February 5, 2020 / 9:32 PM / 2 months ago

BC reduz Selic a 4,25% e indica fim do ciclo de cortes

BRASÍLIA (Reuters) - O Banco Central reduziu nesta quarta-feira a Selic em 0,25 ponto percentual à nova mínima histórica de 4,25% ao ano, e indicou expressamente o fim do atual ciclo de cortes na taxa básica de juros, em meio à leitura de que os ajustes já feitos ainda vão surtir efeito na economia.

Sede do Banco Central em Brasília 23/09/2015 REUTERS/Ueslei Marcelino

A decisão vem após outros quatro cortes feitos na Selic anteriormente, de 0,5 ponto cada, a partir de julho do ano passado. Também veio acompanhada de uma piora na avaliação sobre as medidas de inflação subjacente —os núcleos de inflação, que desconsideram os preços mais voláteis. Segundo o Copom, elas encontram-se em “níveis compatíveis com o cumprimento da meta de inflação”. Antes, o BC considerava que eles estavam “confortáveis”.

“O Copom entende que o atual estágio do ciclo econômico recomenda cautela na condução da política monetária. Considerando os efeitos defasados do ciclo de afrouxamento iniciado em julho de 2019, o Comitê vê como adequada a interrupção do processo de flexibilização monetária”, afirmou o BC, em comunicado.

“O Comitê enfatiza que seus próximos passos continuarão dependendo da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos e das projeções e expectativas de inflação, com peso crescente para o ano-calendário de 2021”, acrescentou, indicando que mira com cada vez mais atenção o próximo ano.

Em seu balanço de riscos, o BC frisou que o atual grau de estímulo monetário, que atua com defasagens sobre a economia, pode elevar a trajetória da inflação acima do esperado no horizonte relevante para a política monetária.

Numa novidade em relação à comunicação anterior, o BC promoveu como fator de risco para a pressão altista o aumento da potência da política monetária por conta das transformações na intermediação financeira e no mercado de crédito e capitais, numa provável menção à maior participação do crédito livre na economia.

Para o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima, o aumento da importância dada a essa variável significa que ela pode ser vista “como o fator de maior peso na decisão de interromper o ciclo de queda da taxa básica”.

A deterioração do mercado externo para emergentes e uma frustração no andamento das reformas também podem atuar no sentido de pressionar a inflação para cima, disse o BC.

Como risco baixista para a inflação, o BC citou apenas a possibilidade de o nível de ociosidade elevado continuar produzindo uma trajetória prospectiva abaixo da esperada.

“Mantemos nossa expectativa que a taxa Selic permanecerá neste nível pelo menos até o começo de 2021. De fato, a atividade econômica segue frágil, insensível à expansão do crédito e às mudanças no mercado monetário e financeiro, donde a expectativa de que se a Selic não cai, também não sobe”, escreveu Lima, em nota a clientes.

EM LINHA COM O ESPERADO

Em pesquisa Reuters, 20 de 29 economistas já previam um corte de 0,25 ponto nos juros básicos, enquanto 9 esperavam manutenção da Selic em 4,5%.

A expectativa de que o BC daria prosseguimento ao ciclo de cortes nesta quarta-feira ganhou força após dados econômicos mais fracos que o esperado terem piorado a percepção sobre a retomada da atividade no Brasil.

A produção industrial fechou 2019 no vermelho, com queda de 1,1% sobre 2018, após dois anos seguidos de ganhos e sob a forte influência das perdas no setor extrativo devido ao rompimento da barragem de Brumadinho (MG).

No comunicado, o BC afirmou que os dados já divulgados indicam continuidade do processo de recuperação gradual da economia brasileira.

A inflação, por sua vez, seguiu comportada apesar da alta no preço das carnes no fim do ano passado e do avanço do dólar frente ao real, movimento que em teoria poderia encarecer importados e acabar pressionando o IPCA para cima.

Na semana passada, temores sobre o coronavírus motivaram uma disparada da moeda norte-americana a níveis próximos de 4,30 reais, em meio ao sentimento de risco com a epidemia chinesa e suas possíveis implicações para a economia global.

Em outras ocasiões, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, já chegou a dizer que o importante para a autoridade monetária é como a alta do dólar pode atingir os canais de expectativa de inflação.

No comunicado desta quarta-feira, não houve menção ao tema cambial. Sobre a cena externa, o BC destacou que “apesar do recente aumento de incertezas”, o cenário segue favorável para os emergentes com os juros baixos nas principais economias.

De qualquer forma, o BC indicou que, considerando os juros constantes no mesmo patamar e o câmbio também constante em 4,25 reais, suas projeções de inflação situam-se em torno de 3,5% para o IPCA em 2020 e 3,8% para 2021 —no último caso um pouco acima do centro da meta.

Para 2020, o alvo oficial para o IPCA é de 4,0% e para 2021, de 3,75%, sempre com margem de tolerância de 1,5 ponto para mais ou para menos.

Já os economistas ouvidos pelo BC na mais recente pesquisa Focus estimam que o IPCA subirá 3,40% em 2020 e 3,75% em 2021.

O BC deixou de publicar no comunicado suas projeções com base no cenário de mercado, que levava em conta a Selic e o câmbio estimados na pesquisa Focus. Para o dólar, por exemplo, esses números estão atualmente em 4,10 reais para o fim de 2020 e 4,05 reais em 2021.

O economista Marcos Ross, da XP Investimentos, ponderou que as estimativas com base no cenário de mercado vinham trazendo números mais favoráveis à leitura de afrouxamento monetário.

“O tom do comunicado foi bem duro, e o Copom precisava segurar o mercado, que vinha aumentando apostas em outros cortes de juros. Começa a haver preocupação crescente com o cenário para 2021, para além da interrupção do ciclo de flexibilização monetária”, afirmou ele.

Com reportagem adicional de José de Castro

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