October 25, 2018 / 5:08 PM / in a month

Tirem as mãos do nióbio do Brasil: Bolsonaro vê China como ameaça à visão utópica

CATALÃO, Goiás (Reuters) - O presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), candidato da direita favorito para vencer as eleições de domingo no Brasil, tem uma visão para a economia de seu país: o nióbio.

Candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro 05/09/2018 REUTERS/Adriano Machado

Esse mineral é usado como um aditivo ao aço para tornar o metal mais forte e mais leve. A demanda pelo nióbio está em alta por montadoras, empresas aeroespaciais e uma série de outras indústrias.

O Brasil responde por cerca de 85 por cento da produção mundial. E Bolsonaro quer que continue assim.

A compra realizada pela China há dois anos de uma pequena mina brasileira de nióbio tem levado o candidato a se mexer para bloquear a aquisição de ativos considerados estratégicos por outras empresas estrangeiras.

Bolsonaro tem tanto apreço pelo nióbio —e pelo potencial do Brasil em capitalizar sua produção— que produziu um vídeo no YouTube de 20 minutos divulgando suas virtudes.

Filmado em uma mina brasileira de nióbio em 2016, quando o deputado pelo PSL já planejava concorrer à Presidência da República, o vídeo apresenta a visão econômica utópica de Bolsonaro para sua nação, alimentada pelo obscuro mineral.

“Fala-se muito em Vale do Silício no mundo, né? No caso, fica nos Estados Unidos. E eu sonho, quem sabe um dia, termos também o Vale do Nióbio.”

(Para visualizar o vídeo de Bolsonaro sobre nióbio, acesse: youtu.be/bMR6ZxP2T0M youtu.be/bMR6ZxP2T0M) )

Mark Zuckerberg provavelmente não está perdendo o sono ainda. Mas o vídeo oferece uma valiosa ideia sobre a perspectiva de Bolsonaro para o enriquecimento das nações.

A ditadura militar de 1964 a 1985 no Brasil procurou proteger os recursos naturais estratégicos, como petróleo e minerais, de interesses estrangeiros, favorecendo as empresas estatais a explorá-los.

Bolsonaro, capitão da reserva do Exército e fervoroso admirador do regime militar, há muito segue essa visão. Ele abraçou recentemente a economia de livre mercado em sua gestão caso se torne presidente. Mas o vídeo ressalta o quão difícil será para ele mudar de ideia em pontos como o nacionalismo relacionado a recursos naturais.

Filmado no Sudeste do Brasil em uma mina de propriedade da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração, uma empresa brasileira de capital fechado conhecida como CBMM, Bolsonaro se maravilhou com as riquezas derivadas dos depósitos minerais.

Da mesma forma, elogiou os empregos bem remunerados, a pré-escola particular e outras comodidades que a CBMM fornece aos seus trabalhadores.

Se o país adotasse o estilo de desenvolvimento da CBMM e se concentrasse em criar “aplicações futuras” para o mineral, em vez de apenas exportá-lo, Bolsonaro raciocinou em seu discurso no YouTube, então o Brasil estaria no banco do motorista.

Assim, ele ficou indignado quando, naquele mesmo ano, a China Molybdenum (CMOC) comprou uma mina de nióbio a apenas 200 quilômetros da fábrica da CBMM.

Além disso, a própria CBMM é detida em 15 por cento por um consórcio de cinco empresas chinesas: a Baoshan Iron & Steel (Baosteel), o Grupo CITIC, o Anshan Iron & Steel Group, a Shougang Corp e o Taiyuan Iron & Steel Group.

Acredita-se que Bolsonaro seja o primeiro candidato à Presidência a fazer do nióbio uma questão de campanha. Em uma entrevista televisionada nacionalmente em agosto, ele criticou a compra feita pela CMOC.

“Uma coisa só nós temos, nós devemos investir em tecnologia e pesquisa... (mas) vendemos e entregamos a mina a eles.”

A UTOPIA ENCONTRA A REALIDADE

Especialistas em mineração dizem que os temores de Bolsonaro sobre nióbio são exagerados.

Para começar, os depósitos do Brasil não estão sob ameaça. A mina da CMOC no país responde por apenas 10 por cento do mercado global, segundo Hugo Nadler, executivo que deixou a empresa no início deste ano.

Isso deixa a maior parte —cerca de 75 por cento— firmemente nas mãos da CBMM. A companhia é a única que vende em todos os segmentos de mercado de nióbio, disse a empresa em comunicado à Reuters, incluindo produtos de alto valor agregado usados ​​em aviões e supercondutores.

E enquanto as chinesas possuem cerca de um sexto da empresa, sua tecnologia não é compartilhada com os acionistas minoritários, disse a CBMM, controlada pelo Grupo Moreira Salles.

A CBMM afirmou que há muito potencial para expandir o uso de nióbio em aplicações como baterias automotivas e eletrocerâmica.

Mas mesmo que o mercado de nióbio cresça, é improvável que tenha muito impacto em uma economia do tamanho do Brasil, disse Nadler, o ex-executivo do CMOC.

“A mineração representa 5 por cento do PIB, se você pegar a porção que é o nióbio, não é nada”, disse ele.

Bolsonaro continua crente.

Segurando um pedaço de nióbio na mão direita e apontando para a câmera em seu vídeo, ele declarou: “Isso pode nos dar uma independência econômica”.

Por Jake Spring

0 : 0
  • narrow-browser-and-phone
  • medium-browser-and-portrait-tablet
  • landscape-tablet
  • medium-wide-browser
  • wide-browser-and-larger
  • medium-browser-and-landscape-tablet
  • medium-wide-browser-and-larger
  • above-phone
  • portrait-tablet-and-above
  • above-portrait-tablet
  • landscape-tablet-and-above
  • landscape-tablet-and-medium-wide-browser
  • portrait-tablet-and-below
  • landscape-tablet-and-below