19 de Setembro de 2013 / às 18:07 / em 4 anos

ANÁLISE-Como amantes infelizes, Brasil e EUA se frustram de novo

Por Brian Winter

O presidente dos EUA, Barack Obama, reúne-se com a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, na Casa Branca em Washington, EUA. Todas as vezes que Brasil e Estados Unidos chegam ao altar, o teto da igreja parece desabar. 9/04/2012 REUTERS/Kevin Lamarque

SÃO PAULO, 19 Set (Reuters) - Todas as vezes que Brasil e Estados Unidos chegam ao altar, o teto da igreja parece desabar.

Em 1982, o presidente norte-americano Ronald Reagan foi ao Brasil para um banquete planejado para sinalizar uma nova era nas relações entre os dois maiores países das Américas. Mas quando Reagan ergueu a taça de vinho e brindou ao “povo da Bolívia”, a situação pareceu confirmar os piores temores dos anfitriões: que os EUA viam o Brasil apenas como mais um país pobre na região tida como seu quintal.

Esta semana, a esperança de um avanço desmoronou novamente, e de um modo ainda mais dramático.

A decisão da presidente Dilma Rousseff de cancelar sua visita de Estado à Casa Branca, o único evento formal desse tipo planejado para Washington este ano, é um revés embaraçoso que provavelmente vai brecar a cooperação no comércio, assuntos regionais e outras questões nos próximos anos.

Dilma, uma esquerdista pragmática, ficou indignada com as recentes revelações de que a Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA, na sigla em inglês) espionou suas comunicações privadas, bem como a de seus principais assessores.

Embora os dois países continuem a manter de modo geral relações cordiais, Dilma planeja adotar algumas medidas retaliatórias, incluindo novas taxações e normas onerosas para companhias norte-americanas de Internet operando no Brasil, e o afastamento da possibilidade de compra de caças da Boeing, segundo disseram autoridades à Reuters.

Ela afirmou que a espionagem é “incompatível” com um relacionamento entre aliados, e disse a assessores que não há sentido em levar adiante uma viagem cuja ostensiva finalidade era simbolizar o crescente respeito.

O cancelamento de uma visita de teor tão elevado, apesar de apelos pessoais de última hora do presidente dos EUA Barack Obama a Dilma, aborreceu autoridades dos dois países. Além disso, causou também uma familiar sensação de desapontamento entre observadores que há muito tempo tentavam fincar melhores relações entre as duas democracias gigantes e similares em sua história de cadinho multirracial.

Em outro exemplo recente de um momento promissor que de algum modo desandou, Obama fez um grande alarde em 2011 ao levar sua mulher e filhas em uma viagem ao Brasil, anunciando “cooperação ainda maior nas décadas que virão”.

Mas muitas autoridades brasileiras sentiram que, ao chegar tarde ao Palácio do Planalto porque estava coordenando os ataques dos mísseis norte-americanos na Líbia, Obama estava dando um clássico sinal do pouco caso de uma potência imperial.

Moises Naim, um membro sênior do Carnegie Endowment for International Peace, em Washington, disse que a visita oficial teria sido uma grande oportunidade de deixar tais episódios firmemente no passado e superar um longo legado de desconfiança.

“Desta vez estávamos tão perto”, lamentou ele. “Não há outros dois países que pudessem estabelecer tamanho progresso tão rapidamente como o Brasil e os EUA”, disse Naim. Ele citou o potencial para acordos de comércio bilaterais e regionais, cooperação com lugares politicamente conflituosos na América Latina, como a Venezuela, e os interesse dos EUA nas recentes descobertas brasileiras de petróleo no pré-sal.

“Mas eles não sabem como lidar um com o outro”, acrescentou. “Há razões para que isso continue acontecendo.”

COMÉRCIO ERA FOCO DOS EUA

Os dois países tinham grandes esperanças para o evento de 23 de outubro, que incluiria um jantar black-tie na Casa Branca e saudação militar para Dilma.

Para o Brasil, a visita propiciaria a confirmação de que, depois de um boom econômico nos últimos 20 anos, o país havia chegado à condição de potência mundial digna da mais alta honra cerimonial em Washington.

Dilma esperava que a viagem abrisse uma nova onda de investimentos dos EUA na maior economia da América Latina, que enfrenta dificuldades desde que ela assumiu a Presidência, em 2011. Uma foto oficial com Obama também iria brandir suas credenciais moderadas, num momento em que se prepara para tentar uma provável reeleição no ano que vem.

De seu lado, os EUA esperavam que ao estender o tapete vermelho para Dilma os ouvidos dela ficariam mais atentos em várias questões, acima de tudo para garantir melhor acesso para as empresas norte-americanos ao imenso mercado de 200 milhões de consumidores brasileiros cada vez mais vorazes.

Por causa da alta carga tributária, o Brasil tem a economia do Ocidente mais fechada ao comércio. Quando o vice-presidente norte-americano, Joe Biden, visitou o Brasil, em maio, ele instou o país a abandonar essas barreiras se quiser se tornar um aliado estratégico dos EUA.

