2 de Maio de 2016 / às 18:16 / em 2 anos

ENTREVISTA-State Grid vê "complexidade" para fechar negócio rápido com Abengoa no Brasil

RIO DE JANEIRO (Reuters) - A chinesa State Grid, uma das maiores interessadas nos ativos de transmissão de energia da Abengoa no Brasil, avalia como “boa” a eventual aquisição de linhas em operação e em construção da empresa espanhola, mas considera o negócio extremamente complexo para ser fechado a toque de caixa.

Em entrevista à Reuters, o vice-presidente da State Grid no país, Ramon Haddad, disse ainda que uma posição final sobre um acordo deverá sair no curto prazo, mas possivelmente não com a velocidade esperada pelo governo brasileiro, que tem pressa porque a espanhola paralisou obras no país em meio a uma crise financeira.

Como a Abengoa venceu licitações de importantes linhas de transmissão de energia, o governo tem tentado acelerar as negociações da State Grid com a companhia, para que as obras sejam retomadas e evitem atrasos, que poderiam comprometer o sistema elétrico do Brasil até 2020, segundo estudo da estatal Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) publicado pela Reuters.

Haddad disse que as tratativas com os espanhóis já começaram e os termos do negócio foram levados às matrizes de ambas as companhias no exterior.

“A engenharia para nós não é problema... A complexidade está no perfil dos ativos, na natureza da situação dos ativos... estamos atentos às necessidades do país, e, se for viabilizada nossa operação vamos tentar dar um atenção especial ao governo... mas estamos indo com cuidado para não fazer nada errado nem precipitadamente”, afirmou Haddad.

A Abengoa tem cerca de 3,5 mil quilômetros de linhas em operação no país, além de cerca de 6,3 mil quilômetros ainda em construção, segundo informações do site da companhia.

“É um operação complexa por envolver ativos de diversas formas (em operação e em diversos estágios de implementação)... com situações financeiras complicadas, riscos associados. Tem contratos já feitos (com fornecedores) e financiamentos associados, que aumentam a complexidade”, disse Haddad.

Elevadas dívidas dos projetos da Abengoa com fornecedores, incluindo contratos em dólar, já tinham sido citadas entre os fatores que dificultam a venda dos ativos da companhia no Brasil.

Os valores envolvidos na potencial transação não foram antecipados pela State Grid.

O governo brasileiro aguarda com grande expectativa a conclusão dessas negociações e entende que uma solução de mercado entre empresas, sem a intervenção estatal, é a melhor e mais ágil para viabilizar os empreendimentos da Abengoa.

Uma das grandes preocupações é com linhas da espanhola que fariam a conexão da mega hidrelétrica de Belo Monte ao Nordeste do Brasil, que sofre com a falta de chuvas e frequentemente depende do recebimento de energia de outras regiões do país.

Na semana passada, o secretário-executivo do Ministério de Minas e Energia, Luiz Eduardo Barata, afirmou que esperava que um proposta firme da State Grid fosse apresentada à Abengoa até meados de maio. Ele disse que, se ultrapassado esse prazo, o governo poderia revogar as concessões da Abengoa para relicitá-las.

Segundo Haddad, a State Grid finalizou uma due dilligence nos ativos e os resultados foram encaminhados para análise da matriz na China, mas será difícil cumprir o prazo pedido pelo ministério.

“Consideramos que a aquisição é boa... todo mundo parece que está apostando em nós... estamos conversando, mas (não trabalhamos) com essas datas... a proposta podemos até apresentar num curto espaço de tempo, mas no mês de maio não sei se conseguimos... não assumimos esse prazo do governo”, disse Haddad.

Ele não comentou quanto tempo seria necessário.

Haddad afirmou que as tratativas com a Abengoa preveem uma oferta em “duas etapas”. Dependendo da resposta dos espanhóis à primeira oferta, não firme, a segunda seria levada adiante.

“A Abengoa é um caso muito complexo; a empresa é extremamente complexa e a operação também é bastante complexa. A proposta de fazer uma oferta em dois passos está sendo considerada”, disse ele.

CENÁRIO POLÍTICO

Haddad admitiu que a instabilidade política no país, com o afastamento da presidente Dilma Rousseff próximo de ser analisado pelo Senado, “será precificado no risco do negócio”, principalmente no caso dos ativos que ainda precisarão ser construídos.

“Isso significa dizer que nosso preço não poderá ser tão agressivo como foi o preço da Abengoa (nos leilões dos projetos)”, afirmou.

Ainda assim, o vice-presidente da State Grid garantiu que essa instabilidade não é um obstáculo ao ritmo de andamento das negociações com a Abengoa. “Não creio que isso possa influenciar”, disse.

O único ponto das negociações que envolve diretamente a política diz respeito aos prazos para entrada em operação de linhas da Abengoa, que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) já adiantou que poderão ser revistos.

“Isso teria influência política, regulatória, (e) é o que a gente espera que aconteça (a revisão dos prazos)”, disse Haddad.

CELG-D

Outra investida da State Grid no país pode ser a distribuidora de energia Celg–D, de Goiás, que pertence à Eletrobras, mas será colocada à venda em leilão previsto ainda este ano.

Os chineses aguardam a publicação do edital de venda da distribuidora para definir a estratégia de atuação.

“A Celg vale a pena, porque atua na parte central do país e perto de muitos ativos que já temos. Mas vai depender das condições do leilão”, frisou Haddad.

O executivo destacou que um dos desafios é o “passivo alto da empresa”.

O preço mínimo para a Celg-D é de cerca de 2,8 bilhões de reais. Incluídas dívidas a serem assumidas pelo comprador, o negócio poderia atingir um total de 5,2 bilhões de reais.

“A empresa tem um dívida de 2 bilhões e tem que ver como isso terá que ser pago. Se vai ser absorvida integralmente, como vão ser as condições de pagamento e como serão as condições de compensação. Temos a fotografia do que é, mas faltam as informações financeiras que só o edital dirá.”

O ministério de Minas e Energia sinalizou na semana passada que o preço da licitação deverá ser revisto.

RENOVA

Questionado sobre eventual interesse da State Grid na parcela da elétrica Light na Renova, uma companhia de energia renovável controlada pela Cemig, Haddad desconversou.

“Pode ser que o pessoal (da área de) de renovável esteja olhando isso. Não sei”, disse.

O executivo, no entanto, disse que a empresa tem forte interesse em investir em energia renovável no Brasil, principalmente solar, e boas oportunidades estão sendo analisadas.

A State Grid pretende investir 15 bilhões de reais no Brasil até 2020 nas áreas de transmissão, distribuição, energia renovável e em grandes ativos de geração hidrelétrica.

0 : 0
  • narrow-browser-and-phone
  • medium-browser-and-portrait-tablet
  • landscape-tablet
  • medium-wide-browser
  • wide-browser-and-larger
  • medium-browser-and-landscape-tablet
  • medium-wide-browser-and-larger
  • above-phone
  • portrait-tablet-and-above
  • above-portrait-tablet
  • landscape-tablet-and-above
  • landscape-tablet-and-medium-wide-browser
  • portrait-tablet-and-below
  • landscape-tablet-and-below