26 de Novembro de 2007 / às 09:13 / em 10 anos

COLUNA-Política cede lugar a inquietação com fundo soberano

Por Angela Bittencourt

SÃO PAULO (Reuters) - Entra ministro, sai ministro, e o mercado não reage. Mas basta acompanhar a escalada das reservas internacionais para muita gente sair do sério.

O sobe-e-desce de ministros do governo Lula e as intensas negociações que sacodem o Congresso para a prorrogação da CPMF e da Desvinculação de Receitas da União (DRU) estão passando batido no mercado financeiro.

Em contrapartida, reservas cambiais aproximando-se de 180 bilhões de dólares provocam calafrios e chegam a permear a alta do dólar por cinco sessões consecutivas, e por uma razão: reservas nesse nível podem disparar compras de dólares pelo governo para a constituição do fundo soberano do Brasil.

A perspectiva de formação desse fundo foi levantada em meados de outubro pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, e pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, durante reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Nos últimos dias, o assunto voltou a ser tema de declarações do alto comando das finanças no país, e os mercados trataram de multiplicar as dúvidas quanto ao funcionamento do fundo e o risco de superposição de intervenções do Tesouro e do BC no câmbio.

Já parece claro que a aquisição “extra” de divisas não comprometerá as reservas. Sobram dúvidas, contudo, quanto aos procedimentos operacionais que serão adotados para as atuações do Tesouro, que no Brasil não é responsável pela política cambial mas é gestor das dívidas externa e interna.

O mercado aguarda o detalhamento do fundo soberano porque teme a expansão da dívida mobiliária como mecanismo para o Tesouro fazer caixa para quitar a aquisição de dólares --caso as operações não sejam compartilhadas com o BC.

A perspectiva de o fundo soberano direcionar recursos principalmente para o BNDES, através da aquisição de títulos do banco de fomento, também preocupa porque a operação é vista como um mecanismo tortuoso de capitalização do banco e uma forma de driblar eventuais restrições orçamentárias.

AUDIÊNCIA EM BAIXA

A criação do fundo é vista como decisão política num momento em que o debate nessa arena perde audiência nos mercados.

“Os mercados estão voltados para questões de ordem prática que podem afetar as operações no curto prazo e nisso a política tem pouca influência. A política importava, e muito, para a definição de cenários de médio e longo prazos. Hoje são quase irrelevantes”, comenta Alexandre Mathias, diretor de renda fixa e economista-chefe do Unibanco Asset Management.

“O estertor da inquietação com o cenário político foi a crise que culminou com a saída de Antonio Palocci do comando do Ministério da Fazenda.”

BOM SENSO E SUCESSO

Para Alexandre Bassoli, economista-chefe do HSBC Bank Brasil, a política institucional tem hoje importância incomparavelmente menor a 2002.

“Até lá, preocupavam eventuais decisões que poderiam ter impactos muito maiores na política econômica, mas o presidente Lula não abriu mão da inflação baixa, do cumprimento de metas fiscais e do respeito a contratos. Hoje, não há inquietação quanto às diretrizes fundamentais da política econômica e nem receio de desestabilização.”

O economista reconhece que anos de economia internacional produzindo resultados vigorosos também contribuíram para a calmaria geral porque há mais complacência quando sobra dinheiro.

Mathias, do Unibanco Asset, acrescenta que “o Partido dos Trabalhadores chegou ao poder, tomou medidas razoáveis, usou o bom senso e fez da estabilização econômica um sucesso”.

OLHO DO FURACÃO

Cristiano Noronha, cientista político do Instituto Arko Advice, concorda com os economistas quanto à confiança inspirada pelo aval do presidente Lula à política econômica.

“É necessário reconhecer também que medidas tomadas nos anos 90 blindaram a economia. A privatização, a aprovação de marcos regulatórios e da própria Lei de Responsabilidade Fiscal reduziram o grau de risco político do país, mudando o foco das atenções.”

O analista explica que ainda há um acompanhamento sistemático do cenário político pelo mercado, mas voltado principalmente para eventuais mudanças de caráter ideológico, para a possibilidade de o Brasil ser contaminado pelo perfil considerado mais populista de países vizinhos e para o apoio político distribuído na cena nacional.

“O interesse não é personalista, mas voltado a órgãos ou instituições. O Ministério da Fazenda e o Banco Central são alvos de constante acompanhamento. Estão sempre no olho do furacão.”

ATENÇÃO AO LEGADO

Noronha entende que sinais que possam sugerir cerceamento da liberdade de expressão no país inquietam, mas não afetam os negócios.

“O presidente Lula, desde que assumiu o segundo mandato, passou a trilhar uma linha mais desenvolvimentista que pode ser reconhecida no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento)... mas essa postura veio acompanhada da defesa do que poderá ser o seu legado: a combinação entre desenvolvimento econômico, estabilidade monetária e progresso social.”

O analista da Arko não vê chance de o governo ser leniente com a inflação porque isto teria um pesado custo político.

“Se a inflação subir, o eleitor perde a grande conquista dos últimos anos e o presidente Lula jogaria no lixo os avanços conquistados, além de perder a possibilidade de fazer seu sucessor ou retornar ao Planalto em 2014. O presidente sabe que não pode manchar a própria biografia”, acrescenta.

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