“Cabe ao Brasil decidir se quer seguir este caminho e agarrar as oportunidades”, declarou Biden.

Em retrospecto, esse comentário pode ter refletido uma questão que tem contaminado as relações Brasil-EUA: expectativas irrealistas.

Como a maioria dos políticos brasileiros, Dilma nutre uma profunda desconfiança do livre comércio, especialmente nos termos defendidos por Washington. Em várias ocasiões ela acusou os EUA de inflarem injustamente suas exportações por meio de uma política monetária expansionista.

À medida que a visita se aproximava, algumas autoridades brasileiras demonstravam preocupação pelo fato de os EUA estarem dando ênfase excessiva ao comércio.

Ficou claro também que a viagem não iria representar um avanço em duas antigas metas do Brasil: remoção da exigência de visto para brasileiros que viajam para os EUA e apoio norte-americano para a campanha do Brasil por um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

“OS FANTASMAS VOLTARAM”

Diplomatas esperavam que a viagem desse pelo menos a chance aos líderes de estabelecer laços pessoais duradouros nos jantares oficiais costumeiros em visitas de Estado.

Havia um problema com esse plano, porém, o qual remonta a um outro antigo obstáculo.

“Eles são dois países que fundamentalmente não entendem um ao outro”, disse Dan Restrepo, que até um ano atrás era o principal conselheiro de Obama para a América Latina.

Restrepo afirmou que, com a possível exceção da Argentina, não há nenhum outro país na América Latina cujos principais líderes tenham passado tão pouco tempo nos EUA.

As autoridades brasileiras têm queixa semelhante: que, com exceção de uns poucos cargos Importantes, a política de Washington para a América Latina é dominada por veteranos da guerra fria que falam espanhol, que entendem de Cuba ou Guatemala, mas não compreendem as nuances de seu país-continente.

Nesse contexto, as revelações da NSA pareceram explorar as piores suspeitas de cada um dos dois países sobre o outro.

O Brasil encarou a espionagem, que também incluiu o monitoramento da estatal Petrobras, como um outro sinal de que os EUA são uma arraigada superpotência que fará qualquer coisa para bloquear a ascensão de outras.

Enquanto isso, muitos em Washington consideraram a reação de Dilma às revelações --a qual abrangia uma exigência de desculpas e um relato completo sobre as atividades do setor de inteligência dos EUA-- como nova evidência do senso exagerado de importância por parte do Brasil e ingenuidade sobre o que significa ser uma grande potência mundial.

“Todos os fantasmas voltaram”, disse Carlos Eduardo Lins da Silva, editor da revista Política Externa.

De toda forma, os dois governos deram suficiente valor à visita para buscar uma solução, até que chegaram ao amargo final.

Apesar de ter outras prioridades, em especial, a Síria, Obama passou 45 minutos com Dilma em uma cúpula na Rússia, em 5 de setembro, para tentar minimizar as preocupações dela. Ele também fez uma chamada telefônica de última hora, durante 20 minutos, na segunda-feira.

Dilma também tentou uma solução. Mas ela acreditava ser necessário um gesto mais forte e público de Obama para tornar a viagem politicamente viável --para impedir que a poderosa ala esquerda do PT a atacasse, tachando-a de fraca.

“Os norte-americanos não têm ideia de como é duro ser pró-americano no Brasil”, disse um importante funcionário ligado a Dilma.

AS CONSEQUÊNCIAS

O esforço de último minuto elevou ainda mais os riscos e ajuda a explicar porque o desentendimento pode durar algum tempo.

No curto prazo, haverá consequências para os dois lados.

Dilma propôs nova lei para forçar o Google, a Microsoft e outras companhias estrangeiras de Internet a arquivar as informações recolhidas localmente em servidores do Brasil. O projeto tem como objetivo melhorar a segurança na Internet e também retaliar os EUA pela espionagem, disseram autoridades brasileiras.

Dilma provavelmente vai expressar maior oposição ainda à espionagem dos EUA, incluindo na Assembleia da ONU, este mês, segundo altos funcionários.

Alguns acreditam que o modo como Dilma conduziu o episódio solidifica as noções de que ela é incapaz de inserir o Brasil mais plenamente no mundo, tanto estratégica como economicamente. Essa é uma impressão que pode permanecer por muito tempo entre empresas estrangeiras interessadas em investir no Brasil, bem como outros governos.

“O Brasil pareceu petulante”, disse Christopher Sabatini, editor da revista Americas Quarterly. “Não é assim que se espera que grandes potências se comportem.”

Restrepo, o ex-assessor de Obama, afirmou pensar que a política interna brasileira foi o principal motivo para a não realização da viagem de Dilma a Washington. Mas ele também disse que o episódio pode finalmente enterrar a ideia “desenfreadamente simplista” de que os dois países são destinados a um casamento diplomático por compartilhar alguns traços comuns.

“Boa parte do que leva as pessoas ao altar é aquela compreensão superficial”, disse Restrepo. “E então eles olham um para o outro e dizem: ‘humm, talvez, afinal, não tenhamos tanto em comum’”.

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