15 de Abril de 2014 / às 21:39 / em 3 anos

ANÁLISE-Preço do leilão A-0 parece atrativo, mas há dúvidas se cobrirá demanda

Por Anna Flávia Rochas

SÃO PAULO, 15 Abr (Reuters) - Os preços-tetos para o leilão de energia existente A-0 de 30 de abril foi considerado positivo para atrair vendedores de energia, de forma geral, principalmente para ofertantes de energia hidrelétrica, mas ainda existe dúvida se haverá energia suficiente para atender toda a demanda.

As distribuidoras de energia precisam cobrir uma descontratação superior a 3,3 gigawatts (GW) médios de energia no leilão, para que reduzam a exposição aos preços de curto prazo que estão nas alturas diante do forte acionamento das térmicas e momento de baixo nível de reservatórios.

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou nesta terça-feira o edital do leilão, definindo preços-teto de 262 reais por megawatt-hora (MWh) para a energia térmica e de 271 reais por MWh para outras fontes, como hidrelétricas. Haverá um único período de fornecimento para cada produto, com entrega prevista para começar em 1o de maio deste ano e terminar em 31 de dezembro de 2019.

Havia preocupação no mercado de que os preços altos de energia de curto prazo, que chegam a 822,83 reais por MWh no Sudeste/Centro Oeste e Sul, pudessem afastar vendedores a se comprometer com contratos no leilão de longo prazo. Mas os preços divulgados nesta terça-feira, no geral, agradaram o mercado.

Analistas do BTG Pactual liderados por Antonio Junqueira escreveram em relatório que o preço definido para as hidrelétricas é atrativo e mostra “atitude pró-mercado” por parte da Aneel. “No entanto, não são todos os agentes que têm excesso de energia por todo o período do contrato”, escreveram.

A CPFL Energia é apontada como uma das mais beneficiadas pelo preço, por ser uma das poucas empresas que tem energia disponível para venda por todo o período do contrato.

A empresa obteve recentemente direito a cerca de 346 MW médios de energia da hidrelétrica Serra da Mesa, que está disponível para fechar novos contratos. A empresa sinalizou que consideraria o leilão A-0 como uma das opções para vender essa energia.

“Manter parte dessa energia como um hedge hidrológico é uma opção inteligente, mas a esse preço a coisa mais atrativa seria vender uma grande quantidade de energia no leilão. Se a companhia for capaz de vender ao preço-teto, poderá obter um lucro extra de cerca de 1,5 bilhão de reais, ou 8 por cento do valor de mercado da companhia”, segundo os analistas do BTG.

O presidente da Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (Abraceel), Reginaldo Medeiros, disse que aos preços definidos pela Aneel estão em linha com as expectativas dos agentes que negociam energia no mercado livre.

Mas ele não arrisca dizer que toda a necessidades das distribuidoras será coberta. “Deve atrair ofertantes, mas cada um tem a sua estratégia individual”, disse ele.

PRAZO PARA CONTRATAÇÃO

Conforme afirmaram anteriormente agentes do setor à Reuters, um único prazo de contratação para o leilão A-0 é um dos fatores que pode acabar inviabilizando que haja oferta de energia suficiente. Apesar de o governo federal ter aumentado o prazo justamente para que pudesse calibrar um preço mais interessante a vendedores, muitos agentes não têm energia disponível durante todo o prazo do leilão.

A Cesp, por exemplo, já informou que não tem energia disponível após 2015.

Segundo O BTG Pactual, além da Cesp, a AES Tietê é outra geradora que não tem energia por todo o período do leilão e precisaria de parceiro para comercializar energia na competição.

A AES Tietê tem energia disponível a partir de janeiro de 2016, quando termina o seu contrato de longo prazo com a distribuidora AES Eletropaulo.

Energias do Brasil e Tractebel Energia são outras empresas que não teriam muita energia disponível para a venda até 2016. A partir de então, a Energias do Brasil tem cerca de 368 MW médios disponíveis e a Tractebel possui 441 MW médios, segundo o BTG Pactual.

A Petrobras e a Eletrobras ainda são apontadas como possíveis ofertantes no leilão, sendo que a Bolt Comercializadora calcula que a petroleira tenha entre 1,3 GW e 1,5 GW médios de energia disponível para venda.

No segmento de biomassa, o gerente de bioeletricidade da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Zilmar José de Souza, reafirmou nesta terça-feira que a oferta de energia pela fonte no leilão deve ser “marginal”, porque a maioria das usinas já comercializou a energia disponível antes do início da atual safra da cana-de-açúcar.

O presidente da consultoria Thymos Energia, João Carlos Mello, avalia, diante das condições de preço divulgadas nesta terça-feira, que o leilão deverá conseguir contratar cerca de 1 GW médio. “Vai ter bastante oferta, mas dentro daquilo do que está descontratado para vender a partir de maio”, disse.

MERCADO LIVRE PARADO

Negociações no mercado livre de energia estão praticamente paradas, com consumidores e vendedores aguardando informações e desdobramentos do leilão A-0, segundo o diretor da Bolt Rodolfo Salazar.

O executivo considera que os preços anunciados para o leilão são positivos, devendo atrair vendedores, e tendem a elevar os preços de energia praticados para entrega em 2015. “Ano que vem é um ano que temos visto bastante demanda por parte do consumidor final”, disse ele, ao acrescentar que, neste momento, não tem havido forte resposta da oferta para atender a essa demanda no mercado livre.

“Para 2016 em diante, até consegue ter oferta, mas não estão sendo fechados negócios”, disse, ao explicar o impacto da expectativa dos agentes em relação ao leilão A-0.

A Bolt informou no início deste mês que os preços de energia convencional para entrega em 2015 no mercado Sudeste/Centro-Oeste estavam sendo negociados entre 230 e 250 reais por MWh, o que seriam valores abaixo do máximo definido para o leilão A-0.

Já o diretor da consultoria Excelência Energética, Erik Rego, está cauteloso quanto a capacidade do A-0 de atrair oferta de energia. Nos cálculos do consultor, os preços médios de energia esperados pelo período do leilão seriam acima de 300 reais por MWh, chegando a até 335 reais por MWh.

“Quem pode ver oportunidade no leilão é alguém que quiser aceitar um preço menor para ter segurança de um contrato, se estiver precisando alongar dívida ou fazer garantia com bancos”, disse.

Para ele, empresas com estratégia mais conservadora ou com compromissos financeiros são as que podem ser interessar por ofertar energia no leilão.

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