3 de Outubro de 2008 / às 22:22 / em 9 anos

Divisão dos evangélicos no Rio pode prejudicar Crivella

Por Carla Marques

RIO DE JANEIRO, 3 de outubro (Reuters) - As diferenças entre católicos e pentecostais e entre os próprios evangélicos no Rio de Janeiro pode ter papel decisivo na disputa pela prefeitura da cidade.

Para o cientista político Cesar Romero Jacob, da PUC-Rio, que pesquisa a influência da religião no comportamento do eleitor carioca, o cisma das duas igrejas evangélicas mais fortes no município, a Universal do Reino de Deus, da qual o candidato Marcelo Crivella (PRB) é bispo licenciado, e a Assembléia de Deus dividiu os votos dos fiéis e enfraqueceu a candidatura de Crivella, que corre o risco de não chegar ao segundo turno.

Em agosto deste ano, o bispo Manoel Ferreira, que comanda a Assembléia de Deus e é deputado federal pelo PTB, declarou apoio a Eduardo Paes (PMDB), líder do ranking de intenção de votos. Segundo Cesar Romero, essa aliança pode ter sido crucial para o declínio de Crivella, que caiu de 26 por cento das intenções de voto para 19 por cento, segundo o Datafolha.

Pelo censo de 2000, a cidade tinha 17 por cento de evangélicos. Em 2004, Crivella teve 22 por cento de votos como candidato à prefeitura.

"Os números de evangélicos e de eleitores do Crivella estavam mais ou menos próximos, até porque pode ter havido um crescimento dos pentecostais naquele intervalo. O mapa dos eleitores de Crivella era uma reprodução do mapa da distribuição de evangélicos no Rio", disse o cientista político.

Para Cesar Romero, a Assembléia de Deus preferiu assumir um risco menor, porque, mesmo no caso de derrota de Eduardo Paes, ainda estaria aliada a Sérgio Cabral e à máquina estadual por mais dois anos. Como conseqüência, Crivella teria perdido votos no único nicho em que consegue penetrar.

Em entrevista à Reuters, no início da campanha, Crivella afirmou que sua religião motiva rejeição de parte do eleitorado e, por isso, não podia confiar nela para vencer a disputa:

"São 25% os eleitores evangélicos no Rio de Janeiro, mas é muito difícil votarem todos em um candidato só", disse Crivella. "Agora, recentemente, o bispo Manoel Ferreira declarou apoio ao Eduardo Paes. Então, o voto do evangélico não é destinado ao candidato evangélico, mas ao melhor candidato. Pode ter certeza que os evangélicos estão muito bem informados", acrescentou.

Cesar Romero lembra que a divisão religiosa da cidade já estava explícita na última campanha à prefeitura, em que o atual prefeito Cesar Maia começou a disputa subindo as escadarias da Igreja da Penha para receber o voto útil dos católicos, contra Crivella.

"Crivella é vítima da intolerância praticada pela Igreja Universal. Não adianta dizer que vai governar para todos se a igreja é antiecumênica, é contra a umbanda e o candomblé. A militância gay da cidade também age contra ele", afirmou Cesar Romero.

O pesquisador ressaltou que a Igreja Católica também atua politicamente na cidade por formas "oblíquas" de indicar o voto.

"A Igreja Católica não vai dizer no púlpito 'vote no fulano'. Mas a arquidiocese distribui cartilha para que o católico não vote em candidato que não apóie a Igreja ou que seja a favor do aborto e do casamento gay", observou o cientista político.

"Com argumentos diferentes, ela desaprova tanto o Crivella como a Jandira (Feghali, do PCdoB). Se a disputa fosse entre candidatos católicos, como Solange Amaral (DEM) e Eduardo Paes, ela não se mexeria."

Edição de Mair Pena Neto

0 : 0
  • narrow-browser-and-phone
  • medium-browser-and-portrait-tablet
  • landscape-tablet
  • medium-wide-browser
  • wide-browser-and-larger
  • medium-browser-and-landscape-tablet
  • medium-wide-browser-and-larger
  • above-phone
  • portrait-tablet-and-above
  • above-portrait-tablet
  • landscape-tablet-and-above
  • landscape-tablet-and-medium-wide-browser
  • portrait-tablet-and-below
  • landscape-tablet-and-below