8 de Outubro de 2014 / às 00:32 / 3 anos atrás

ANÁLISE-Estratégia eleitoral de Dilma aumenta problemas para economia do Brasil

SÃO PAULO/BRASÍLIA (Reuters) - A estratégia da presidente Dilma Rousseff de atacar banqueiros e ressaltar as divisões de classe pode lhe dar uma vantagem na eleição deste mês, mas reforça as tensões com as lideranças empresariais no momento em que a estagnada economia brasileira precisa urgentemente de novos investimentos.

A candidata do PT à reeleição, que liderou a votação em primeiro turno no último domingo e vai enfrentar o favorito dos mercados Aécio Neves, do PSDB, no segundo turno, está usando fortes gastos governamentais e a retórica dura para garantir o apoio entre os pobres.

O Partido dos Trabalhadores, no poder desde 2002, usou estratégia parecida para vencer as últimas três eleições presidenciais em um país marcado pela concentração de renda, mas Dilma está aumentando a aposta na mais acirrada e incerta disputa no país em décadas.

Ela está concentrando no histórico impressionante de redução de pobreza durante os 12 anos do PT no poder, enquanto descreve PSDB, que ocupou a presidência entre 1995 a 2002, como um defensor dos mais ricos.

“Vamos ter mais uma disputa contra o PSDB, que governou para um terço da população e se esqueceu dos mais necessitados”, disse Dilma na noite do domingo, após Aécio garantir, no último minuto, o segundo lugar e a oportunidade de disputar o segundo turno.

Ela insistiu no mesmo tema na segunda-feira, classificando o PSDB como o partido dos ricos e a recuperação dos mercados após o desempenho de Aécio como irrelevante.

“Eu desconfio que os investidores podem fazer tudo, mas não ganham uma eleição. Quem ganha e vota no Brasil chama-se povo brasileiro”, afirmou a presidente.

Durante o primeiro turno, a sua equipe de campanha veiculou um anúncio na TV criticando a proposta da candidata Marina Silva (PSB) de um banco central independente ao mostrar banqueiros de terno e gravata sentados em uma mesa e rindo enquanto a comida desaparecia dos pratos de uma família pobre.

Os assessores de Dilma acreditam que a campanha não vai causar danos permanentes, porque os investidores entendem que ataques aos banqueiros fazem parte do processo eleitoral desde a crise financeira internacional, mesmo nos Estados Unidos e em outros países ricos.

“Acho que essa retórica política contra o setor privado vai terminar se ela ganhar as eleições”, disse Carlos Thadeu de Freitas, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio e ex-diretor do Banco Central.

No entanto, outros especialistas argumentam que a estratégia do PT é mais perigosa agora do que nas três eleições anteriores, por conta dos problemas particulares que atingem a maior economia da América Latina.

Na última década, o Brasil cresceu quase 4 por cento ao ano por conta da forte demanda por commodities da China e do grande aumento do crédito e dos gastos dos consumidores. O crescimento, contudo, ficou abaixo dos 2 por cento ao ano no governo Dilma devido a gargalos na infraestrutura e outros problemas do lado da oferta que apenas os investimentos podem corrigir.

Dilma já conta com uma reputação ruim entre os investidores por conta da sua propensão à intervenção governamental na economia.

Diversos executivos destacados disseram à Reuters que a retórica da campanha de Dilma pode impedi-la de repetir os esforços, vistos em seu primeiro mandato, de se aproximar de líderes da indústria e do setor financeiro, para conquistar a sua confiança.

“Se ela acha que nós vamos marchando até Brasília no ano que vem, ela pode esquecer isso,” disse um executivo do setor financeiros em São Paulo que pediu para não ter seu nome revelado.

ESCORREGÃO FISCAL

A maior parte dos investidores e líderes empresariais no Brasil querem mudança no governo, principalmente por conta do baixo crescimento econômico e das finanças públicas.

