11 de Setembro de 2008 / às 17:32 / em 9 anos

ANÁLISE-Plano de contingência não suportaria corte de 50% no gás

Por Alberto Alerigi Jr.

SÃO PAULO, 11 de setembro (Reuters) - Um corte de 50 por cento no fornecimento do gás boliviano ao Brasil teria forte impacto sobre a indústria de São Paulo, Mato Grosso e Rio Grande do Sul, especialmente, e um plano de contingência do governo não teria condições de compensar tamanha redução em um momento de alto consumo do país, disseram especialistas.

"Acho difícil ter um plano de contingência capaz de suprir metade do fornecimento", disse Rafael Schechtman, ex-superintendente da Agência Nacional do Petróleo (ANP) entre 1998 e 2001 e diretor da consultoria Centro Brasileiro de Infra-Estrutura.

"Uma redução de 10, 15 por cento no fornecimento é contornável pela redução da geração termelétrica a gás, mas passando daí começa a entrar no gás que é direcionado para a indústria e restante dos consumidores de SP, MT e RS", disse o analista, citando como exemplo de indústria dependente do produto boliviano o setor de cerâmicas e vidros.

Ele afirmou ainda que quando os cortes são pequenos a Petrobras reduz oferta de GNV (gás natural veicular) e depois o fornecimento a indústrias bicombustíveis, que podem trocar o gás por outros combustíveis como o diesel em seus processos produtivos.

Segundo ele, o Rio de Janeiro não seria muito afetado pelo corte porque o Estado consome gás da bacia de Campos, mas São Paulo "tem uma dependência de cerca de 80 por cento do gasoduto Brasil-Bolívia".

E apesar da perspectiva de normalização no curto prazo, o cenário mais para frente não é positivo, diz ele, por conta da turbulência vivida pelo país andino.

"Os opositores parecem querer causar o máximo possível de distúrbios e o governo está radicalizando", afirmou Schechtman.

FIM DA "DOR DE CABEÇA"

Apesar das dificuldades geradas pela interrupção no fornecimento, nem todos estão pessimistas sobre o uso do gás natural no Brasil. Novas reservas, integração de gasodutos entre Sudeste e Nordeste do país e terminais de gás natural liquefeito prometem dar ao país mais independência em relação à Bolívia nos próximos anos.

"Claro que a situação agora não é uma maravilha. É um inconveniente, mas talvez sejam os últimos inconvenintes do nosso mercado de gás, da nossa dependência boliviana", disse o analista Jean-Paul Prates, que acompanha a indústria há 18 anos e atualmente é secretário de Energia do Rio Grande do Norte.

Segundo ele, apesar do corte ser uma "dor de cabeça" para a indústria, a maior parte das empresas tem contratos de backup de energia para o caso de haver interrupção na oferta do gás. "É praxe da indústria fazer backup. Claro que (as empresas) vão pagar mais caro que o gás, mas tem seguro e compensação sobre isso", afirmou.

A redução na oferta para Prates tem gravidade circunstancial por criar um problema operacional para a indústria. "Mas temos que olhar para frente, não é uma coisa desesperadora. Não é algo que leve o empresário a concluir que fez uma má escolha com o gás, porque estamos às portas de sairmos da dependência."

A Petrobras (PETR4.SA) tem investido em terminais de regaseificação para processar GNL importado. Além disso, as grandes descobertas no pré-sal da bacia de Santos envolvem um enorme volume de gás, que poderá aliviar a situação da oferta no país se o desenvolvimento dos campos for bem sucedido.

Reportagem de Alberto Alerigi Jr.; Edição de Marcelo Teixeira

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