10 de Janeiro de 2008 / às 16:49 / em 10 anos

Com crise nos EUA, parar e almoçar é luxo no mercado brasileiro

Por Silvio Cascione

SÃO PAULO (Reuters) - A elogiada melhora dos fundamentos brasileiros parece ter pouca importância no momento em que todos os olhos estão voltados aos tropeços da economia norte-americana. Agentes do mercado financeiro, tensos por natureza, têm agora mais motivos para permanecer grudados nos indicadores externos.

“O mercado está operando com um ambiente de risco elevado”, resumiu Roberto Padovani, economista-chefe do Banco WestLB do Brasil, sobre o fantasma de uma recessão nos Estados Unidos.

Um exemplo da sensibilidade dos negócios ao ambiente externo foi dado nesta quarta-feira pelo mercado de câmbio, em que as operações só começaram a engrenar meia hora além do normal. Segundo operadores, os clientes esperavam algum sinal sobre o mercado norte-americano que pudesse dar rumo às operações.

A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) tem vivido dias mais voláteis mas, graças a pesos pesados como as ações da Petrobras, consegue se descolar de Wall Street em alguns pregões.

Está mais difícil fazer negócios? “Muito mais! Como você vai operar num mercado que pode estourar a qualquer minuto?”, afirmou Júlio César Vogeler, operador de câmbio da corretora Didier Levy.

Os perigos para a maior economia do mundo vêm de vários lados. A crise imobiliária --acentuada em meados de 2007-- freia o consumo e afeta os lucros das empresas; a desconfiança entre os bancos aperta o crédito e seca a fonte de investimentos; a alta global do petróleo e dos alimentos pressiona a inflação e diminui o espaço para um alívio monetário mais contundente.

DE OLHO NOS DETALHES

Nesse ambiente, cada indicador, discurso ou balanço corporativo pode levar o mercado da euforia ao profundo pessimismo.

“Num momento de crise, os operadores dos bancos ficam mais ‘duros’ na linha, e a chance de um erro operacional aumenta”, afirmou o operador de uma corretora de grande porte e com presença internacional que pediu para não ser identificado.

Mas a volatilidade, apesar de incomodar alguns, também pode ser uma ótima oportunidade.

“É mais gostoso, porque você fica no fio da navalha. Quem é operador sabe que, sem o risco, fica até meio sem graça”, brincou Vanderlei Arruda, gerente de câmbio da Corretora Souza Barros. “Você pode ganhar muito ou perder muito.”

Para isso nem é preciso mudar bruscamente a rotina. O segredo, segundo o gerente, é acompanhar Wall Street de perto.

“Estão todos (câmbio, bolsa e juros futuros) mais afinados com as informações externas para que a gente não sofra uma inversão repentina e possa ter condições de ganhar muito numa situação”, disse.

“Em cada uma das mesas tem um operador que fica especificamente com os dados daquele mercado. E a gente tem o noticiário econômico direto na TV, em inglês”, acrescentou.

Apesar da chance de ganhos, Arruda concorda que o bombardeio de informações e o nervosismo tornam o trabalho mais puxado. “Eu voltei de férias na segunda-feira e estou tentando almoçar até agora.”

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