2 de Abril de 2014 / às 23:24 / 3 anos atrás

EXCLUSIVO-Aécio diz que, se eleito, manterá política de reajuste do mínimo

Por Jeferson Ribeiro e Anthony Boadle

BRASÍLIA, 2 Abr (Reuters) - O pré-candidato do PSDB à Presidência da República, Aécio Neves, considera que esta eleição traz a marca do sentimento de mudança e se coloca como uma transição “segura” para o Brasil, diante das dificuldades econômicas e da crise de confiança do mercado.

O senador mineiro aposta na experiência acumulada pela legenda no poder e garantiu, em sua primeira entrevista exclusiva neste ano, que manterá a atual política do salário mínimo, que os reajustes de gasolina terão de ser feitos de forma gradual, reforçados por um modelo de incentivo ao aumento da produção de etanol, e que restringirá os gastos públicos ao crescimento da economia.

Aécio, que tem se mantido atrás da presidente Dilma Rousseff nas pesquisas de intenção de voto, avalia que agora é a hora do combate político, de mostrar as fragilidades do atual governo, pois o sentimento de “fim do ciclo” será capitalizado no momento certo. Aos 54 anos, o ex-governador de Minas Gerais minimiza o fato de não ser muito conhecido pelo eleitorado e garante que após a Copa do Mundo as pesquisas passam a ser um fator importante.

Veja a seguir os principais trechos da entrevista à Reuters concedida nesta quarta-feira.

Reuters - Qual é a chave para vencer a eleição?

Aécio Neves - O que diferencia essas eleições das outras eleições é um claro sentimento de mudança. O dado relevante em pesquisas nesse momento é este, o que capta sentimentos e não o que capta intenção de voto com candidaturas ainda com níveis de conhecimento tão distintos entre elas. Isso passa a ter alguma importância após a exposição de todos os candidatos. Esse sentimento de mudança é absolutamente o oposto e inverso daquele que tínhamos em 2010, em que havia sentimento de continuidade, com a economia crescendo a 7,5 por cento, emprego crescendo 10 por cento, o presidente Lula com altíssima popularidade.

- E como o senhor vai fazer para capitalizar esse sentimento de mudança?

Aécio - Vou voltar a 2010, existia naquele momento o sentimento de continuidade, e a candidata do governo só foi vista como tal a partir de julho. Então, para ter um paralelo, a Dilma só vestiu o figurino da continuidade, a mãe do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), a mulher do homem, a continuadora da obra do Lula, só foi passar o (José) Serra no final de julho, quando as pessoas passam a estar atentas ao processo eleitoral. Agora é hora do combate político, como nós estamos fazendo, da demonstração das fragilidades do governo, mas isso se transformar em ativo é só no final de julho. A economia está mostrando a absoluta crise que estamos vivendo e de incerteza em relação ao futuro. Na infraestrutura o Brasil patina e nos indicadores sociais paramos de avançar.

Essa última pesquisa Ibope mostra que 64 por cento querem mudanças profundas. Desses, 70 por cento não sabem quais são os nomes dos candidatos de oposição ainda. Então, só o tempo e a exposição nos veículos de massa vão nos permitir (subir nas pesquisas). Nós temos que ter a capacidade para as pessoas olharem para nós e enxergarem na nossa candidatura a mudança segura que o Brasil precisa. Esse é o termo, nós somos a mudança segura. Pela experiência que temos, pela capilaridade que temos no país, pelo conjunto de pessoas qualificadas que estão no nosso entorno. Então eu tenho muita confiança de que nós vamos vestir esse figurino na hora certa e acho que a partir de julho e agosto as pesquisas passam a ser um fator importante.

- Mas com a deterioração da economia e com o aumento do descontentamento, porque seus números nas pesquisas não são mais altos?

