19 de Março de 2008 / às 16:42 / 10 anos atrás

ESPECIAL-Tucanos ainda engatinham na realização de prévias

Por Carmen Munari

SÃO PAULO (Reuters) - Mesmo tendo decidido no ano passado que realizaria prévias para a escolha de candidatos da legenda, o PSDB ainda engatinha na democratização partidária e sequer fixou as regras para aplicar o sistema. A falta de convicção contrasta com o PT, que tornou as prévias uma prática eleitoral.

É possível que o assunto seja colocado à mesa em reunião da Executiva marcada para terça-feira que vem, mas o partido não tem certeza.

A grande expectativa é que, com a decisão, a sociedade presencie uma disputa entre os governadores José Serra (SP) e Aécio Neves (MG) para a definição do candidato tucano à Presidência da República em 2010, num embate que tem como referência os democratas norte-americanos Barack Obama e Hillary Clinton.

Correndo por fora, o senador Arthur Virgílio (AM) apregoa que também está no páreo e quer concorrer com os dois nomes fortes da legenda. Enquanto Aécio defende a adoção do sistema, Serra não demonstrou entusiasmo ao afirmar que “o que for decidido para mim está bom”.

O partido prevê a realização de prévias como parte da tentativa de aproximação com as bases e com a sociedade, compromisso assumido pelo senador Sérgio Guerra (PE) ao assumir a presidência do PSDB em novembro.

O líder do partido na Câmara, deputado José Aníbal (SP), disse que é preciso um “ensaio geral” antes de efetivar a medida.

A legenda quer aproveitar a eleição municipal para realizar um teste em uma cidade em que haja disputa entre dois tucanos pela candidatura. A escolha da cidade-piloto, no entanto, está difícil. João Pessoa e depois Campina Grande, ambas na Paraíba, foram apontadas, mas até agora não há uma definição.

“Houve esta resolução da direção nacional para o partido trabalhar a hipótese de prévias. Haverá um ensaio para o partido conhecer melhor o processo, ver quem pode participar”, afirmou o deputado à Reuters.

Sem dar sinais claros se o sistema será utilizado para a definição do candidato presidencial, Aníbal diz que o principal item a ser verificado em um teste é a definição de quais filiados estão aptos a votar e a necessidade de criar critérios como tempo de filiação, por exemplo. O PSDB afirma ter 1,2 milhão de filiados.

Aníbal explica que um candidato pode filiar pessoas de última hora e distorcer o resultado.

Um entusiasta da medida, o senador Álvaro Dias (PR), vai além e afirma que o partido deve ousar e abrir as prévias aos eleitores em geral, em um percentual pré-fixado.

“As prévias energizam o partido, que vai caminhar para elas. É preciso ganhar mais respeito da população”, disse.

Nos EUA, onde as regras das primárias são muito complexas, em alguns Estados os não-filiados a partidos políticos, chamados de independentes, também são incluídos nas eleições internas dos partidos.

No PSDB, o sistema pode ser visto como reação à fotografia da cúpula tucana reunida em um restaurante de luxo da capital paulista quando se decidiu que o ex-governador Geraldo Alckmin e não Serra seria o candidato à Presidência em 2006.

O uso das prévias foi aprovado pela Executiva do PSDB em outubro a partir de uma proposta do senador Tasso Jereissati (CE), então presidente da legenda. Pelo sistema, os candidatos precisam conquistar o voto dos filiados para depois atrair o eleitor. Vale apenas para cargos majoritários (presidente, governadores, prefeitos e senadores).

CREDIBILIDADE

Para Fabio Wanderley Reis, cientista político da Universidade Federal de Minas Gerais, as prévias são uma “expectativa natural” dos eleitores que se identificam com o PSDB.

“É uma prova da consistência de um partido. Confirma que existe um susbtrato real em que acreditar, senão a sigla é reduzida ao momento da eleição”, disse o professor.

Ele pondera, no entanto, que a disputa interna entre dois candidatos não pode chegar a níveis exasperados, como ele vê a concorrência entre Hillary e Obama, o que pode acabar desgastando candidatos e partidos e beneficiando o adversário.

Única legenda no país com experiência em eleições internas constantes, o PT instituiu as prévias na fundação, em 1980. Uma das disputas mais antigas foi entre Luiza Erundina e Plínio de Arruda Sampaio em 1988, em que Erundina saiu vitoriosa para a prefeitura de São Paulo.

Esta semana, os militantes petistas voltaram às urnas e definiram a deputada Maria do Rosário como candidata à prefeitura de Porto Alegre em outubro. Miguel Rossetto saiu derrotado.

O Rio Grande do Sul, no entanto, foi palco de uma prévia desastrosa para o PT. Em 2002, o então governador Olívio Dutra, que seria candidato natural à reeleição, enfrentou e perdeu a prévia para Tarso Genro, que havia deixado a prefeitura de Porto Alegre e acabou derrotado pelo peemedebista Germano Rigotto.

Em um episódio mais bem-sucedido, o agora presidente Luiz Inácio Lula da Silva venceu a concorrência interna com o senador Eduardo Suplicy em 2002, ano que Lula conquistou seu primeiro mandato.

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