March 3, 2016 / 2:11 PM / in 3 years

Brasil encolhe 3,8% em 2015, pior resultado em 25 anos; investimentos despencam

RIO DE JANEIRO/SÃO PAULO (Reuters) - A economia brasileira encolheu 3,8 por cento em 2015, o pior resultado desde 1990, com contração recorde nos investimentos e na indústria, sinalizando que uma recuperação está ainda longe em meio ao quadro de baixíssima confiança generalizada e crise política.

Caminhões em fábrica de São Bernardo do Campo 2/4/2015 REUTERS/Paulo Whitaker

Só no quarto trimestre de 2015, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quinta-feira, o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil encolheu 1,4 por cento sobre os três meses imediatamente anteriores. Sobre o quarto trimestre de 2014, a atividade despencou 5,9 por cento.

Pesquisa da Reuters apontava queda de 1,5 por cento entre outubro e dezembro na comparação trimestral e de 6 por cento sobre o quarto trimestre de 2014. Para 2015, as contas indicavam recuo de 3,8 por cento

Em 2014, o PIB cresceu apenas 0,1 por cento, número que não foi revisado pelo IBGE.

“O resultado (de 2015) reflete o quadro de desconfiança que vivemos. Os fatores que fizeram o PIB cair em 2015 não alteram em 2016”, afirmou o economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Rosa, cujo cenário é de que o impeachment da presidente Dilma Rousseff não se materialize. “Mas o governo continua paralisado e acuado”, acrescentou.

O país vive profunda crise econômica e política, em meio ao cenário de inflação de dois dígitos, desemprego e juros elevados, que tem abalado ainda mais a confiança dos agentes econômicos e colocado desafios cada vez maiores para a presidente, sobretudo no campo fiscal.

QUEDA GENERALIZADA

No quarto trimestre, o PIB encolheu em praticamente todas as frentes, com forte destaque para os investimentos produtivos. Segundo o IBGE, a Formação Bruta de Capital Fixa (FBCF) despencou 4,9 por cento no trimestre passado, comparado com o terceiro trimestre. E em 2015 todo, a retração foi de 14,1 por cento, pior desempenho da história.

Com isso, a taxa de investimento encerrou o ano passado a 18,2 por cento do PIB, a menor desde 2007 (18 por cento)

A indústria caiu 1,4 por cento no quarto trimestre sobre o imediatamente anterior, mesma queda registrada pelos serviços. No ano, o recuo foi de 6,2 e 2,7 por cento, respectivamente, ambos também recorde.

O consumo das famílias teve queda de 1,3 por cento no trimestre passado, sobre os três meses anteriores, enquanto o consumo do governo contraiu 2,9 por cento. No ano, as quedas foram de 4,0 e 1,0 por cento, respectivamente.

“(A queda no) consumo das famílias foi recorde e está diretamente ligada aos juros mais altos, renda menor e inflação mais salgada”, afirmou a economista do IBGE Rebeca Palis.

Apenas a agropecuária cresceu em 2015 e no quarto trimestre: 1,8 e 2,9 por cento, respectivamente.

E o setor externo, por conta da forte valorização do dólar frente ao real —de quase 50 por cento em 2015—, também pesou positivamente na economia brasileira, com contribuição de 2,7 por cento, segundo o IBGE, a primeira positiva desde 2005. Mas a demanda interna teve peso negativo de 6,5 por cento, algo que não acontecia desde 2003.

“Não há motor de crescimento na economia brasileira ainda, o único motor que a gente tem são as exportações, mas a economia brasileira é fechada então a gente não vê o setor externo como solução para nos tirar do buraco”, avaliou o economista da Nomura Securities para América Latina João Pedro Ribeiro.

Pesquisa Focus do Banco Central, que ouve semanalmente uma centena de economistas, mostrou que a projeção é de que a economia brasileira continue recuando neste ano (-3,45 por cento), com leve recuperação a partir de 2017, com crescimento de 0,5 por cento.

Com a economia cada vez mais anêmica, a necessidade de austeridade fiscal maior para estabilizar a dívida do país cresceu bastante. Pesquisa Reuters mostrou nesta semana que, agora, os economistas consultados acreditam que é preciso ter superávit primário de 2,8 por cento do PIB para isso e que a economia brasileira voltará ao nível pré-recessão apenas em 2019.

Reportagem adicional de Marta Nogueira, no Rio de Janeiro; e Bruno Federowski, em São Paulo

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