29 de Abril de 2016 / às 18:31 / em 2 anos

ESPECIAL-Crise aperrea, mas não muda planos de expansão do ensino superior privado no Nordeste

RECIFE/CARUARU, Pernambuco (Reuters) - Cerca de 50 ônibus, vans e carros fretados ou oferecidos por prefeituras chegam diariamente no início da noite a Caruaru, segunda maior cidade de Pernambuco, levando estudantes que buscam na formação universitária uma chance de melhor colocação no mercado de trabalho, ainda que as crises econômica e política gerem dúvidas sobre o futuro.

Estudantes em centro universitário em Caruaru, Pernambuco

Com 350 mil habitantes e a 130 quilômetros da capital Recife, Caruaru é um exemplo de como políticas generosas de financiamento público para a educação ampliaram os investimentos privados no setor, levando para a cidade laboratórios, bibliotecas e infraestrutura de primeira linha para os estudantes.

Mas os efeitos da restrição orçamentária que têm constrangido o lema “Pátria Educadora”, criado para o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, já começam a ser percebidos.

A cidade, um polo regional que reúne cerca de 70 municípios do agreste de Pernambuco, tinha até o início dos anos 2000 apenas duas faculdades particulares locais, com poucas opções de cursos. De lá para cá, a oferta teve forte crescimento com a chegada de dois grandes grupos privados de ensino, a norte-americana Devry e a Ser Educacional, e o número de estudantes subiu de 1 mil para 15 mil até o final do ano passado.

Entre estes alunos, o motorista da prefeitura de Poção (PE) João Paulo Alves, 25 anos, conduz diariamente cerca de 40 estudantes até Caruaru em uma viagem que dura três horas. Ele próprio cursa o nono período de arquitetura como bolsista integral do Programa Universidade para Todos (Prouni).

Como o mercado de trabalho da região é restrito, Alves já pensa em fazer uma nova faculdade, de engenharia, mas vê dificuldades para isso após os cortes no Fies, fundo do governo federal para financiamento de estudantes no ensino superior, que sofreu cortes de 80 por cento a partir do ano passado em relação ao pico em 2014.

“Quando eu entrei estava bem fácil. Hoje eu percebo que tem muita complicação com Fies, Prouni, não estão dando 100 por cento como antigamente”, disse.

No ápice em 2014, o Fies chegou a oferecer 732 mil financiamentos apenas para novos estudantes, sempre com crédito integral. O valor desembolsado naquele ano para 1,9 milhão de alunos chegou a 13,75 bilhões de reais, considerando contratos antigos e novos. Mas desde o corte orçamentário em 2015 e trocas sucessivas de ministros da Educação, a expectativa é que o programa mantenha o nível de oferta do ano passado, de cerca de 300 mil vagas novas ao ano.

Além de reduzir as vagas, o governo estabeleceu novas regras para a concessão dos financiamentos, consideradas rigorosas. No entanto, o ministério da Educação (MEC) flexibilizou algumas delas nesta semana, além de anunciar que vai avaliar aumentar o teto da renda para estudantes elegíveis ao financiamento, atualmente estabelecida em 2,5 salários per capita.

Em geral, as novidades atenderam pleitos de executivos e entidades do setor, mas o impacto da queda do número de vagas oferecidas permanece.

“Estas mudanças tendem a minimizar uma situação (de recuo nas vagas), mas o cumprimento de metas do PNE (Plano Nacional de Educação, você pode esquecer aquilo”, disse o diretor-executivo da Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior (ABMES), Sólon Caldas.

Um dos objetivos do PNE, em que o financiamento federal é tido como importante alavanca, é elevar a taxa bruta de matrícula no ensino superior até 2024 para 50 por cento da população de 18 a 24 anos. Em 2013, um ano antes do pico do Fies, esta fatia era de 16,5 por cento.

“Como você vai praticamente mais que dobrar este percentual se você tem regras rígidas para que o aluno ingresse no ensino superior? Isso vai comprometer o desenvolvimento econômico do país”, disse o presidente do Conselho de Administração e fundador do Ser Educacional, grupo com origem no Nordeste, Janguiê Diniz, em seu escritório em Recife.

Segundo ele, muitos alunos se viram traídos pelas restrições nos gastos federais. Um deles é Jordânia Feitosa, de 18 anos. Ela matriculou-se no curso de enfermagem em 2015 e passou três meses fazendo o trajeto Poção-Caruaru no ônibus gratuito da prefeitura, enquanto esperava uma definição sobre sua situação no Fies.

Ao receber a negativa sobre o financiamento, ela desistiu do curso de enfermagem na Faculdade Maurício de Nassau, do grupo Ser. Agora, tenta uma vaga numa faculdade pública ou financiamento por meio do Prouni, que concede bolsas de estudo integrais em instituições privadas e tem escopo menor do que o Fies.

“Logo no início do Fies, qualquer pessoa era aprovada (no Fies)... Tudo o que aconteceu e que não foi favorável (no setor de educação) é por causa do governo”, disse a jovem. Filha de agricultores, ela tem um irmão que cursa educação física em Recife com financiamento federal e não vê chances de melhora com um eventual governo do PMDB, caso o impeachment da presidente Dilma Rousseff se confirme.

