23 de Junho de 2008 / às 15:38 / em 9 anos

ANÁLISE-Aumento da Rio Tinto quebra anos de "benchmark" da VALE

Por Denise Luna

RIO DE JANEIRO, 23 de junho (Reuters) - O acordo da australiana Rio Tinto com a chinesa Baosteel para aumento de até 96,5 por cento para os contratos de minério de ferro em 2008 interrompe uma tradição histórica do setor de mineração de ajuste igual para todas as mineradoras após o fechamento do primeiro contrato com os clientes.

Nos últimos cinco anos, a Vale, maior produtora de minério de ferro do mundo, ditava o aumento com o contrato de referência (‘benchmark’), que era seguido pelas outras mineradoras. Este ano, devido à grande demanda, principalmente da China, e aos valores elevados do frete marítimo, a BHP e a Rio Tinto se recusaram a praticar os ajustes fechados pela Vale em fevereiro.

O argumento das empresas com operação na Austrália era de que os chineses gastavam muito menos com frete quando compravam o minério australiano, em comparação com o brasileiro, e por isso deveriam pagar mais.

De fato, os custos com frete marítimo mudaram radicalmente de patamar nos últimos anos, já que o aumento do comércio internacional e a maior demanda dos asiáticos por matérias-primas provocou uma escassez de navios. Os preços, em alguns tipos de carregamentos, mais que dobraram, fazendo com que o custo do frete ganhasse maior importância nos negócios.

A Rio Tinto anunciou nesta segunda-feira que a chinesa Baosteel aceitou aumentos de 79,88 e 96,5 por cento para o minério da companhia de diferentes regiões. O acordo acontece quatro meses depois de a Vale ter firmado elevação entre 65 e 71 por cento para o seu produto extraído no Brasil.

Na avaliação da analista da Ágora Cristiane Viana, o anúncio significa uma mudança de paradigma do setor mas não deverá ter impacto negativo nas ações da Vale.

“Isso mostra que o mercado de minério está aquecido e muito forte, talvez ela (Vale) tente compensar essa diferença no ano que vem”, avaliou a analista.

Ela observou, no entanto, que a Rio Tinto não conseguiu todo o aumento que desejava, apesar de maior que o da Vale, já que a empresa pretendia incluir quase toda a diferença do custo do frete entre um envio do Brasil para a China e um da Austrália para o mesmo destino, o que daria um aumento bem maior.

Segundo a analista, o fato de uma companhia definir o aumento para o minério e todas seguirem dava maior estabilidade ao setor. Ela diz ser difícil vislumbrar, no entanto, se a mudança terá algum impacto mais forte no setor.

Para Pedro Galdi, da SLW Corretora, apesar de ser a primeira vez na história que o preço não será igual para todas as mineradoras, a notícia é boa para o setor e vai beneficiar também a Vale, que terá espaço para novos ajustes daqui para frente.

“Para o setor é positivo, porque mostra que existe demanda forte para o produto, pode ter maior preço no futuro...se aceitaram esse, por que não aceitar um novo reajuste?”, disse Galdi.

Já na avaliação do analista do Unibanco Rogerio Zarpão, o fato do aumento médio anunciado pela mineradora da Austrália ter ficado em 85 por cento --contra média de 68 por cento da Vale-- ficou em linha com o esperado pelo mercado e por isso não se deve ver um movimento de investidores estrangeiros, por exemplo, na direção de venda de ações da Vale e compra de papéis das australianas.

“Não esperaria nenhum efeito adicional de balanceamento de portfólio de fundos globais”, avaliou.

Zarpão acredita que o fim do “benchmark” (ponto de referência) pode levar a maior dinamismo nas negociações.

“O sistema de benchmark teve bases bastante questionadas. O que pode se esperar daqui para frente é uma mundaça no sistema de negociação, pode deixar de ser anual, pode ter negociações mais frequentes ao longo do ano”, estimou, lembrando que as negociações para o preço do minério em 2009 não devem demorar a começar.

Ele observou ainda que como o argumento utilizado pelos australianos se baseia no custo de frete maior do minério produzido no Brasil, uma eventual redução no longo prazo desse custo poderá trazer de volta preços uniformes.

“Se entrar um cenário de frete mais ameno e diminuir a vantagem que eles (australianos) têm hoje, nada impede que voltem as negociações conjuntas”, afirmou.

A indústria naval está investindo para elevar a oferta global de navios e uma redução dos custos é possível.

Por volta das 12h25, as ações da Vale operavam em alta de 1,1 por cento na Bovespa, enquanto o índice geral da bolsa perdia 0,1 por cento.

Edição de Marcelo Teixeira

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