19 de Julho de 2016 / às 21:12 / em um ano

ANÁLISE-Parente aprimora comunicação da Petrobras com mercado e agrada Conselho

RIO DE JANEIRO (Reuters) - Perto de completar dois meses no comando da Petrobras, Pedro Parente mostra uma mudança substancial na política de comunicação da direção da empresa, mostrando-se aberto ao diálogo com o mercado, a imprensa e até mesmo com o público interno, atendendo a uma antiga demanda do Conselho do Administração.

Parente, durante posse no Rio de Janeiro 2/6/2016 REUTERS/Sergio Moraes

Apesar de ressalvas sobre o executivo estar apenas começando o trabalho, o colegiado da empresa avalia positivamente a postura mais vocal do novo presidente, segundo duas fontes com conhecimento direto do assunto.

Analistas de mercado também já começaram a fazer avaliações favoráveis sobre sua gestão.

O executivo, que assumiu a Petrobras em 30 de maio, não tem se esquivado de investidas de jornalistas em eventos, sempre pronto para repetir resultados recentes e apontar avanços, enquanto busca resgatar a companhia, que acumula hoje a maior dívida para uma petroleira no mundo.

“As mudanças na companhia já estavam em andamento... O que está acontecendo com o Pedro é que ele está seguindo o mesmo caminho, só que ele é mais vocal, ele fala mais com a imprensa... faz uma comunicação maior”, afirmou uma das fontes, com conhecimento direto sobre as reuniões do Conselho.

Para a fonte, medidas importantes, como independência do Conselho, busca por redução de custos, melhoria da governança e da eficiência, reorganização estrutural, dentre outras, já estavam em curso desde a última gestão.

“Nesse momento, em que a empresa tem que ganhar mais credibilidade, mais confiança, é importante falar... o Conselho falava isso para o (ex-presidente Aldemir) Bendine: ‘tem que melhorar a comunicação’”, recordou a fonte.

Entretanto, uma segunda fonte, também com conhecimento direto das reuniões do Conselho, ponderou que ainda é “muito cedo” para falar sobre os resultados da gestão, uma vez que houve apenas uma reunião do colegiado após Parente assumir.

O executivo tem repetido para diferentes públicos que tem autonomia para tomar decisões em relação ao governo e ainda defendido com veemência o realismo das metas, vistas como cruciais pelo mercado e traçadas ainda na gestão anterior, como a realização de um plano bilionário de venda de ativos e o crescimento contínuo da produção.

Uma fonte da empresa próxima ao presidente afirmou que essa é uma postura do próprio Parente e negou que haja uma estratégia montada e pensada para melhorar a imagem da empresa.

“Ele acredita que tem que ouvir as pessoas... É uma crença de modelo de gestão dele”, afirmou a fonte.

Segundo a mesma fonte, o presidente já se reuniu com mais de 5 mil funcionários para responder perguntas e ouvir comentários sobre a empresa, em encontros que começaram a acontecer logo em sua primeira semana.

O executivo tem visitado unidades também com esse propósito, além de responder com frequência observações de trabalhadores na intranet da empresa, assinando como “Pedro”.

“Ele (Parente) está disputando as mentes e os corações dos petroleiros conosco”, afirmou o coordenador-geral do Sindicato dos Petroleiros da Bahia, Deyvid Bacelar, ao comentar as reuniões do executivo com funcionários.

Parente enfrenta forte resistência por parte de sindicatos de funcionários, que se opõem ao plano de desinvestimentos e desaprovam a escolha de seu nome, pela sua participação no governo de Fernando Henrique Cardoso e suas privatizações.

Além disso, Parente foi indicado pelo governo interino de Michel Temer, após o afastamento de Dilma Rousseff, e a maior parte dos sindicatos da empresa é filiada à Federação Única dos Petroleiros (FUP), aliada ao Partido dos Trabalhadores (PT).

A outra parte é filiada à Federação Nacional dos Petroleiros (FNP), que surgiu a partir de uma cisão da FUP com a proposta deter maior independência de partidos políticos. Sua principal bandeira é defender que a Petrobras seja 100 por cento estatal.

Os trabalhadores estão se organizando para realizar uma greve contra o presidente e a venda de ativos da Petrobras.

ANALISTAS

Se com os sindicalistas Parente ainda não obteve resultados positivos, o executivo com perfil voltado para o mercado já começou a ver relatórios de analistas de bancos e corretoras favoráveis ao seu trabalho.

Na segunda-feira, o UBS retomou a cobertura dos papeis da Petrobras afirmando que via a empresa “como uma fênix que renasce graças a previsões maiores para os preços do petróleo, melhorias no marco regulatório local e nova gestão”.

Na semana passada, o Itaú BBA também elevou o preço-alvo da Petrobras em um relatório intitulado como “quando fatos mudam, nós mudamos de opinião”. Para o Itaú BBA, a nova gestão, a entrega de redução de custos, o programa de venda de ativos e o melhor ambiente para o gerenciamento de passivos serão os pilares para uma melhoria sustentável da empresa.

Para Edmar de Almeida, professor e pesquisador do Grupo de Economia da Energia do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Parente tem conseguido se posicionar de maneira mais incisiva que outras gestões, demonstrando mais autonomia em relação ao governo.

“Ele está fazendo coisas bem básicas, que se esperam de um CEO e com muita desenvoltura, e o mercado não estava acostumado com isso... Isso reflete o fato dele ter um mandato com mais autonomia”, afirmou Almeida.

Roberto Castello Branco, que foi conselheiro da Petrobras durante a gestão de Aldemir Bendine, no ano passado, afirmou que Parente está fazendo o que um bom presidente deve fazer, que é ser transparente.

“Trata-se de mudança fundamental na Petrobras, dada a opacidade característica de outros administradores da empresa”, afirmou Castello Branco.

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