19 de Fevereiro de 2008 / às 16:32 / 10 anos atrás

Frei Betto diz que volta do capitalismo a Cuba é ilusão

<p>Vendedor de jornal mostra a edi&ccedil;&atilde;o do Granma que traz a carta de ren&uacute;ncia do comandante Fidel Castro, nesta ter&ccedil;a-feira, em Havana. Photo by Enrique De La Osa REUTERS/Enrique De La Osa</p>

Por Carmen Munari e Fernanda Ezabella

SÃO PAULO (Reuters) - Castrista histórico, Carlos Alberto Libânio Christo, conhecido como Frei Betto, afirmou nesta terça-feira que vê com tranquilidade a renúncia de Fidel Castro ao poder. Poucos dias após chegar de Havana, ele não acredita em uma reviravolta com o retorno do capitalismo ao país que há 49 anos carrega a bandeira do socialismo.

“Fidel se antecipou e renunciou, o que significa que, sem nenhuma dúvida, Raúl Castro será eleito”, disse à Reuters o frei dominicano, escritor e adepto da Teologia da Libertação.

Fidel, afastado do poder desde 31 de julho por problema de saúde, renunciou à reeleição à Presidência marcada para o próximo domingo quando se reúne a Assembléia Nacional renovada. Antes já havia transferido o poder temporariamente a seu irmão Raúl.

Frei Betto, que chegou de viagem a Havana na sexta-feira, onde participou de um congresso, conta que havia eleitores com a tendência de reconduzir Fidel à Presidência como uma homenagem ao líder de quase meio século e também com receio de uma transição traumática, mas, acredita, prevaleceu o “realismo” em função de sua doença não revelada.

Ex-assessor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Frei Betto, que se encontrou com Raúl na semana passada, prevê a continuidade do socialismo em Cuba, “país pobre mas sem miséria”, diz.

“A meu ver, iludem-se aqueles que pensam que haja qualquer sinal de volta do capitalismo. Em Cuba, não há nenhum setor organizado, representativo, que queira uma Cuba capitalista de novo”, afirmou.

“Quem queria foi embora ou já morreu. Quem está lá é uma geração que foi beneficiada pela revolução em questões básicas de saúde e educação. Em uma Cuba capitalista, em poucos anos voltaria a desigualdade e a miséria”, completou.

Com a postura de quem privou de conversas recentes com Raúl, ele acredita que a precária situação econômica deve levar Cuba a algum tipo de abertura, como a ampliação das parcerias estrangeiras, mas longe do estilo chinês, onde há um grande espectro de associações capitalistas.

Para ele, que escreveu um livro sobre a visão de Fidel sobre o cristianismo, as análises sobre o futuro de Cuba são cercadas de preconceito.

“A gente fica avaliando ou com olhos de quem viu o Leste europeu desabar, ou com olhos de quem vive em uma sociedade capitalista. Mas há quantos anos estão esperando acabar?”

DIRCEU COMPANHEIRO

O deputado cassado e ex-ministro José Dirceu dedicou a Fidel nesta tarde um texto em tom emocionado em que conta como o conheceu nos anos 60 após ser preso pela ditadura militar.

“Nada da história recente de nossas lutas e do povo da América Latina poderá ser escrito sem Fidel... Revolucionário, fiel às suas idéias, coerente, sempre aberto ao debate e a luta de idéias, Fidel deixa agora a linha de frente do comando do seu país para continuar como simples companheiro. Sua luta já é parte da Historia universal”, disse Dirceu em seu portal na Internet.

Para o escritor Eric Nepomuceno, o afastamento da presidência de Fidel não surge como uma surpresa e abre caminho para uma nova etapa administrativa, ainda que de continuidade.

“Era uma coisa prevista. Desde que ele se afastou, há um ano e meio, já era um período de preparação para essa nova etapa que se abre agora”, disse Nepomuceno, autor do livro sobre a ilha “Anotações sobre uma Revolução”.

Nepomuceno disse que é evidente que são necessárias várias reformas no sistema cubano, tanto econômicas quanto democráticas, mas também é importante preservar conquistas consideradas por ele como “intocáveis”, como o baixo índice de mortalidade infantil.

“Nada em Cuba vai ser brusco. Não acredito, por exemplo, que haja eleições convencionais, como conhecemos, a curto prazo”, disse Nepomuceno.

“O importante é que Fidel sai, mas vai continuar exercendo poder, como parte de um processo não de transição, mas de renovação”, disse Nepomuceno, autor também de “Caderno de Notas”, com reportagens sobre a América Latina.

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