25 de Setembro de 2008 / às 16:40 / 9 anos atrás

Gabeira conquista elite jovem, mas esbarra na camada mais pobre

Por Carla Marques

RIO DE JANEIRO, 25 de setembro (Reuters) - Desde a década de 60, quando emergiu na cena pública como militante da luta armada contra a ditadura militar, o candidato à prefeitura do Rio Fernando Gabeira (PV) sofreu algumas mutações, aderindo ao discurso da causa verde, da limpeza ética no Congresso e, mais recentemente, da iniciativa privada como motor do desenvolvimento econômico carioca.

Primeiro a trazer a questão da violência urbana à eleição municipal, o ex-guerilheiro defende a ocupação permanente das Forças Armadas em favelas dominadas pelo tráfico de drogas.

Acusado pelos concorrentes de “candidato da elite” ou “candidato da zona sul”, Gabeira cresce nos segmentos do eleitorado com maior renda e melhor nível de instrução. Pela última pesquisa do Datafolha, está tecnicamente empatado com Jandira Feghalli (PCdoB), atrás do líder Eduardo Paes (PMDB) e de Marcelo Crivella (PRB).

Gabeira é o preferido de 25 por cento dos eleitores com ensino superior e de 31 por cento dos que recebem mais de 10 salários míninos por mês. No segmento mais rico do eleitorado, ele avançou 11 pontos percentuais.

No público mais pobre, com renda mensal de até dois salários mínimos, a penetração do candidato não tem expressão: apenas 2 por cento das intenções de voto -- pior índice entre os seis candidatos mais bem colocados nesta eleição.

Aos 67 anos, Gabeira é também o candidato mais velho na disputa. Os fios brancos e as rugas não o impedem de crescer no nicho da juventude, outra marca do seu eleitorado. De acordo com o Datafolha, em termos etários, a maior parte do seu público, 22 por cento, está na faixa de pessoas entre 16 e 24 anos.

Além da ética e da segurança pública, Gabeira investe no discurso do desenvolvimento econômico da cidade através da atração da iniciativa privada.

Para isso, conta com o apoio de nomes fortes da área, como o economista Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central no governo Fernando Henrique Cardoso, que também participa de sua campanha da TV. Hoje dedicado à vida de empresário, Fraga tem investimentos, entre outros setores, em ações, transporte aéreo, shopping centers e até na rede McDonald‘s.

DO TRICÔ AO XERIFE

Para o historiador Daniel Aarão Reis, da Universidade Federal Fluminense (UFF), apesar de alguns discursos e da coligação com o PSDB, Gabeira não saiu do campo da esquerda:

“A preocupação com a justiça social continua presente no discurso e no programa que Gabeira apresenta. Apesar dessa inflexão do xerife, continuo achando que ele é sensível. Não o imagino enxotando as pessoas da rua, de forma policial, para resolver a desordem urbana.”

O historiador critica, porém, a moderação da agenda dos quatros candidatos da esquerda à prefeitura carioca, incluindo Gabeira:

“Não há propostas de democracia radical, de participação popular. Ninguém discute a questão da legalização das drogas. Todos têm medo de perder votos. Mas, historicamente, a função da esquerda é levantar pontos de renovação.”

Aarão Reis explica que, a partir dos escândalos envolvendo o governo Lula e o PT, Gabeira teve evolução expressiva no eleitorado de classe média e nível superior, desgastado e insatisfeito com notícias sobre desvios éticos.

“A imagem do xerife que vai chegar para colocar ordem é realmente uma inflexão na carreira do Gabeira. Desde que voltou do exílio, ele investiu na crítica à esquerda ortodoxa, explorando um lado irônico e mais sensível de uma esquerda renovada e atualizada”, afirma o professor da UFF.

“Gabeira fazia o perfil do homem que aparecia com sunga de tricô na praia e era muito popular nos meios mais avançados dos anos 80. Apesar de ter incorporado essa imagem do xerife, do líder decidido, continua muito popular entre eleitores sensíveis à sua imagem anterior”, complementa o historiador.

Para chegar ao segundo turno da eleição, Ricardo Ismael, do Departamento de Sociologia e Política da PUC-Rio, acredita que Gabeira precisa se aproximar das camadas populares.

“O discurso da ética, sobre políticos corruptos ou ligados a organizações criminosas, é muito bem-vindo nos setores de menor renda. Mas Gabeira precisa explicar melhor como vai resolver pautas específicas do cotidiano das classes populares”, observa o pesquisador. “Os temas que mais sensibilizam essa população são emprego, saúde, transporte de massa... Ela quer saber se a escola vai funcionar para seus filhos. Nesta reta final, Gabeira tem que provar que pode propor soluções para esse segmento de menor renda, que é o mais vulnerável da cidade.”

Edição de Mair Pena Neto

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