17 de Novembro de 2014 / às 21:39 / 3 anos atrás

Governo garante direção da Petrobras por ora; troca está decidida, dizem fontes

Sede da Petrobras no centro do Rio de Janeiro na semana passada. 14/11/2014Sergio Moraes

BRASÍLIA (Reuters) - A substituição da diretoria da Petrobras, apesar de decidida pelo governo, não deve ser imediata, enquanto se desenvolvem as investigações da operação Lava Jato, da Polícia Federal, que indicam que a estatal poderá ter importantes perdas financeiras, dando mais munição para a oposição atacar a presidente Dilma Rousseff.

A substituição da cúpula da empresa, que incluiria a saída da presidente-executiva, Maria das Graças Foster, dificilmente ocorrerá até o final deste ano, na avaliação de duas fontes do Palácio do Planalto ouvidas pela Reuters nesta segunda-feira.

Uma delas disse, sob condição de anonimato, que a tendência é aguardar a investigação avançar um pouco mais para que o quadro fique mais claro.

"Não acredito que a investigação vai acelerar esse processo (de troca no comando da estatal)", disse essa fonte à Reuters.

Uma segunda fonte do Planalto avaliou que ainda é muito cedo para promover mudanças, até porque ainda haverá um longo processo de delação premiada nas investigações, que poderiam apontar novos envolvidos na estatal.

Essa fonte admitiu que a preocupação do governo com a companhia é grande, mas que há pouco que o Executivo possa fazer no momento para reverter o quadro atual.

As duas fontes trataram do tema como se a mudança no comando da empresa já estivesse definida. Mas indicaram que o melhor momento para a substituição não é agora.

Graça Foster, como gosta de ser chamada a presidente da Petrobras, deixaria o cargo apesar de ter ampla confiança da presidente Dilma. As duas ainda são consideradas amigas.

A proximidade delas é tamanha que Graça Foster já pernoitou no Palácio do Alvorada, convite raríssimo no círculo de amizades da presidente.

Questionada sobre o assunto nesta segunda-feira por jornalistas, a presidente da Petrobras disse que não ter nenhuma informação sobre mudanças na diretoria.

Graça Foster assumiu a presidência da Petrobras no início de 2012. Meses depois, deixaram a companhia Paulo Roberto Costa, que comandou por anos a diretoria de Abastecimento, e Renato Duque, que esteve à frente da divisão de Engenharia, Tecnologia e Materiais da estatal. Ambos estão no centro das investigações da Polícia Federal.

Duque foi preso na última sexta-feira, no mesmo dia em que executivos de empreiteiras acabaram detidos pela Lava Jato. Costa, que após ser preso denunciou o esquema de corrupção, no âmbito da delação premiada, disse à Justiça que Duque estava envolvido nas irregularidades.

Costa afirmou também que grandes empreiteiras teriam fechado contratos com a estatal por anos com sobrepreço médio de 3 por cento, e que a maior parte do dinheiro foi repassada para PT, PP e PMDB. Também está em processo de delação premiada o doleiro Alberto Yousseff, acusado de lavar dinheiro dos desvios.

As ações da Petrobras ampliaram perdas nesta tarde e fecharam em queda de 4,55 por cento, no caso das preferenciais, e de 5 por cento, para as ordinárias, com o mercado preocupado sobre o impacto de denúncias de corrupção nas contas da empresa.

Em teleconferência para explicar o adiamento da divulgação do balanço financeiro da estatal do terceiro trimestre, executivos informaram que a Petrobras poderá realizar eventuais baixas contábeis em seus ativos de acordo com o tamanho das propinas pagas na contratação das obras, tomando como base provas entregues à Justiça no âmbito da operação Lava Jato.

MAIS EXPERIÊNCIA PARA CRISES

A primeira fonte disse à Reuters que para o lugar de Graça o governo gostaria de ter uma pessoa com vasta experiência técnica, mas que também tenha um perfil mais completo, com qualidade para gerir crises e outras frentes da estatal.

Questionado sobre a mudança no comando da estatal nesta segunda-feira, o presidente em exercício, Michel Temer, disse que Dilma deve se debruçar sobre o tema em breve.

"Isso (a mudança na diretoria) é uma coisa para o futuro", disse. "A presidenta certamente tomará deliberações agora no final do ano em relação a essa matéria", afirmou a jornalistas.

Temer ressaltou ainda que as investigações não comprometem a gestão de Graça Foster à frente da estatal.

MUDANÇA MAIS RÁPIDA

Uma terceira fonte do governo, porém, discorda da estratégia de fazer as mudanças somente depois do avanço das investigações.

Para essa fonte, que também falou sob condição de anonimato, assim como é preciso resgatar a confiança da equipe econômica com novos nomes, na estatal uma mudança ampla poderia dar mais credibilidade ao discurso de transparência e tolerância zero com a impunidade.

"Talvez, além da carta de demissão voluntária dos ministros, faria bem ao governo ter cartas de demissão voluntária da diretoria da estatal", disse a fonte.

A substituição da diretoria, na avaliação dessa fonte, iria dar força ao discurso do governo de que não encobrirá fatos revelados pela investigação da operação Lava Jato.

Desde o início das investigações, a presidente Dilma tem dito que não interromperá as investigações, não importa quem elas atinjam.

Segundo ela, a operação da Polícia Federal será um marco para o combate à corrupção no país.

Com reportagem adicional de Marta Nogueira

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