June 26, 2008 / 2:20 PM / 10 years ago

Líder oposicionista do Zimbábue diz que Mugabe será rejeitado

Por Nelson Banya

Grupo de cerca de 300 pessoas pede abrigo na embaixada sul-africana em Harare. Seguidoras do MDC, o partido de oposição, elas temem retaliações por parte do governo de Robert Mugabe. Tsvangirai, o líder do partido, que desistiu do segundo turno das eleições presidenciais no domingo, disse que o povo do Zimbábue não aceitará que Mugabe continue no poder. Photo by Philimon Bulawayo

HARARE (Reuters) - O líder oposicionista Morgan Tsvangirai, do Zimbábue, afirmou na quinta-feira que não seria possível realizar negociações com o presidente Robert Mugabe se o governo realizar de fato as eleições previstas para o dia seguinte e das quais participaria apenas o dirigente.

Segundo Tsvangirai, caso se declare presidente e estenda mais uma vez seu governo, iniciado 28 anos atrás, Mugabe acabaria por ser rejeitado na qualidade de um líder ilegítimo responsável por assassinar seu próprio povo.

A figura de maior destaque da África, Nelson Mandela, acrescentou sua voz ao coro surgido no continente e na comunidade internacional condenando a violência e o caos no Zimbábue. Mandela não costuma mais se manifestar sobre questões políticas e o fato de tê-lo feito aponta para a preocupação existente no continente com a situação daquele país.

Mugabe e seus aliados continuam a resistir, no entanto, afirmando que o pleito deve ocorrer por força de lei.

O vice-ministro zimbabuano da Informação, Bright Matonga, afirmou ao canal de TV Al Jazeera: “As pessoas vão votar amanhã. Não há como voltar atrás nisso. Tsvangirai deveria estar fazendo campanha em vez de impor condições a Mugabe”.

A polícia do Zimbábue acusou os Estados Unidos e a Grã-Bretanha de apoiarem uma campanha de Tsvangirai de interromper as eleições de sexta-feira pelo uso da violência.

“É evidente que o oposicionista MDC tem planos de atrapalhar as eleições. Essas atividades criminais contraproducentes serão enfrentadas pela força da lei”, disse o comissário assistente da polícia, Faustino Mazango. Ele disse que a conspiração foi revelado após a prisão de cinco pessoas na quarta-feira.

O líder oposicionista, que no domingo passado retirou-se do segundo turno das eleições presidenciais e buscou abrigo na embaixada da Holanda, tentou aumentar as pressões quando disse a Mugabe que as chances dele de negociar uma saída para a catastrófica crise surgida no Zimbábue acabariam na sexta-feira.

“A via das negociações não poderá ser trilhada se o senhor Mugabe declarar-se o vencedor e considerar-se presidente. Como podemos negociar?”, perguntou Tsvangirai ao jornal The Times, da Grã-Bretanha.

Em uma outra entrevista, essa concedida à Sky News, o oposicionista conclamou o presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, o mediador regional para os conflitos no Zimbábue, a adotar medidas urgentes a fim de resolver a crise.

Mbeki, líder da maior potência econômica da África, vem sendo duramente criticado por não adotar uma postura mais severa em relação a Mugabe, e isso apesar da crise que empurrou milhões de refugiados para o território sul-africano.

“Espero que, em face da degeneração da crise com nos deparamos, ele (Mbeki) também agirá para responder à urgência dela e cumprir seu mandato”, afirmou Tsvangirai.

Tendai Biti, assessor do oposicionista, foi libertado na quinta-feira sob fiança após ficar detido durante duas semanas sob a acusação de traição. A fiança foi de 1 trilhão de dólares zimbabuanos — cerca de 90 dólares, afirmou o advogado dele.

Mugabe, presidente desde a independência do país da Grã-Bretanha, vem comandando o Zimbábue durante o processo que o viu transformar-se do maior produtor de alimentos da região em uma crise ambulante com uma taxa de inflação que deve atingir ao menos 2 milhões por cento.

O dirigente atribui a crise a sanções impostas pela Grã-Bretanha e por outros países do Ocidente.

O líder oposicionista Morgan Tsvangirai, do Zimbábue, faz discurso durante conferência em sua residência, em foto de 25 de junho. Photo by Philimon Bulawayo

Reportagem adicional de Ralph Gowling em Londres, Susan Cornwell em Kyoto, Marius Bosch em Johannesburgo

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