Aécio - Porque 70 por cento da população não sabe quem é Aécio Neves. Oitenta por cento não sabe o que Eduardo Campos (governador de Pernambuco e pré-candidato à Presidência pelo PSB) fez. É o desconhecimento. O fato de os dois candidatos da oposição nunca terem disputado uma eleição nacional faz com que haja, sobretudo na Região Nordeste, no meu caso, e na população de baixa renda um desconhecimento ainda muito grande. Isso não nos assusta, exatamente porque no momento certo as pessoas buscam uma candidatura que representa mudança. E elas precisarão ver essas candidaturas falarem, precisarão se confrontar com essas candidaturas. Isso só vai acontecer efetivamente nos grandes veículos de comunicação a partir do final da Copa do Mundo. Até lá não há razões concretas para uma mudança efetiva nas pesquisas de intenção de votos. Há no humor das pessoas.

- Se for presidente do Brasil, o senhor vai ter uma herança complexa em algumas áreas. Quais seriam suas primeiras ações na economia? Olhando para 2015, é necessário um aumento do superávit primário?

Aécio - No primeiro momento, eu acho que uma eleição do PSDB traz um efeito positivo, inverso ao efeito Lula de 2002, cuja eleição gerou um clima de incerteza muito grande, o dólar e a inflação dispararam. Uma eleição do PSDB terá efeito inverso. Vai tranquilizar mercados, vai de alguma forma já na largada transmitir uma sinalização de confiança para atores e parceiros externos, e temos que utilizar esse nosso ativo para dar a largada em algumas ações que acho que são necessárias.

Em primeiro lugar, no campo tributário. Temos que dar sinalização de que acabarão essas desonerações pontuais, nós vamos em seis meses apresentar uma proposta de simplificação do sistema tributário que nos dará espaço para uma gradual diminuição da carga.

O que será uma questão de impacto que vamos fazer, nós vamos restringir o aumento dos gastos correntes em relação ao crescimento da economia. Os gastos não crescerão mais do que a economia como crescem hoje. Essa conta não vem fechando.

- É um limitador dos gastos em relação ao aumento do PIB?

Aécio - É isso. É quase como uma lei de responsabilidade federal. Já existe nos Estados e municípios e não existe para a União. Nós vamos resgatar uma política fiscal austera, transparente, que foque no centro da meta (de inflação) e não no teto na meta como está sendo feito hoje. Não espero facilidades, não vamos esperar um ambiente de tranquilidade no início do governo. Mas uma certeza que eu posso dar é que, se vencer as eleições, não governarei de olho nas curvas de popularidade. Se eu precisar passar quatro anos devendo popularidade para fazer o que tem que ser feito, eu vou fazer. É a única chance que nós temos de resgatar parte das conquistas que estão indo embora. Infelizmente, a agenda de hoje é a agenda de 10 anos atrás. Enquanto nós devíamos estar falando em aumento da competitividade da nossa economia, estamos voltando a falar de crise de confiança, volta de inflação. Essa sim é a herança maldita que o PT vai deixar ao sucessor.

Eu posso dizer que estou preparado para as medidas impopulares, vamos limitar gastos correntes, vamos qualificar os gastos públicos. E aí trago minha experiência de Minas Gerais, que acho que é muito relevante. Minas é o único Estado hoje que avalia o conjunto, 100 por cento dos seus servidores, que recebem um bônus no final do ano quando atingem a meta estabelecida. Acho que temos que ter metas também para o governo federal.

- O que o senhor faria com a gasolina. A Petrobras é maior companhia do país e está mais endividada. Chegou a hora de mudar a política de reajuste da gasolina?

Aécio - Sem dúvida. Em primeiro lugar, vamos resgatar a Petrobras, devolvê-la aos brasileiros, tirá-la das garras de um grupo político. A Petrobras hoje está subordinada a interesses privados da parte deles. Nós vamos profissionalizar a Petrobras, vamos resgatar a meritocracia na Petrobras. Vamos ter que estabelecer uma política, qualquer governo terá que fazer isso, de distensionamento dos preços dos combustíveis. Isso vai ter que ocorrer. Vamos, ao mesmo tempo, fazer um trabalho profundo de remodernização do setor sucroenergético, o etanol.

