12 de Agosto de 2008 / às 18:21 / 9 anos atrás

Rússia ordena suspensão da guerra; Geórgia está cética

Por Oleg Shchedrov e Margarita Antidze

MOSCOU/TBILISI (Reuters) - O presidente da Rússia, Dmitry Medvedev, ordenou na terça-feira a paralisação das operações militares na Geórgia, mas o governo georgiano levantou dúvidas a respeito do anúncio e afirmou que os russos continuavam a bombardear vilarejos e cidades.

O surgimento da notícia coincidiu com a chegada a Moscou do presidente da França, Nicolas Sarkozy, que realiza uma missão de paz em nome da União Européia (UE). A ordem russa parecia ter por meta ajudar os esforços internacionais para negociar uma trégua duradoura.

Segundo Sarkozy, a Rússia e a Geórgia, que se enfrentam desde a quinta-feira passada, não chegaram ainda a um acordo de paz. E acrescentou: “Ainda não conseguimos a paz. Mas tivemos uma paralisação provisória das hostilidades. E todos deveriam estar cientes de que isso representa um avanço considerável. Ainda há muito trabalho a ser feito. Desejamos garantir o melhor resultado.”

Em sua primeira reação, os EUA, por meio de seu enviado à região, Matthew Bryza, descreveram a manobra russa como “extremamente positiva”.

O conflito em torno da pequena região separatista da Ossétia do Sul provocou instabilidade nos mercados e deixou assustado o Ocidente. O embate começou quando a Geórgia tentou retomar o controle sobre a região pró-Rússia na semana passada, provocando uma grande contra-ofensiva da parte do governo russo.

Medvedev, usando um linguajar que lembra o de seu antecessor no cargo, Vladimir Putin, criticou o presidente georgiano, Mikheil Saakashvili, na terça-feira, chamando-o de “lunático”. Saakashvili foi eleito prometendo retomar o controle sobre a Ossétia do Sul e sobre uma segunda região separatista do país, a Abkházia.

“Como vocês sabem, a diferença entre um lunático e as pessoas comuns é que, quando aquele sente cheiro de sangue, torna-se muito difícil impedi-lo de agir. De modo que precisamos recorrer a uma intervenção cirúrgica”, disse o presidente russo em uma entrevista coletiva.

Os georgianos discordavam. Uma imensa multidão reuniu-se do lado de fora do prédio do Parlamento, em Tbilisi, para saudar Saakashvili, retratando-o como um herói por defender o país contra as ações agressivas da Rússia.

Pessoas que discursaram no evento criticaram o governo russo enquanto a multidão gritava: “Geórgia! Geórgia!” Cartazes exibidos por alguns dos presentes mostravam uma imagem de Putin com os seguintes dizeres: “Procurado por crimes contra a humanidade.”

Saakashvili compareceu mais tarde à mobilização e prometeu que, algum dia, a Geórgia derrotaria a Rússia. “Eu prometo a vocês hoje que vou lembrá-los de tudo o que fizeram. E um dia vamos vencer”, disse.

Na zona de conflito, uma série de explosões inesperadas atingiu a cidade de Gori (70 quilômetros a oeste de Tbilisi), na terça-feira, matando ao menos cinco civis, testemunhou um correspondente da Reuters.

Imagens de TV e fotos sugeriram que as explosões haviam sido provocadas por morteiros, apesar de não se saber ainda quem tinha realizado os disparos. Forças russas estariam estacionadas a cerca de 12 quilômetros de distância naquele momento e negaram ter atacado a cidade, local onde nasceu o líder soviético Josef Stalin.

Uma outra testemunha da Reuters disse que as explosões ocorreram dentro de um pequeno intervalo de tempo, deixando crateras nas ruas e espalhando estilhaços.

A rede de TV RTL afirmou depois que um cinegrafista da Holanda estava entre os mortos e que um correspondente havia ficado ferido.

Mais ao norte, na capital da Ossétia do Sul, Tskhinvali, casas continuavam queimando na terça-feira, dias depois das batalhas da semana passada.

Tanques e militares russos realizavam patrulhas pelas ruas quase desertas da cidade.

Teimuraz Pliyev, 62, disse que ficou três dias escondido em um porão com sua mulher e filhos. “Isso se parece com Stalingrado, não é?”, perguntou. “Bárbaros! Vejam: isto é a democracia georgiana! Se não fosse pela Rússia, já teríamos sido enterrados aqui.”

Um coronel do Exército russo que não quis ter sua identidade revelada afirmou: “Ainda ocorrem alguns disparos vindos de franco-atiradores. Mas estamos acabando com eles de forma gradual e definitiva.”

Apesar do avanço diplomático de terça-feira, ainda há muitas questões que precisam ser resolvidas antes de os dois lados serem capazes de selar um acordo final.

Segundo Medvedev, um texto acertado com Sarkozy estipulava seis condições para resolver o conflito de forma duradoura.

“Primeiro, (as partes em conflito) não podem recorrer à força. Segundo, precisam paralisar as ações militares. Terceiro, é preciso haver livre acesso à ajuda humanitária. Quarto, as Forças Armadas da Geórgia devem regressar a suas bases permanentes. Quinto, as Forças Armadas da Rússia regressarão às posições que ocupavam antes do início da ação militar. Sexto, é preciso iniciar discussões internacionais a respeito do futuro da Ossétia do Sul e da Abkházia”, afirmou.

Não se sabe ainda se o governo georgiano aceitará todas essas condições.

Saakashvili havia concordado, na segunda-feira, com um plano de quatro pontos sugerido pelo ministro francês das Relações Exteriores, Bernard Kouchner. Mas alguns elementos do plano de terça-feira pareciam ser novos.

Os dois lados continuavam a trocar acusações sobre não estarem cumprindo o cessar-fogo que já tinham declarado.

“Apesar das afirmativas feitas pelo presidente russo hoje de manhã sobre as operações militares contra a Geórgia terem sido paralisadas, neste momento, jatos russos estão bombardeando vilarejos georgianos localizados fora da Ossétia do Sul”, disse o governo da Geórgia.

O Ministério de Defesa da Rússia classificou essa acusação de uma “informação provocativa” e acrescentou que os georgianos continuavam a bombardear posições dos russos na Ossétia do Sul.

Medvedev ainda classificou como “mentirosas” as declarações da Geórgia sobre ter observado um cessar-fogo nos últimos dois dias.

“As forças georgianas continuam a disparar contra as forças de paz. Infelizmente, pessoas foram mortas ontem. Não houve nenhum cessar-fogo da parte da Geórgia”, disse.

Os mercados russos, que sofreram uma forte queda depois do início da guerra, recuperaram-se ao ser divulgada a ordem de Medvedev para suspender a ação militar. O rublo valorizou-se e os índices de bolsas de valores recuperaram-se.

A Rússia afirma que 1.600 civis da Ossétia do Sul foram mortos nos combates e que milhares mais estão desabrigados. Mas essas cifras não foram confirmadas por nenhuma fonte independente.

A Geórgia registrou cerca de 200 mortos e centenas de feridos.

Reportagem adicional de Guy Faulconbridge, Conor Sweeney e Simon Shuster em Moscou, James Kilner em Tbilisi, Dmitry Solovyov em Tskhinvali e Matt Robinson em Gori

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