19 de Agosto de 2008 / às 19:16 / em 9 anos

Rússia inicia retirada da Geórgia; Otan exige mais

Por Dmitry Solovyov

GORI, Geórgia (Reuters) - Uma coluna de tanques e veículos blindados da Rússia deixou a estratégica cidade georgiana de Gori, na terça-feira. Insatisfeita, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) declarou que paralisaria os contatos com o governo russo enquanto Moscou não retirar todas as suas forças da Geórgia.

Potências ocidentais lideradas pelos EUA exigiram a retirada imediata de todas as forças russas da região central da Geórgia, conforme prevê um cessar-fogo que colocou fim a dez dias de combate em torno da região rebelde da Ossétia do Sul.

Ministros dos países-membros da Otan, em uma reunião de emergência realizada em Bruxelas, acataram a recomendação suspendendo os contatos. No entanto, ao contrário do que esperava o governo georgiano, a aliança militar não adotou medidas para fazer desse país do mar Negro um integrante dos seus quadros.

Segundo o governo da Rússia, o presidente russo, Dmitry Medvedev, disse que as forças de seu país, até o dia 22 de agosto, regressariam às posições determinadas pelo cessar-fogo elaborado com a ajuda da França.

Isso significa que a maior parte dos soldados voltaria para a Rússia ou para a Ossétia do sul. No entanto, parte das forças russas, segundo o acordo, continuará em uma zona de proteção criada ao redor da região separatista.

“Até o dia 22 de agosto, uma parte das forças de paz será recuada para a zona temporária de segurança”, afirmou Medvedev ao presidente francês, Nicolas Sarkozy, em um telefonema. O conteúdo da conversa foi divulgado pelo governo russo.

“O contingente remanescente que foi utilizado para reforçar as tropas de paz será recuado para o território da Ossétia do Sul e da Rússia”, afirmou o comunicado.

Autoridades norte-americanas disseram não ter identificado até agora nenhuma manobra substancial de retirada por parte da Rússia.

Em Gori, uma cidade estratégica localizada à beira da principal estrada que liga as regiões leste e oeste da Geórgia, seis veículos blindados russos, três tanques e dois outros veículos locomoveram-se pela zona rural de Gori, levantando nuvens de poeira.

“Essa é uma das primeiras unidades a retirar-se”, afirmou uma autoridade do Ministério das Relações Exteriores da Rússia que convidou repórteres a testemunharem a movimentação.

No entanto, perto dali, podia-se ver soldados russos cavando trincheiras perto de peças de artilharia. Pára-quedistas sem camiseta tomavam banho de Sol em uma rua da cidade, deitados em sofás.

Horas depois, ainda na terça-feira, um repórter da Reuters que viajava pela principal estrada usada pelos russos para entrar em Gori, viu poucos veículos saindo da Geórgia e poucos sinais de uma retirada de larga escala.

Questionado sobre se os russos estavam se retirando, Shota Utiashvili, membro do Ministério do Interior da Geórgia, respondeu: “As unidades russas vão para Tskhinvali (capital da Ossétia do Sul) desde Gori e depois regressam. Eu nego categoricamente o fato de estar havendo uma retirada dessas proporções”.

O conflito eclodiu quando a Geórgia, nos dias 7 e 8 de agosto, enviou suas forças para tentar retomar o controle sobre a Ossétia do Sul, uma Província rebelde aliada dos russos. A Rússia respondeu com uma larga contra-ofensiva.

TENSÕES

Intensificando a pressão sobre o governo georgiano, os russos fecharam sua fronteira com a Geórgia e o vizinho Azerbaijão para cidadãos que não pertencem à Comunidade dos Estados Independentes (CEI), a qual reúne ex-Repúblicas Soviéticas. Na semana passada, os georgianos haviam anunciado sua retirada da CEI.

O primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, afirmou que o fechamento da fronteira era uma medida necessária para “evitar o tráfico de armas e a entrada de membros de grupos terroristas estrangeiros na Rússia”.

Alexander Bortnikov, chefe do principal serviço interno de inteligência do país (FSB), deu ordens para que seu aparato impeça a concretização de um suposto plano das forças de segurança georgianas de realizar “atos terroristas” dentro da Rússia. A Geórgia considerou a acusação “absurda”.

Já foram interrompidas as ligações por ar, mar e ferrovia entre a Rússia e seu antigo satélite soviético. O bloqueio virtual está prejudicando a economia georgiana, que depende profundamente dos russos.

Potências ocidentais avaliaram como desproporcional a resposta da Rússia à investida georgiana. Já o governo russo disse que a medida foi necessária para proteger os cidadãos e as forças de paz da Rússia na Ossétia do Sul e para impedir a Geórgia de realizar um “genocídio”.

A campanha militar russa rendeu popularidade ao governo dentro do país, mas piorou as relações dele com os EUA.

A Marinha da Rússia cancelou uma visita que seria realizada em setembro por uma fragata norte-americana, fazendo desse o sinal mais recente do atual embate. A medida foi adotada depois de os EUA terem, na semana passada, se retirado de um exercício naval a ser realizado no Pacífico com a Rússia e com outros dois países.

Em um raro sinal de cooperação, a Rússia e a Geórgia conseguiram trocar prisioneiros na terça-feira, perto do vilarejo de Igoeti (região central do território georgiano), a cerca de 45 quilômetros de Tbilisi.

PRESSÃO SOBRE SAAKASHVILI

Segundo alguns analistas, Moscou pode adiar a retirada de suas forças a fim de manter sob pressão econômica e social o presidente georgiano pró-EUA, Mikheil Saakashvili.

O governo de Saakashvili determinou a restrição do acesso a meios de comunicação e sites russos, afirmando que a medida visava evitar que os georgianos ficassem indignados com a propaganda feita pela Rússia.

O ministro russo das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, criticou a medida. “Vocês, provavelmente, podem ver com os próprios olhos o que é a democracia do Estado georgiano e quem a está minando”, afirmou.

Segundo Lavrov, a Rússia não tinha planos de ocupar a Geórgia ou de anexar partes de seu território.

Todavia, postos de controle russos bloqueiam atualmente a principal estrada de ligação leste-oeste da Geórgia, uma rota vital que conecta Tbilisi com os portos georgianos do mar Negro.

Soldados russos ingressaram também em cidades do oeste da Geórgia, controlando o tráfego e a movimentação de pessoas ali.

Reportagem adicional de Margarita Antidze, em Igoeti; Ralph Boulton, em Tbilisi; Aydar Buribaev e Christian Lowe, em Moscou

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