- Qual será o trabalho no setor de etanol?

Aécio - Temos que dar capacidade de produção e de geração às usinas que estão hoje desestimuladas pela ausência de preço. Temos que dar compromisso de médio e de longo prazo de preços mínimos, que resgate a capacidade de produção. Essa foi a grande inovação brasileira real onde somos competitivos e temos capacidade de produzir em escala. Através de uma política de preço mínimo e até mesmo de estímulo a financiamentos se for o caso para que as usinas voltem a produzir rapidamente. Porque isso que vai compensar um pouco o aumento do preço de gasolina.

Temos hoje uma inflação de preço controlado de 1,5 por cento. Isso, se soltar, ela vai a mais de 9 por cento. Essa é a bomba relógio que o PT está deixando para o futuro.

- Mas ainda sobre a gasolina é possível chegar à Presidência e a partir de 2015 já permitir que a Petrobras flutue seu preços como no mercado internacional?

Aécio - A tendência é chegar a isso. Mas isso tem que ser feito de forma gradual, não pode ser feito de um dia para o outro, porque tem efeito sobre a própria economia. Você tem que estabelecer uma política de preços gradual que resgate o equilíbrio econômico e financeiro da Petrobras. Esse é o objetivo. A Petrobras não pode ser penalizada, como está sendo, e onerada pelo seu caixa sem que haja sinalização de que ela vai recuperar sua capacidade de investimentos. A Petrobras é instrumento de desenvolvimento econômico, ela não pode ser instrumento de política econômica para ajudar o governo, para compensar as falhas do governo no controle da inflação e na condução da política econômica.

- Qual a visão do senhor sobre o marco regulatório do petróleo e a atual situação no setor elétrico?

Aécio - Nós temos que primeiro respeitar os contratos que estão assinados, mas nós vamos abrir discussão sobre, por exemplo, o setor do petróleo. Se em determinadas áreas é mais vantajoso fazer pelo modelo de concessão ou pelo modelo de partilha.

Vamos discutir isso à luz do dia, sem o viés ideológico. Do ponto de vista das concessões de energia, repito, respeitado o que está aí, todos nós queremos que haja o barateamento do custo de energia. Energia cara é aquela que você não tem. E hoje ela está faltando.

- Há uma política do atual governo que o mercado olha com preocupação que é a de reajuste real do salário mínimo. Há preocupação com o efeito que ela tem na Previdência e o custo disso na produção. É uma política benéfica? O senhor a mudaria?

Aécio - Ela foi uma conquista e não penso em mexer na política do salário mínimo. Temos é que investir fortemente na formalização do mercado de trabalho. É um dos instrumentos que temos para ajudar a diminuir o déficit previdenciário. Isso vem acontecendo inclusive, reconheço, mas temos que ser mais eficazes na política de estímulo à formalização. Mas não é uma questão que esteja na prioridade, defender uma nova política de reajuste que não garanta um crescimento real. Essa é uma conquista que temos que conviver com ela. Foi uma conquista, até porque foi feita também com o nosso apoio. Não acredito que haja espaço para modificação, pelo menos no curto prazo, na política do salário mínimo.

- Que mudanças são necessárias para obter a confiança de investidores?

Aécio - Primeiro, algumas questões são simbólicas, não só pelos valores. Nós vamos cortar pela metade o número de ministérios que está aí. Vamos criar apenas uma secretaria extraordinária de simplificação do sistema tributário com os melhores especialistas do setor para num prazo de seis meses ter uma proposta que permita a partir da simplificação abrir espaço para ao longo do tempo ter uma diminuição da carga. Essa secretaria é para apresentar a proposta ao Congresso e depois ela é extinta.

