27 de Janeiro de 2016 / às 20:04 / 2 anos atrás

Limpeza de hidrelétrica atingida por rejeitos da Samarco pode levar até 2 anos

SÃO PAULO (Reuters) - A hidrelétrica de Candonga, operada por Cemig e Vale, recebeu 9,1 milhões de metros cúbicos de rejeitos e lama após o rompimento de uma barragem da mineradora Samarco na região do rio Doce, em Minas Gerais, o que comprometeu a capacidade de geração da usina e deve exigir uma limpeza que poderia levar até dois anos, segundo documentos e especialistas.

Relatório da consultoria em engenharia e hidrologia Potamos ao qual a Reuters teve acesso calcula que a usina, a 120 quilômetros de Mariana (MG), onde ficava a barragem que estourou, "recebeu cerca de 30 por cento do total de rejeitos liberado pelo incidente".

No total, quatro usinas pararam logo na sequência do acidente, em novembro, em um total de 790 megawatts fora de operação.

Embora o montante não chegue a colocar em risco o suprimento de energia do país, a ausência das usinas ajuda a aumentar os custos do despacho de termelétricas, que estão ligadas desde o final de 2012 após dois anos de chuvas desfavoráveis.

No caso da usina de Candonga, análise contratada pela Aliança, joint venture entre Cemig e Vale responsável pelo empreendimento, apontou "uma situação de assoreamento quase total do volume morto do reservatório, até o limite das entradas dos dispositivos de descarga".

Em outras palavras, a lama está próxima demais do dutos de captação de água, o que cria risco de contato dos detritos com as máquinas, que poderia causar danos graves aos equipamentos.

O professor da Universidade Federal de Itajubá Geraldo Lúcio Tiago Filho, especialista em geração hídrica, explicou que o assoreamento representa o acúmulo de sedimentos no fundo do reservatório da usina.

"Isso vai diminuindo o volume do reservatório, e com isso diminui a quantidade de energia disponível da usina... se o volume morto está ocupado (por sedimentos), vai ter que desassorear", apontou.

Esse desassoreamento, ou dragagem, foi apontado pela Potamos como "única solução a ser aplicada" para recuperar o volume morto do reservatório.

"A única forma de retirar esse material é por dragagem, com equipamentos pesados de sucção e recalque... A limpeza total do reservatório duraria cerca de 2 anos. Para retirar apenas a lama depositada, o prazo de operação seria... superior a 1 ano, desde que a operação e a taxa de produção fossem constantes e ininterruptas, o que não é praticável", disse a análise.

Segundo o diretor da consultoria Andrade&Canellas, Silvio Areco, é possível que uma dragagem parcial já permita a retomada da produção de energia, com o restante dos trabalhos sendo feito com a usina em funcionamento, mas essa opção demandaria uma análise cautelosa, tendo em vista os possíveis dados provocados pelos rejeitos em contato com a turbina.

"Precisa ver se ao chegar a certo ponto já é suficiente para garantir a integridade dos equipamentos, das turbinas... o ideal seria limpar até a condição que existia antes", apontou.

DESTINO DOS REJEITOS

O relatório sobre as condições da hidrelétrica Candonga ainda ressalta que é preciso analisar "criteriosamente" em termos técnicos e ambientais qual seria o destino do material retirado do reservatório durante o desassoreamento.

"Isso tem que ser acordado com os órgãos responsáveis para não causar mais impacto no rio", afirmou o diretor da consultoria L&F Engenharia, João Lopes Ferreira Neto.

Areco, da Andrade&Canellas, lembrou a hipótese de apenas diluir os rejeitos no rio ajudaria a prolongar uma situação já considerada como o maior desastre ambiental da história do país.

"Uma das soluções poderia ser a Samarco comprar a usina e desligá-la, utilizá-la como depósito de rejeitos... mas tenho dúvidas se o empreendimento está preparado para isso", disse Areco.

Segundo a análise feita na usina pela Potamos, "o material liberado pela barragem rompida apresenta granulometria fina (argila e silte) e elevada densidade, tendo-se depositado de forma uniforme no fundo do reservatório".

CONTA PARA A SAMARCO

Procurada, a Aliança Energia informou, via assessoria, que a hidrelétrica não tem data prevista para retomada das operações, o que ainda dependerá de autorizações a serem obtidas junto a vários órgãos e da conclusão de estudos detalhados sobre os impactos do incidente sobre equipamentos e estruturas civis.

A companhia também disse que a limpeza da lama na usina ficou a cargo da Samarco, devido a uma decisão judicial.

Procurada, a Samarco não respondeu a pedidos de comentário.

Os consultores ouvidos pela Reuters foram unânimes no entendimento de que a Aliança poderá cobrar judicialmente ressarcimentos junto à Samarco pelos custos de limpeza do reservatório, bem como por eventuais perdas comerciais devido à paralisação da geração.

"O operador (da usina) vai ter que se resolver com a Samarco... Não é porque houve o acidente que ele está isento de operar a usina. Existe um contrato de energia garantida... Se não consegue gerar, tem que comprar no mercado", explicou Tiago Filho, da Unifei.

Questionada sobre eventuais pedidos de ressarcimento à Samarco, a Aliança disse que o assunto será discutido entre seus acionistas.

A Samarco é uma joint venture entre Vale, também acionista da Aliança, e BHP Billiton.

OUTRAS USINAS

Outras três hidrelétricas do rio Doce também foram afetadas pelos rejeitos da barragem rompida, mas em menor escala, devido à retenção dos materiais em Candonga. Todas estão paradas no momento.

Na usina Aimorés, também da Aliança, um segundo relatório obtido pela Reuters aponta que "não houve deposição significativa de material" no reservatório.

Já a usina Baguari, que tem como sócios Neoenergia, Furnas, da Eletrobras, e Cemig, concluiu, segundo documento visto pela Reuters, que "não foram identificadas avarias que comprometam a segurança e operação das estruturas civis".

O relatório, no entanto, apontou indícios de assoreamento e "contaminação interna das unidades geradoras observadas, podendo haver, portanto, danos (às máquinas de geração)".

A hidrelétrica Mascarenhas de Moraes, da EDP Energias do Brasil, última a ser atingida pela lama, não sofreu problemas, segundo a companhia, que disse recentemente já ter solicitado autorização da Agência Nacional de Águas para retomar a operação.

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