor de cada produto ante níveis de 10 por cento ou abaixo disso em países como México e Colômbia.

A expectativa é que a ferramenta de leilão de transportadoras reduza os custos de frete, incentivando os consumidores a comprar mais no Mercado Livre. A empresa está investindo 1 bilhão de reais este ano no Brasil, boa parte disso em oferta de frete gratuito para encomendas a partir de 120 reais, iniciada em maio. “Em 2016 foi bem menos que isso”, disse Tolda.

PAGAMENTOS

A principal fonte de receita do Mercado Livre é a cobrança de comissões sobre as vendas realizadas no site, mas a área de sistemas de pagamento eletrônico tem passado por forte crescimento, o que tem colocado a empresa como rival também da líder do segmento no Brasil, a Cielo. O MercadoPago, a unidade de pagamentos do Mercado Livre, processou no primeiro trimestre 44 milhões de transações em toda a América Latina, um crescimento de 60 por cento sobre um ano antes, enquanto na Cielo a expansão foi de 6 por cento, a 1,72 bilhão de operações.

Tolda não precisou o volume de máquinas de captura de transações em atividade do MercadoPago no Brasil, mas comentou que o número está na casa de “centenas de milhares”. Ele afirmou que a companhia, que já oferece serviços de antecipação de recebíveis, envio de recursos entre pessoas físicas e pagamento de contas, avalia possibilidade de oferta de financiamento a empresas usuárias do site.

Ele não deu detalhes, mas no final de junho, Ignacio Caride, diretor-geral do Mercado Livre no México, afirmou que a empresa planeja conceder crédito para capital de giro a pequenas empresas e empreendedores do Brasil e México ainda neste ano.

“A gente quer gerar mais volumes e a escassez de oferta de crédito no Brasil tem inibido a capacidade dos consumidores”, disse Tolda, citando que em 2016 o Mercado Livre tinha cerca de 35 milhões de usuários ativos no Brasil.

Para além do crédito, a companhia está buscando ampliar os usos de valores armazenados nas contas dos usuários do MercadoPago para que possam realizar pagamentos em estabelecimentos como postos de gasolina e até de transporte público, disse Tolda.

“Queremos que isso seja uma rede... Queremos mais usos para estes recursos, para que os usuários não tenham motivos para saírem do nosso ecossistema”, disse o vice-presidente de operações do Mercado Livre.

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