7 de Agosto de 2008 / às 14:35 / em 9 anos

ANÁLISE-Após forte queda, Bovespa tende a voltar ao fundamentos

Por Aluísio Alves

SÃO PAULO (Reuters) - A idéia de que o Ibovespa está excessivamente deprimido começa a se cristalizar entre profissionais do mercado, depois de o principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo amargar queda superior a 20 por cento em 60 dias.

Mesmo levando-se em conta nuvens carregadas de incerteza no horizonte de curto e médio prazos, especialistas consideram que o atual patamar das ações distanciou-se demais da realidade das companhias.

“Os investidores estão desconsiderando um pouco os fundamentos das empresas”, avalia Ronaldo Boruchovitch, co-presidente da asset do UBS Pactual no Brasil.

Segundo ele, mesmo com o repique da inflação nos últimos meses, que levou a um ciclo de aperto monetário e consequente redução das perspectivas de crescimento econômico, os fundamentos da economia brasileira seguem sólidos, o que permite acreditar num desempenho positivo da Bovespa.

“O Ibovespa está excessivamente ‘descontado”', concorda Marcelo Audi, estrategista do Santander.

O profissional lembra, em extenso relatório, que vem recomendando cautela com investimentos na bolsa desde novembro, devido à piora dos cenários doméstico e internacional --a combinação de inflação em alta e crescimento econômico em baixa não é exatamente um indicativo animador para se investir em ações.

“No entanto, à medida que o tempo passa, os fatores de risco que nos dizem respeito tendem a ser superados, ou a ficar perto disso, levando-nos a rever nossa análise”, diz trecho do relatório em que já recomenda forte compra de ações brasileiras.

A idéia predominante é que, mais cedo ou mais tarde, essa distorção nos preços provocada por uma corrida por liquidez tende a ser superada.

“Chega uma hora em que o fundamento prevalece”, diz Valmir Celestino, gestor de renda variável do banco Safra.

PESO DOS ESTRANGEIROS

Esse descompasso entre fundamentos e performance no mercado tem sido especialmente dramático no caso das blue chips Petrobras e Vale, as mais importantes do Ibovespa.

A petroleira perdeu quase 30 por cento do valor de mercado desde que atingiu sua máxima, no início de julho. O caso da mineradora é ainda pior: um terço do valor da empresa evaporou em dois meses.

E mesmo a queda recente nos preços de commodities, apontada como responsável pelo mergulho das ações de ambas, pode ser insuficiente para explicar o movimento. A cotação do barril do petróleo, por exemplo, ainda não chega a ser nem 20 por cento menor do que o pico de 147 dólares em meados de julho.

A possibilidade de o governo federal criar uma estatal para administrar as reservas de petróleo na camada pré-sal descobertos pela Petrobras, hipótese tida como potencialmente negativa para as ações da companhia, também pode ser uma explicação limitada, avalia Celestino.

“A ação da Petrobras hoje vale menos do que antes do anúncio do megacampo de Tupi, em novembro, que impulsionou as ações”, compara.

Para analistas, um fator que ajuda a entender melhor esse quadro é a corrida dos investidores estrangeiros para fazer caixa. Entre junho e julho, o movimento produziu uma saída líquida de 15 bilhões de reais da bolsa paulista.

Com 35 por cento do giro financeiro da Bovespa, esse público tende a sempre ditar o comportamento do índice.

É o que mostra um levantamento recente feito pelo Instituto Nacional de Investidores (INI). O estudo mostra que, entre janeiro de 2005 e junho de 2008, a correlação entre a variação do índice e o peso dos aportes ou retiradas dos estrangeiros é superior a 72 por cento.

“Ou seja, a retirada de recursos dos estrangeiros é a maior responsável pelas quedas na bolsa e vice-versa”, explica o gerente geral do INI, Paulo Portinho.

Analistas destacam que alguns eventos recentes --como a divulgação de balanços do segundo trimestre e a manutenção do juro nos Estados Unidos-- tornaram o panorama um pouco mais claro, algo propício para a recuperação da bolsa.

Edição de Daniela Machado

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