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Volta de fluxos de portfólio é "peça que falta" para tendência de apreciação do real, diz UBS

SÃO PAULO (Reuters) - A continuidade do retorno de fluxos de portfólio ao Brasil é a “peça que falta no quebra-cabeça” que pode colocar o real em uma tendência de apreciação, avaliou o UBS em nota a clientes divulgada nesta quinta-feira, na qual o banco trouxe outros elementos já em curso favoráveis à moeda brasileira.

Logo do banco UBS é disposto em Zurique, na Suíça. 22/06/2020. REUTERS/Arnd Wiegmann.

Para profissionais da instituição suíça, a volta desse dinheiro acontecerá no caso de o país apresentar nos próximos meses um “claro pano para consolidação fiscal de médio prazo”, que seria sinalizado pela aprovação do Orçamento 2021.

O UBS projeta que o dólar terminará 2020 em 4,95 reais, descendo a 4,6 reais ao final de 2021. Essas estimativas embutem queda nominal da moeda de 6,8% até o fim deste ano e de 13,4% até o encerramento de 2021.

Os prognósticos mostram ainda expectativa de desvalorização de 7,1% do dólar ao longo de 2021, após disparada de 23,4% em 2020 comparando-se o número do UBS com a cotação de 30 de dezembro de 2019 da Refinitiv (4,0129 reais).

O dólar era cotado nesta quinta em torno de 5,31 reais, disparando 32,3% em 2020, o que faz do real a moeda relevante de pior desempenho neste ano.

Para o UBS, “crescentes” riscos fiscais e saídas de recursos em carteira têm tido importante peso na magnitude da depreciação cambial em 2020 (de 24,4%).

Entre fevereiro e maio, o Brasil perdeu 34,992 bilhões de dólares em investimentos em carteira (renda fixa mais ações), conforme dados do Banco Central. Em junho e julho houve alguma recuperação, com superávit somado de 3,023 bilhões de dólares, mas ainda menos de 10% do montante perdido nos quatro meses anteriores.

Porém, os profissionais do UBS veem um “caminho para o real se estabilizar”.

“Melhora na dinâmica das transações correntes, superávit no balanço de pagamentos perto de máximas históricas, impulso para reformas fiscais e recuperação do crescimento poderiam amenizar a saída de recursos de portfólio [...] e diminuir parte do desvio negativo recorde do real em relação a seu valor justo”, disseram Tony Volpon, Roque Montero e Fabio Ramos em nota.

De acordo com o UBS, pelo modelo BEER de taxa de câmbio de equilíbrio --que leva em conta spreads de juros nominais, inflação, termos de troca e investimentos, por exemplo--, o real está 14% abaixo do valor justo, com z-score (desvio) negativo de 2,8.

Para o UBS, o “provável” fim do ciclo de flexibilização monetária do Banco Central retira um vento contrário ao real. Porém, a moeda continuará tendo eventuais ganhos limitados por baixas taxas implícitas de juros --de 1% contra o dólar.

“O próximo evento-chave para os mercados será a situação do teto de gastos no próximo ano”, disseram os profissionais, para quem o prêmio de risco embutido no câmbio indica que o mercado vê descumprimento da regra em 2021, mas que o noticiário sobre o Orçamento poderia pesar no câmbio já no curto prazo.

Nesse sentido, o UBS vê as eleições municipais de novembro como o “primeiro teste” do governo antes da eleição presidencial de 2022. “Um resultado negativo para o governo poderia lançar mais dúvidas sobre a agenda de reformas e elevar a volatilidade do mercado”, afirmaram Volpon, Montero e Ramos.

Mas eles esperam que o Banco Central siga ativo no mercado de câmbio. Segundo os profissionais, o BC já atuou cerca de 20 vezes neste ano --com duas das últimas cinco intervenções em volumes superiores a 1 bilhão de dólares em momentos nos quais o dólar oscilava em torno de 5,6 reais e a volatilidade estava perto de 22%.

“(Esperamos) que o BC acelere a atuação se o real depreciar de forma desordenada”, disseram.

No estudo do UBS, o banco notou uma aparente perda de aderência entre o comportamento do real e do dólar nos mercados externos.

Pelos padrões anteriores, no atual patamar do índice do dólar, a moeda dos EUA deveria estar mais próxima de 4,00 reais. “Podemos estar vendo uma mudança estrutural nessa relação estatística historicamente forte, mas por ora estamos assumindo que ela se manifestará conforme o risco político-fiscal diminuir.”

Por José de Castro

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