7 de Outubro de 2016 / às 21:47 / um ano atrás

Preços do trigo abaixo do mínimo no Brasil exigirão medidas do governo, diz fonte

SÃO PAULO (Reuters) - Os baixos preços do trigo nacional, com a colheita de uma grande safra no Brasil e também na Argentina, exigirão que o governo brasileiro tome medidas para sustentar as cotações, como compras para a formação de estoques públicos, na avaliação de executivo sênior de uma trading internacional com atuação forte no Brasil.

Para sustentar os preços, seriam necessárias medidas para retirar do mercado entre 1 milhão e 1,5 milhão de toneladas, ou até 25 por cento da safra nacional de 2016, segundo a fonte, que pediu para ficar no anonimato porque não pode falar com a imprensa.

Com o início de uma robusta colheita de trigo do Brasil e a proximidade de uma grande safra na Argentina --o principal fornecedor do produto importado para os moinhos brasileiros--, a cotação do cereal no país está abaixo do preço mínimo de garantia do governo, o que deverá desestimular produtores no ano que vem.

Pela lei, o governo deve agir quando isso acontece, mas no momento o país está no meio de um ajuste fiscal que pode trazer dificuldades para tal movimento, diante da escassez de recursos. Procurado, o Ministério da Agricultura não comentou o assunto imediatamente.

“Os preços no mercado interno chegaram abaixo do preço mínimo. Tem que fazer AGF (compras diretas de produtores para estoques públicos) e outros programas como Pepro e Pep”, disse a fonte, referindo-se a programas do governo que subsidiam o transporte do produto para áreas não produtoras e até mesmo para exportações.

Segundo a fonte, o uso do programa de subsídio para auxiliar a exportação, como já aconteceu no passado, pode ser complicado no momento, uma vez que o mecanismo poderia ser questionado na Organização Mundial de Comércio (OMC), com o mercado global abastecido e os preços do cereal oscilando perto dos menores níveis em dez anos.

“Talvez vão ter que fazer AGF, os estoques do governo estão zerados e é sempre bom ter estoques, para questões de combate à inflação”, disse a fonte, durante um evento do setor nesta sexta-feira.

A situação do trigo no Brasil, que deverá colher uma safra acima de 6 milhões de toneladas, bem perto do recorde, é tão ruim que o “cereal nacional não chega a São Paulo porque o produto argentino é mais competitivo”, disse a fonte.

O trigo da safra nova da Argentina está sendo negociado em mínimas de dez anos, a 170 dólares por tonelada (base FOB), para embarque em dezembro, segundo a fonte.

Hoje o trigo do Paraná, o maior produtor de trigo do país, é vendido a 630 reais por tonelada, um valor que não cobre os custos de produção, segundo a trading. O preço mínimo no Sul do país foi definido neste ano em 644 reais por tonelada.

A safra brasileira está se desenvolvendo bem e, em termos de volume, está garantida, disse a fonte. A única dúvida tem relação com a qualidade, que depende de o produto não ser atingido por chuvas excessivas na colheita.

CENÁRIO DIFÍCIL

Com o cenário de oferta abundante, o preço do trigo nacional pode cair para até 600 reais por tonelada, no período de até 150 dias, disse uma segunda fonte, também sênior em uma importante trading do setor.

“Já está abaixo do preço mínimo... tem possibilidade de cair mais pela qualidade e pela rendimento agrícola, em um cenário de oferta excessiva”, afirmou.

Segundo essa fonte, quem está ganhando a corrida para abastecer os moinhos é o trigo argentino, cuja safra terá forte recuperação, para cerca de 14 milhões de toneladas, após o governo do país vizinho ter retirado restrições tributárias.

O presidente do Sindicato da Indústria do Trigo do Estado de São Paulo, Christian Saigh, também tem avaliação semelhante, e acrescentou que preços depreciados para produtores terão impacto na indústria moageira.

Mas ele disse não acreditar que o governo terá recursos para apoiar o setor, no momento atual de aperto das contas da União.

Ele afirmou também que, diferentemente do que se poderia imaginar, as margens da indústria vão ficar pressionadas, uma vez que os custos fixos do setor continuam os mesmos, e o preço da farinha tende a cair num ambiente de grande oferta da matéria-prima.

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