May 4, 2020 / 2:19 PM / 24 days ago

ANÁLISE-Coronavírus acelera migração para ecommerce no Brasil, dificulta retomada para varejo físico

SÃO PAULO (Reuters) - Os varejistas brasileiros começaram a reabrir as portas após paralisarem por semanas as atividades para evitar a disseminação do novo coronavírus, mas devem atravessar a crise transformados pela pandemia, com o setor de comércio eletrônico fortalecido enquanto redes de lojas físicas enfrentam um caminho íngreme para normalidade.

Produtos vendidos via internet prontos para envio no centro de distribuição do Magazine Luiza, em Louveira (SP) 24/04/2018 REUTERS/Paulo Whitaker

Essa é uma boa notícia para as principais varejistas online B2W, Magazine Luiza e Via Varejo apesar da disputa cada vez mais acirrada com Mercado Livre e Amazon.com no mercado local.

Todas ainda têm espaço para crescer com suas plataformas de marketplace por pelo menos mais dois anos, avalia Thiago Macruz, analista de varejo e ecommerce, segundo o qual a crescente migração de clientes para o varejo online se sobrepõe a turbulências econômicas.

“Amazon não está com capital tão intensivo e sua estratégia orgânica no Brasil ainda não virou desafio, mas tem bolsos fundos para o dia que quiser colocar dinheiro no Brasil e mudar o cenário competitivo”, disse Macruz.

Enquanto isso, as ações da B2W, que opera sob as marcas Submarino, Americanas.com, Shoptime e Sou Barato, subiram mais de 16% até agora em 2020, superando o tombo de quase 30% do principal índice da bolsa brasileira, o Ibovespa.

A companhia também se destacou em relação às rivais Magazine Luiza e Via Varejo, que foram mais afetadas pela pandemia por terem mais de 1 mil lojas físicas cada.

O crescimento do comércio eletrônico no Brasil acelerou para 30% nas últimas cinco semanas, de acordo com a associação de ecommerce ABComm, com medidas de isolamento social atraindo novos consumidores e levando varejistas desenvolver canais digitais de vendas.

A entidade estima que 80 mil novas lojas online tenham sido lançadas desde março, enquanto o número de clientes com ao menos uma compra pela internet cresceu em quase 1 milhão.

“Percebemos que em crises passadas, não só no Brasil, o ecommerce nunca deixou de crescer mesmo com retração do PIB ou outras dificuldades”, afirmou o presidente da ABComm, Maurício Salvador, em entrevista por telefone.

“A percepção do consumidor é de que comprar pela internet é sempre mais barato, então em épocas de crise o ecommerce acaba sendo um canal interessante porque o permite pesquisar preços”, acrescentou.

Salvador ponderou, contudo, que a alta das vendas online tende a desacelerar em relação ao ritmo observado em março e abril, conforme a recessão abala a confiança e o desemprego aumenta.

Ainda assim, a ABComm manteve sua estimativa inicial de crescimento de 18% do ecommerce em 2020 para 106 bilhões de reais, já que o segundo semestre concentra importantes datas para o varejo.

CAMINHO DIFÍCIL

Para lojistas de shopping centers, porém, o caminho para retomada das atividades tende a ser mais difícil.

Aproximadamente 60 dos 577 shoppings do Brasil já reabriram as portas, mas o número pode chegar a 73 até o término desta segunda-feira, conforme mais municípios relaxam as regras de isolamento social, segundo a Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce).

A Abrasce calcula que o setor já tenha perdido cerca de 20 bilhões de reais em vendas desde o início da pandemia e alerta que o prejuízo deve ser ainda maior até que a situação se normalize.

As ações da Lojas Renner, por exemplo, acumulam queda de cerca de 30% desde o começo do ano.

“Foram adotados novos protocolos de funcionamento e vemos as pessoas tentando voltar à rotina, mas o fluxo ainda está bem aquém do mesmo período do ano passado”, contou o presidente da Abrasce, Glauco Humai.

Para o economista da Guide, Victor Beyruti, é improvável que a demanda retorne aos níveis pré-pandemia ainda este ano. “Até na China a demanda demorou a voltar, então acho que aqui vai ser um pouco pior”, disse Beyruti.

“Ser o primeiro a reabrir (lojas) tem suas vantagens, mas a reabertura tem que ser estratégica... Não adianta reabrir tudo se não tiver movimento porque isso vai gerar custo”, explicou o economista.

Operadoras de shopping centers atualmente estão em conversas com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para criação de uma linha de crédito para ajudar o setor a atravessar essa crise após a renúncia de quase 1,5 bilhão de reais em isenções fiscais e descontos ou adiamentos de aluguel a lojistas.

Enquanto isso, as empresas vêm se empenhando para reduzir custos. O grupo Iguatemi, por exemplo, está adiando obras de manutenção para cortar os investimentos em cerca de 40% este ano.

“Temos trabalhado intensamente para reduzir as despesas e conceder descontos para aliviar as restrições de caixa (dos lojistas) em abril e maio,” afirmou a diretora financeira do Iguatemi, Cristina Betts, em uma recente teleconferência com analistas sobre o impacto do coronavírus nas operações.

O Iguatemi reabriu apenas um outlet em Santa Catarina, um dos primeiros Estados a relaxar medidas de isolamento social, enquanto os demais estabelecimentos funcionam em esquema de drive-thru.

A rival Multiplan também já reabriu um de seus shoppings em Canoas, no Rio Grande do Sul, e os demais operam apenas entregas. “Acho que temos demanda reprimida. O shopping não é só compra, é local de lazer, serviços... Mas o desemprego vai pesar na renda das pessoas”, disse o diretor presidente, José Isaac Peres, a analistas na semana passada.

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