October 30, 2019 / 2:04 PM / 22 days ago

Marinha contesta estudo de universidade sobre mancha de petróleo no Nordeste

RIO DE JANEIRO/BRASÍLIA (Reuters) - A Marinha contestou nesta quarta-feira um estudo da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) que sugeriu que manchas de petróleo que atingem o litoral do Nordeste brasileiro desde setembro podem ter origem em um grande vazamento abaixo da superfície do mar.

Soldados trabalham na remoção de óleo na praia de Itapuama, Cabo de Santo Agostinho, Pernambuco 22/10/2019 REUTERS/Diego Nigro

O pesquisador Humberto Barbosa, do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), vinculado à Ufal, apontou mais cedo a identificação de um “enorme vazamento de óleo, em formato de meia lua, com 55 quilômetros de extensão e 6 quilômetros de largura, a uma distância de 54 quilômetros da costa do Nordeste”.

De acordo com a assessoria de imprensa da Marinha, não há tal registro de mancha de óleo na região ao sul da Bahia, diferentemente do que apontou a Ufal em um comunicado em seu site.

Para a Marinha, a imagem de satélite pode ter mostrado uma nuvem espessa.

A possibilidade de as manchas no Nordeste terem origem em vazamento no fundo do oceano já havia sido contestada nesta quarta-feira pelo comandante da Marinha, Ilques Barbosa Junior, que apontou como causa mais provável do derrame alguma embarcação que navegava pela costa do país.

Em entrevista à Globonews, o almirante disse que não há indicação de vazamento no fundo do oceano, até porque o governo tem a confirmação de que o petróleo não é brasileiro, e sim venezuelano.[nE6N26402M]

Segundo o Lapis, foi identificado um padrão característico de manchas de óleo no oceano que pode explicar a origem da poluição que atingiu o litoral do Nordeste, com base em imagens do satélite Sentinel-1A, da Agência Espacial Europeia (ESA). O laboratório disponibilizou reproduções das imagens em sua página na internet.

Ao ser confrontado com as declarações do comandante da Marinha, Barbosa disse não poder “dizer com 100% de certeza (que o petróleo veio do fundo do mar) não, mas não posso descartar isso também não”.

“A gente não é conclusivo, não pegou uma imagem aleatória, há um processo de análise de imagens que o próprio laboratório fez”, comentou.

Mas ele questionou: “Por que as imagens do Sentinel não têm sido usadas antes, em vez de dizer que o fenômeno que ocorreu não é associado ao vazamento?”

As manchas de óleo foram identificadas inicialmente no início de setembro, e já atingiram praias ao longo de mais de 2.000 quilômetros desde então.

De acordo com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e a Petrobras , o óleo encontrado nas praias brasileiras é venezuelano, e o governo investiga se navios que passaram pelo litoral brasileiro seriam responsáveis pelo incidente.

ABROLHOS

Separadamente, a Marinha informou ainda nesta quarta-feira que o Grupo de Avaliação e Acompanhamento, formado pela reguladora do setor de petróleo ANP e o Ibama, está monitorando o deslocamento das substâncias oleosas que têm atingido as praias do Nordeste, especialmente na região do entorno do Arquipélago de Abrolhos, importante área de preservação ambiental.

A intenção é ampliar a cobertura para a visualização de manchas na água e o seu recolhimento, caso detectadas, disse a Marinha, acrescentando que navios foram deslocados para área, ao sul da Bahia.

ORIGEM

O sul da Bahia como possível origem de um eventual vazamento, conforme o estudo da Ufal, foi questionado por um especialista ouvido pela Reuters, que não descartou contudo a possibilidade de o petróleo vir do fundo do mar.

O professor da Faculdade de Oceanografia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), engenheiro ambiental e oceanógrafo, David Zee, disse achar improvável que o petróleo que atinge as praias do Nordeste tenha origem no sul da Bahia, uma vez que as correntes marítimas no local apontado seguem na direção sul e o petróleo pesado que tem alcançado as areias do Nordeste foi até o Maranhão.

“Essa possibilidade que esse ponto tenha sido a origem do problema é muito remota, para não dizer impossível... o petróleo foi até o Maranhão, teria que ter feito a curva no Brasil”, disse Zee.

Já o pesquisador da Ufal argumentou que desde a segunda quinzena de abril até agosto os ventos oceânicos na região, alísios, seguem do Sudeste em direção ao Nordeste e “também fazem uma espécie de dobra, contornando o litoral do país”, o que explicaria a possibilidade de um eventual vazamento subir para o norte.

Mas Zee, da Uerj, tal como Barbosa, da Ufal, não descarta que a mancha observada pela universidade alagoana tenha origem em um vazamento por meio de exsudação natural ou de uma plataforma que esteja produzindo na região.

“A grande questão é que agora todos estão olhando para o mar e descobrindo mazelas”, afirmou.

Zee ressaltou que a mancha apontada nas imagens da Ufal não parece ter vindo de um navio em movimento, linha de investigação seguida pela Marinha.

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