23 de Outubro de 2007 / às 02:01 / 10 anos atrás

ANÁLISE-Alta de matérias-primas limita avanço de biocombustíveis

Por Nigel Hunt

LONDRES (Reuters) - O entusiasmo com os biocombustíveis pode estar perdendo força devido ao custo cada vez mais elevado de matérias-primas como o trigo e o óleo de palma, o que tem levado os produtores a abandonarem os projetos para a construção de novas usinas e a diminuírem o volume de produção nas instalações existentes.

“Há muitos projetos (para novas usinas) hoje em dia, mas não sabemos se algum dia eles se tornarão realidade”, afirmou em uma conferência realizada nesta semana Robert Vierhout, secretário-geral da Associação Européia de Bioetanol Combustível.

“Nas circunstâncias atuais, de preços muito altos para as matérias-primas, é compreensível que alguns produtores acreditem ser preciso esperar alguns anos até que as coisas tornem-se mais estáveis.”

Os biocombustíveis, feitos em sua maior parte a partir de safras agrícolas como a de milho, cana-de-açúcar e óleos vegetais, são apontados por muitos como uma forma de diminuir as emissões de gases do efeito estufa e de aumentar a segurança no fornecimento de energia em um momento no qual a produção de petróleo está no limite ou perto dele.

A Malásia tomou a dianteira quanto ao desenvolvimento da indústria do biodiesel na Ásia, mas deve produzir menos de 100 mil toneladas de biocombustível extraído de óleo de palma em 2008 já que a maior parte dos produtores adiou seus planos devido ao aumento no preço das matérias-primas.

A União Européia (UE), liderada pela Alemanha, tornou-se a mais importante região produtora de biodiesel, enquanto os EUA e o Brasil surgiram como os dois maiores produtores do etanol, um substituto da gasolina.

Grandes incentivos fiscais alimentaram a expansão promovida pela Alemanha, mas esses incentivos foram cortados nos últimos meses, reduzindo a demanda e levando muitas usinas a operarem bastante abaixo de sua capacidade.

“Se não tivermos uma mudança nas regulamentações da Alemanha, está bastante claro que dentro de dois anos mais ou menos 50 por cento da capacidade produtora da Alemanha desaparecerá”, afirmou nesta semana Karl Giersberg, diretor financeiro da EOP Biodiesel.

Um forte apoio do governo também provocou a expansão do setor de biocombustíveis nos EUA.

EXCESSO DE OFERTA

“A oferta ultrapassou a demanda, e isso não é de surpreender, considerando-se o enorme apoio dado ao etanol”, disse Neil Harl, professor da Universidade Estadual do Iowa e consultor para a indústria do etanol.

“Estamos em um período doloroso, e o impacto negativo mais dramático deu-se na área de novos investimentos. Alguns projetos foram descartados”, afirmou.

A nova indústria do biodiesel nos EUA também se viu atingida pelos crescentes custos de sua matéria-prima fundamental, a soja, que chega a patamares quase recordes.

“Eles enfrentam as maiores dificuldades. Foram pegos logo na infância”, disse Harl.

O Brasil, maior exportador de biocombustíveis, vem ampliando sua produção de etanol apesar de margens de lucro mais apertadas para a indústria, já que os preços, tanto do álcool como do açúcar, estão baixos devido à ampla oferta.

O emergente setor de biodiesel do país, que também lança mão da soja, encontra-se sob pressão. O Brasil determinará o acréscimo de 2 por cento de biodiesel no combustível convencional a partir de janeiro de 2008.

Mesmo com o atual aumento do preço do petróleo, o diesel fóssil continua a ser mais barato do que o biodiesel no Brasil e a capacidade instalada ultrapassa de longe a demanda.

Mais de 40 usinas de biodiesel operam no Brasil, com uma capacidade de produção de 2,18 bilhões de litros por ano, e outros 42 projetos estão sendo avaliados pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis.

Esse montante ultrapassa a demanda após a implementação do programa do governo, de 840 milhões de litros por ano. A mistura obrigatória deve elevar-se para 5 por cento em 2013.

Reportagem adicional de Christine Stebbins, em Chicago, Inaê Riveras, em São Paulo, e Naveen Thukral, em Kuala Lumpur

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