Nós vamos sinalizar de forma muito clara que no Brasil governado por nós haverá respeito absoluto aos contratos, nós queremos estimular a parceria com o setor privado em todas as áreas que isso for possível, desde que interesse ao Estado brasileiro.

- O senhor pretende antecipar alguns nomes de sua potencial equipe de governo durante a campanha?

Aécio - Eu acho que essa sinalização é uma coisa nova que eu disse ontem (terça) e posso repetir, que pretendo a partir de agosto anunciar alguns nomes. É algo novo na processo eleitoral brasileiro, que tem ônus e bônus. Eu pretendo, não todos, mas anunciar algumas figuras emblemáticas em algumas áreas essenciais, pretendo apresentá-las ao país para que haja demonstração clara de com quem iremos governar e que tudo isso ajude no sentido do resgate da credibilidade.

- Em quais áreas o senhor pretende anunciar nomes?

Aécio - Da área econômica, algumas figuras na área social e numa área que dou importância enorme que é a gestão. Eu sou um entusiasta de gestão por resultados, de introdução de mecanismos da gestão privada na gestão pública.

- Quais as diferenças entre as propostas do senhor e de Eduardo Campos?

Aécio - Não conheço com profundidade as propostas do Eduardo Campos. O que eu vejo com alegria, até porque se trata de um candidato que esteve nas hostes governistas, participou do governo Lula e a própria Marina, que deve ser sua vice, também participou, vejo com muita alegria que eles venham para o campo oposicionista. E que eles passem a incorporar um discurso que nós já vínhamos defendendo há muito tempo, de eficiência na gestão pública, do desalinhamento ideológico na política externa, uma nova interlocução com o mundo desenvolvido. Tenho defendido a fuga dessas amarras da relação aduaneira que impediu o Brasil de firmar acordos bilaterais com vários países do mundo. Em 10 anos, firmamos acordos com Egito, Palestina e Israel. O México, que compete conosco, está fazendo uma lista de reformas muito interessantes que não fizemos e então é uma bola da vez muito mais interessante que o Brasil. O que eu vejo é que há no discurso do Eduardo uma aproximação ao nosso discurso: respeito ao mercado, uma gestão mais profissional, com acompanhamento mais efetivo das políticas sociais.

- Por que o senhor é uma alternativa mais confiável do que Eduardo Campos?

Aécio - Não uso o termo confiável, eu acho que é mais segura, pela capacidade que nós adquirimos e capilaridade dos governos do PSDB no Brasil inteiro. Acho que pelas responsabilidades dos gestores do PSDB, teremos uma capacidade mais clara de representar mudanças. Mas a candidatura do Eduardo é essencial para o jogo político.

- Qual o efeito da Copa nas eleições?

Aécio - É uma coisa nova, vamos ter que aprender. Não acho que o resultado dentro de campo influencie o resultado fora de campo. Acho que talvez na década de 70. O Brasil está evoluído para isso. O que pode influenciar é o resultado fora de campo, da fragilidade da nossa infraestrutura e da nossa mobilidade. Do que foi prometido extra campo, principalmente em mobilidade, 23 por cento (do proposto) será entregue. Setenta e sete por cento não será entregue para Copa. Isso pode ser cobrado.

- Mas essa responsabilidade não é repartida com os governantes estaduais?

Aécio - Eu acho que não, porque esse compromisso com mobilidade é do governo federal. Mas claro que, como vimos nas manifestações, todos os governantes sofreram. Acho que aí há um efeito colateral do hiperpresidencialismo que vivemos no Brasil. A força do poder central é tão grande, para o bem, para distribuir benesses e dizer que o Brasil superou a miséria, mas também na cobrança. Quando veem transporte caótico e saúde trágica, eu acho que o governo federal é o primeiro, mas não obstante acho que governos estaduais também sofrerão.

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