24 de Julho de 2008 / às 18:19 / 9 anos atrás

"Pancada" no juro ataca inflação mas afeta PIB, diz Bernardo

Por Rodrigo Viga Gaier

RIO DE JANEIRO (Reuters) - O aumento mais forte da taxa de juro pode ser uma estratégia do Banco Central para encurtar o processo de aperto monetário, mas comprometerá o ritmo de crescimento da economia em 2009, avaliou nesta quinta-feira o ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão, Paulo Bernardo.

"(O BC) deve ter avaliado que uma pancada mais forte pode encurtar o tempo de luta contra a inflação", afirmou o ministro durante evento no Rio de Janeiro.

"Mas essa política (de juro) vai afetar o crescimento do ano que vem."

Na quarta-feira, o Comitê de Política Monetária (Copom) elevou a taxa básica de juro em 0,75 ponto percentual, para 13,0 por cento ao ano, surpreendendo parte do mercado que aguardava uma alta mais branda.

Nas reuniões de abril e junho, o Copom elevou a Selic em 0,50 ponto, dando início à operação para colocar os preços de volta à trajetória das metas definidas pelo governo.

No início do mês, o presidente do BC, Henrique Meirelles, afirmou que faria de tudo para trazer a inflação de volta ao centro da meta já em 2009.

"A reunião do Copom ontem deu sinal claro de que o governo, principalmente o Banco Central, não está para brincadeira com a inflação", acrescentou Bernardo.

A meta de inflação perseguida pelo BC em 2008, 2009 e 2010 é de 4,5 por cento, com margem de variação de dois pontos percentuais para cima ou para baixo.

A inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) --que baliza a política de metas-- acumulou nos últimos 12 meses até junho alta de 6,06 por cento, e analistas já apostam que o índice acumulará no ano um avanço de 6,53 por cento, superando o teto da meta pela primeira vez desde 2003.

CRESCIMENTO MENOR

Apesar de se mostrar favorável à postura mais agressiva do BC contra a inflação, o ministro do Planejamento reconheceu que o aperto monetária terá efeito negativo sobre a taxa de crescimento do país no próximo ano.

Em 2008, Bernardo disse que a economia brasileira pode crescer a uma taxa superior a 5 por cento, mas a expansão de 2009 será freada pela política do BC.

Bernardo afirmou que o ritmo de expansão do primeiro trimestre --de 5,8 por cento-- foi "muito forte" e que pode ter acelerado no período de abril a junho.

"Tudo indica que foi até melhor, podendo ter crescido na faixa de 6 por cento", disse.

"Nossa aposta é que vamos ter um crescimento de 5 por cento, talvez até passe disso em 2008, mas essa política (de juro) vai afetar o crescimento do ano que vem."

Na avaliação do ministro do Planejamento, o aumento da dose decidido na quarta-feira pelo Copom mostra que o BC atuou como zagueiro de um time de futebol.

"O Banco Central é como um zagueiro que sai da área para matar a jogada, não quer perder a viagem", disse. "Os caras abriram a caixa de ferramentas para matar a jogada e tirar o perigo de gol."

Texto de Renato Andrade

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