O governo praticamente abandonou a sua meta fiscal de 2014 ao aumentar seus gastos em programas sociais e em projetos de interesse limitado vistos por críticos como um esforço típico de ano de eleição para ganhar apoio entre os pobres e os parceiros da coligação no Congresso.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou uma estratégia similar em 2010 para garantir que Dilma, a sua sucessora, vencesse a eleição.

Pesquisas feitas antes do primeiro turno no domingo, apontavam Dilma cerca de 6 pontos percentuais à frente de Aécio em um segundo turno. A liderança se dá principalmente pela vantagem de 22 pontos percentuais de Dilma entre as famílias com renda inferior a dois salários mínimos, que equivalem a cerca de 40 por cento do eleitorado. Aécio Neves tinha a liderança entre todas as outras faixas de renda.

Os benefícios de curto prazo do aumento nos gastos são óbvios, mas podem criar grandes problemas no orçamento para Dilma ou Aécio, caso ele consiga a virada.

“A deterioração das finanças do país é tamanha que, independentemente de quem vencer a presidência, o espaço para manobras vai ser muito restrito no próximo ano,” disse Marcos Mendes, consultor fiscal do Senado e ex-funcionário do Tesouro Nacional entre 1989 e 1992.

Em 2010, a economia cresceu 7,5 por cento, apoiada em um boom das commodities. Lula tinha construído uma boa reputação em Wall Street e a maioria dos investidores estava disposta a relevar a retórica do passado e o não cumprimento da meta fiscal no seu último ano de governo.

Hoje, a taxa de investimentos no Brasil caiu para apenas 16,5 por cento do Produto Interno Bruto, bem abaixo das taxas superiores a 20 por cento vistas em países latino-americanos como Colômbia e Peru, que registraram crescimento econômico bem maiores.

Os investidores têm dois grandes receios em relação a Dilma: que ela virou as costas para o rigor fiscal e que ela não confia no setor privado, apesar de não ser tão hostil como os governos vizinhos da Venezuela ou Argentina.

Os defensores de Dilma afirmam que ela teve que lidar com uma economia global mais complicada, que afetou também outros mercados emergentes, e que os problemas fiscais também são resultado, em parte, dos cortes de impostos que os próprios líderes empresariais pediram.

No ano até agosto, o governo atingiu apenas um décimo da sua meta de superávit primário de 99 bilhões de reais, ou o equivalente a 1,9 por cento do PIB. Isso torna quase impossível atingir a meta do ano, que foi reduzida em relação à meta inicial de 3,1 por cento do PIB.

O superávit primário é o saldo entre as receitas e as despesas do governo, que serve para pagamento dos juros da dívida.

A posição fiscal mais frágil levou a agência Standard & Poor’s a reduzir em março o rating da dívida soberana do Brasil para próximo do território especulativo, e a Moody’s Investors Service a ameaçar fazer o mesmo.

Dilma insinuou que vai tratar dessas questões que preocupam as agências de risco e outros ao fazer cortes de gastos no início de 2015, mas de forma limitada e gradual.

Qualquer coisa a mais do que isso seria politicamente complicado, já que Dilma acusou Aécio de estar preparando um forte arrocho nos gastos se for eleito, uma estratégia de ataque que os seus assessores garantem vai ficar ainda mais pronunciada no segundo turno.

Em uma ação vista como tentativa de agradar o setor privado, Dilma anunciou recentemente que irá substituir o ministro da Fazenda, Guido Mantega, caso seja reeleita, ainda que a sua saída já fosse esperada e que a presidente tome ela mesmo várias das principais decisões financeiras.

Charles Lieberman, fundador do Advisors Capital Management, fundo de investimento que administra 1 bilhão de dólares em ações e outros ativos, disse que vendeu todas as ações que tinha da Petrobras no início do mandato de Dilma por conta da sua interferência na estatal de petróleo e na economia em geral.

O comportamento de Dima nesta campanha eleitoral tem sido “preocupante”, disse ele. “Para mim, tudo isso diz: fique longe.”

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