February 13, 2020 / 6:44 PM / 3 months ago

Mercado de celulose se aproxima de inflexão na curva de preços, vê Suzano

SÃO PAULO (Reuters) - A Suzano manterá a estratégia de redução de estoques de celulose neste ano e avalia que o mercado está perto do ponto em que os preços da commodity vão começar a se recuperar, após quedas de mais de 30% no ano passado, motivadas por excesso de inventários, principalmente em clientes na Ásia.

Executivo da Suzano fala durante encontro da companhia com investidores e analistas, em São Paulo. 13/2/2020. Alberto Alerigi Jr./Reuters

A maior produtora de celulose de eucalipto do mundo não identificou por ora problemas no mercado oriundos da epidemia do coronavírus na China e previu que a disseminação da doença vai gerar uma mudança estrutural na demanda chinesa por produtos de higiene, incluindo papel tissue, usado em lenços, por exemplo.

“Vemos potencial no médio prazo para o crescimento na demanda por tissue diante do aumento da conscientização por higiene na China”, disse o diretor comercial de celulose da Suzano, Carlos Aníbal, a jornalistas, durante evento com investidores e analistas.

Ele citou como exemplo de comportamento o hábito recente de chineses de levar lenços de papel no bolso para tocarem em maçanetas de portas e até para apertar botões em elevadores. Aníbal também citou como exemplo da mudança no mercado chinês a valorização das ações da Vinda, grande fabricante chinês de papel tissue, que dispararam 42% neste ano.

“Não estamos vendo impacto (negativo do coronavírus na demanda por celulose)...Os estoques de clientes estão equilibrados”, disse Aníbal, explicando que alguns clientes da Suzano na China pararam para o Ano Novo Lunar enquanto outros seguiram produzindo.

“No momento, a atenção nossa está sobre a cadeia logística”, de transporte dos portos na China para alguns clientes de celulose no país devido às restrições de circulação, disse ele.

A Suzano divulgou na noite da véspera resultado de quarto trimestre dentro do esperado por analistas e estimativas maiores para sinergias a serem geradas pela fusão com a Fibria.

A ação da companhia disparava nesta quinta-feira. Às 15h, o papel tinha alta de 3,7%, enquanto o Ibovespa caía 1,1%.

PONTO DE VIRADA?

Parte do otimismo do mercado com a Suzano foi gerado por conta da redução acelerada dos estoques de celulose, da ordem de 650 mil toneladas, no quarto trimestre, algo que a empresa continuará fazendo em 2020, disse Aníbal. Segundo ele, a empresa não fez movimentos para elevar o preço da celulose em janeiro e fevereiro por entender que não havia condições no mercado.

O preço praticado pela Suzano no quarto trimestre foi de cerca de 470 dólares a tonelada, bem distante do patamar histórico de 640 dólares atingido antes da fusão com a Fibria.

“Acreditamos que estamos chegando em um ponto de inflexão na curva de preço”, disse Aníbal. Ele adicionou que em 2020 a Suzano vai “produzir mais e vender mais celulose” que em 2019, mas que isso ocorrerá sem que os estoques nos clientes cresçam.

Em 2019, a Suzano produziu 8,8 milhões de toneladas de celulose, abaixo de sua capacidade total de 10,8 milhões de toneladas. As vendas somaram 9,4 milhões de toneladas. Aníbal evitou detalhar os números projetados para este ano.

Já o presidente da Suzano, Walter Schalka, disse que a empresa não vê muito espaço para elevar preços em março, mas que deve fazer algum reajuste ao longo do ano, conforme a situação criada pela disseminação do vírus na China se estabiliza.

PLÁSTICO NA MIRA

Os executivos da Suzano aproveitaram o encontro para mostrar planos para os próximos anos, como o de gerar 2,8 bilhões de reais em caixa adicional até 2024, o que será obtido por medidas incluindo redução da distância média de fornecimento de madeira para fábricas de celulose do grupo, de 228 quilômetros para 156.

A redução virá por meio de menor uso de madeira de terceiros, cuja participação vai cair de 37% em 2019 para 23% em 2024, disse Schalka.

A companhia também mira fazer seus produtos de celulose substituírem 10 milhões de toneladas de plásticos e derivados de petróleo até 2030. Para isso, a Suzano está investindo em produtos celulósicos para serem substitutos de copos, sacolas e outros itens plásticos de uso único, bem como na área têxtil.

“Não faremos negócios que não possam ter escala industrial. Eles precisarão ter representatividade no faturamento ao longo do tempo”, disse Schalka, acrescentando que o potencial que pode ser atingido pela Suzano nestes novos mercados de celulose seria da ordem de 50 bilhões de dólares por ano.

NOVA FÁBRICA?

O presidente da Suzano citou ainda o projeto de uma nova fábrica de celulose que já recebeu autorizações para instalação em Ribas do Rio Pardo (MS), mas frisou que a empresa somente tomará a decisão de construção após reduzir a alavancagem, que terminou 2019 em 5 vezes, ante 1,5 vez no final de 2018.

Sobre o nível de endividamento, o diretor de finanças, Marcelo Bacci, afirmou que a companhia não tem planos para vender ativos operacionais ou aumento de capital e que está confortável com o cronograma de vencimentos da dívida líquida de 54,1 bilhões de reais.

“Continuamos acreditando que discutir venda de ativos ou aumento de capital é destruir valor em momento de baixa do mercado. Temos outras opções ainda se o ambiente ficar mais ácido, como venda de terras com direitos de recompra no futuro”, disse Bacci. “Já estamos no nível máximo de hedge (cambial), mas temos tranquilidade para administrar porque os vencimentos de dívida são espalhados.” A empresa tem vencimento de 1,5 bilhão de dólares em dívida neste ano, 400 milhões em 2021 e 1 bilhão em 2022 e uma posição de liquidez de 3,1 bilhões de dólares.

Por Alberto Alerigi Jr., com reportagem adicional de Paula Arend Laier

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