February 20, 2019 / 9:46 PM / a month ago

Liquidez no mercado de energia cai mais de 30% com comercializadoras em dificuldades

SÃO PAULO (Reuters) - A liquidez das operações no mercado de eletricidade do Brasil caiu mais de 30 por cento neste mês, em meio a uma tensão geral disparada por problemas financeiros de algumas comercializadoras de energia, disse à Reuters um executivo da plataforma eletrônica de negociação de contratos BBCE.

Linhas de transmissão de energia em São Paulo 08/04/2014 REUTERS/Nacho Doce

O primeiro relato de dificuldades, no início de janeiro, foi da Vega Energy, uma empresa de “trading” fundada no ano passado que realizou cerca de 180 milhões de reais em vendas de energia a descoberto para entrega em 2019, mas depois admitiu não ter como cumprir os compromissos, alegando ter sido pega no contrapé por uma alta nos preços spot da energia neste ano.

O caso gerou temor de que mais empresas pudessem ser afetadas, uma vez que a frustração de entregas pela Vega deixa outros agentes do mercado expostos à necessidade de comprar energia aos preços spot, que estão elevados, após chuvas fracas na área das hidrelétricas, principal fonte de geração do Brasil.

A crise de confiança atingiu um segmento que vem registrando forte expansão nos últimos anos, impulsionada por expressivos lucros das comercializadoras, em sua maioria pequenas e médias empresas, em um setor que conta também com gigantes como a unidade de comercialização da Engie, do banco BTG Pactual e de empresas como a elétrica EDP e Votorantim.

As preocupações aumentaram após notícias de que as comercializadoras Linkx e FDR Energia iniciaram renegociações de contratos com alguns clientes, alegando que foram impactadas pela crise de confiança no mercado.

“Afetou a liquidez, realmente. Estamos aí com alguma coisa em torno de 30 por cento, 35 por cento de redução, que a gente já percebeu”, disse à Reuters o presidente da BBCE, Victor Kodja.

A queda na liquidez está associada a um forte aumento na cautela dos agentes de mercado, que passam a olhar com lupa as contrapartes com quem praticam negócios, muitas vezes vetando operações com empresas menores ou vistas como sob risco.

“Com certeza, de imediato, a gente verá uma postura mais rígida dos grandes agentes que operavam com pequenas comercializadoras. Então vai haver uma restrição maior de crédito por parte das empresas”, disse nesta quarta-feira o presidente da Engie Brasil Energia, Eduardo Sattamini.

Segundo Kodja, da BBCE, a tensão ainda deve seguir sobre o mercado nos próximos meses, uma vez que os contratos para entrega em fevereiro e março têm risco ainda maior de serem descumpridos por empresas que venderam energia sem lastro ou por agentes afetados por elas.

Isso porque os preços spot dispararam principalmente em fevereiro, quando chegaram a tocar o teto regulatório, e devem permanecer altos em março, a não ser que haja uma forte virada no cenário de chuvas.

A liquidação financeira dessas operações deverá ser realizada pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) em abril e maio.

“Para entender melhor os próximos passos e desdobramentos, tem que ver a liquidação de fevereiro, que é o problema, e talvez março. São os dois meses mais críticos”, apontou Kodja.

PEQUENOS NO ALVO

Durante evento em São Paulo, o presidente da Engie Brasil Energia disse que a atual situação de tensão no mercado deveria servir de aprendizado e levar ao aperfeiçoamento de algumas regras, principalmente para evitar que comercializadoras pequenas fiquem alavancadas demais e depois não tenham como honrar compromissos.

Ele admitiu que a própria Engie chegou a ser atingida e precisou recomprar energia para cobrir impactos decorrentes dos problemas das comercializadoras, embora o efeito seja marginal para a empresa, que é líder no mercado de comercialização e maior agente privado de geração do Brasil.

“Em um mercado normal, ninguém consegue uma operação alavancada dessa forma, precisa de um crédito de alguém para isso. Então a gente talvez tenha que partir para uma regulamentação mais rígida desses pequenos”, disse Sattamini.

Ele sugeriu como possíveis medidas um aumento das exigências de capital mínimo para a abertura de comercializadoras, hoje em 1 milhão de reais, a exigência de depósitos de garantias e chamadas de margem, como ocorre no mercado financeiro.

O setor de comercialização de energia teve um crescimento recorde em 2018, quando 51 novas comercializadoras foram abertas, a maior parte delas focadas nas operações de compra e venda, ou “trading”.

O movimento, impulsionado por fortes lucros no setor em anos anteriores, representou expansão de 23 por cento, e levou o número de comercializadoras no mercado a somar 270 empresas.

Por Luciano Costa

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