“A gente vê que o Temer vai no mesmo sentido (de restrições orçamentárias) da presidente. É uma situação que está se agravando”, disse ela.

Para o ex-ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, as restrições orçamentárias irão permanecer caso Dilma saia da presidência, e no caso da educação, haverá uma demanda reprimida de estudantes que não conseguirão ingressar no ensino superior por meio destes programas nos próximos anos.

“Na hora que as coisas melhorarem, você vai ter uma demanda represada dos anos anteriores que vão querer entrar (em uma faculdade). É de fato muito delicado. Por isso mesmo o governo se empenhou em reduzir este dano ao mínimo”, disse ele, que comandou o ministério de abril a setembro do ano passado.

FOCO NO INTERIOR

O Nordeste é considerado estratégico para o crescimento das empresas de educação, que não mudaram seus planos de expansão mesmo com o corte no financiamento público e planejam crescer fora das capitais.

Apesar de ser a segunda região do país com mais matrículas no ensino superior privado presencial, com 850.936 estudantes em 2014, a base de alunos do Nordeste era quase três vezes menor do que a da primeira colocada, a região Sudeste, com 2,4 milhões de alunos, de acordo com os dados mais recentes do Censo da Educação Superior.

Em 2014, o número de matrículas no ensino privado na região cresceu 9,7 por cento na comparação com 2013, ritmo acima da média nacional de 6,8 por cento. O resultado foi impulsionado pela baixa penetração da população no nível superior e perspectivas de desenvolvimento econômico na região.

”A economia do Nordeste foi a região que mais cresceu até 2014, mas deve ser uma das regiões mais afetadas pela crise. É a segunda região do país que mais demite”, disse a economista Amanda Aires. Na região, a taxa de desemprego no quarto trimestre de 2015 chegou a 10,5 por cento ante média nacional de 9 por cento.

Assim como outros setores da economia regional, a educação privada pode sofrer mais do que a média nacional, especialmente as instituições de ensino de menor porte. De acordo com a Hoper Consultoria, especializada no setor educacional, essas empresas podem sofrer um recuo de 30 por cento no número de novos alunos em 2016, ante queda nacional estimada entre 20 e 25 por cento.

Profissionalizados e com forte poder de escala, os grandes grupos presentes na região também sofrem com o momento atual, mas possuem ferramentas para atenuar parte deste impacto.

Na Ser Educacional, o número de novos alunos caiu 12,5 por cento no primeiro trimestre, levando em conta uma base de comparação com 8,3 mil alunos que se matricularam no primeiro trimestre de 2015 e depois evadiram por não terem conseguido o Fies. A empresa não informou os dados por região.

“O Nordeste é a região que tem o maior mercado de alunos endereçáveis à faculdade hoje... A grande maioria quer cursar o ensino superior”, disse o diretor-presidente da Ser Educacional, Jânyo Diniz. Por enquanto, segundo ele, o que preocupa os estudantes é a extensão da crise.

De olho neste tipo de preocupação, a Devry Brasil está apostando em um tom otimista com os futuros alunos. “A crise vai passar e você vai ter que estar pronto, a gente trabalha isso com o aluno”, disse a diretora regional da Devry Brasil, Mauricélia Bezerra Vidal. Segundo ela, a unidade de Caruaru – Devry Unifavip – teve “um ano difícil em 2015 como foi para o país”, mas há possibilidade de crescimento orgânico nos próximos 3 a 4 anos com os cursos já existentes, além da possibilidade de lançamento de novos cursos.

O vice-presidente do grupo norte-americano no Brasil, Geraldo Magela, afirmou que os investimentos da empresa na região Nordeste não vão parar. “Este ano a gente está mais cauteloso em relação ao anterior, mas continuamos observando inclusive aquisições na região”, disse ele.

Entre 2005 e 2014, o número de instituições de ensino superior no Nordeste cresceu 17 por cento, para 385, ante um avanço de 2,8 por cento do Sudeste e 7 por cento nacional, de acordo com dados da ABMES.

Na Estácio, segundo maior grupo de educação com capital aberto do país, a tendência é investir nas cidades de maior porte do interior do Nordeste, como Caruaru ou Jaboatão dos Guararapes (PE), disse o presidente da instituição, Rogério Melzi. “Estamos falando das segundas ou terceiras cidades mais populosas dos Estados do Nordeste”, disse.

Até a empresa com a menor presença na região, a líder no mercado brasileiro Kroton Educacional, está focando no Nordeste, com a instalação de um campus em João Pessoa (PB), que começará a receber alunos no segundo semestre.

DE VOLTA PARA CASA

Até o momento, a pequena Poção precisa apenas de um ônibus para enviar os alunos para as faculdades de Caruaru, que retorna à cidade por volta de 1h, às vezes mais cheio do que na ida.

Entre os passageiros, o cansaço diário e outras preocupações não desanimam estudantes como Fernanda Saylla, aluna de psicologia que conseguiu financiamento pelo Fies, mas que ainda não sabe como arcar com custos futuros exigidos pelo curso, como uma possível mudança para Caruaru para cumprir estágios obrigatórios.

“Se não fosse o PT e o Fies quando eu estaria cursando psicologia? Quando com o meu dinheiro eu ganharia isso?”, afirmou a jovem, mencionando a mensalidade de 1 mil reais cobrada pela Devry Unifavip.

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