29 de Julho de 2008 / às 15:36 / em 9 anos

Em meio a novas desavenças, Doha está perto de colapso

Por Robin Pomeroy e Laura MacInnis

GENEBRA, Suíça (Reuters) - As negociações para salvar um acordo mundial de comércio chegaram perto do colapso na terça-feira devido a desavenças sobre as medidas elaboradas para proteger os agricultores de países pobres.

Países em desenvolvimento como a China e a Índia entraram em rota de colisão com exportadores de alimentos como os EUA a respeito de garantias para impedir a entrada em massa de comida importada, enquanto continuam a persistir as divergências sobre outras partes fundamentais do acordo.

Ministros de vários países estudavam uma nova proposta sobre as garantias enquanto as negociações ingressavam em seu nono dia, fazendo desse o encontro de nível ministerial mais longo já realizado pela Organização Mundial do Comércio.

Há uma chance real de que o processo fracasse.

“Se as pessoas não desejam esse acordo, não há nenhum acordo melhor disponível. Deve-se considerar o que elas vão perder se a rodada fracassar”, afirmou o comissário do Comércio da União Européia (UE), Peter Mandelson.

As negociações convocadas para salvar a rodada de Doha, iniciada sete anos atrás, estiveram “a um minuto” de serem suspensas nas primeiras horas da terça-feira em virtude da polêmica em torno das medidas de garantia, afirmou uma autoridade.

E não há sinal de um acordo a respeito de uma nova proposta.

“Não conseguiremos prosseguir dessa forma por muito tempo”, afirmou um diplomata.

O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, disse que as chances de um entendimento estavam cada vez menores.

“Se ontem eu disse que estava por um fio, hoje ele está ficando cada vez mais fino”, declarou.

Mas a ministra indonésia do Comércio, Marie Elka Pangestu, disse: “Alguns de nós estão dispostos a ficar aqui o tempo necessário. Ficaremos por mais alguns dias se isso for necessário.”

As negociações sobre o comércio mundial começaram em 2001, pouco depois dos ataques de 11 de setembro contra os EUA, na esperança de incentivar o crescimento da economia mundial e ajudar os países pobres.

O processo passou por várias crises e sofrerá um adiamento de mais alguns anos se não conseguir avançar de forma definitiva agora.

Negociadores dos EUA, da China e da Índia não conseguiram chegar a um acordo sobre os detalhes do “mecanismo de salvaguarda especial”, criado para impedir a invasão de produtos alimentícios importados em algumas áreas.

A proposta coloca ainda em lados contrários países exportadores de mercadorias agrícolas, como o Paraguai e o Uruguai, e os países pobres que temem pela sobrevivência de seus agricultores, em especial países da Ásia.

PREÇO ASTRONÔMICO

A China, o novo carro-chefe das exportações mundiais, participa de uma rodada de negociações da OMC pela primeira vez e acusou os EUA de exigir demais dos países em desenvolvimento.

“O ponto central das profundas dificuldades verificadas atualmente na rodada de negociações de Doha é o fato de que os EUA, a fim de proteger seus próprio interesses, estão cobrando um preço astronômico”, disse o ministro chinês do Comércio, Chen Deming, na segunda-feira, segundo a agência de notícias Xinhua.

Uma autoridade norte-americana disse que os EUA não poderiam aceitar um acordo que prejudicaria a abertura comercial.

Acrescentando lenha na fogueira das dificuldades enfrentadas nas atuais negociações, a França e outros oito países da UE -- um terço dos integrantes do bloco -- exigiram maiores benefícios na segunda-feira.

Mas a Alemanha, maior exportador do mundo, continuava dando apoio ao acordo, disse um diplomata do bloco.

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