27 de Dezembro de 2007 / às 15:59 / em 10 anos

OBITUÁRIO-Bomba encerra luta de Benazir Bhutto pela democracia

Por Robert Birsel

<p>A l&iacute;der da oposi&ccedil;&atilde;o paquistanesa Benazir Bhutto, assassinada na quinta-feira num ataque suicida em Rawalpindi, sabia muito bem dos riscos que estava correndo ao decidir retomar uma campanha p&uacute;blica pela restaura&ccedil;&atilde;o da democracia no Paquist&atilde;o. Photo by Petr Josek</p>

ISLAMABAD (Reuters) - A líder da oposição paquistanesa Benazir Bhutto, assassinada na quinta-feira num ataque suicida em Rawalpindi, sabia muito bem dos riscos que estava correndo ao decidir retomar uma campanha pública pela restauração da democracia no Paquistão.

Horas depois de voltar para o país, em outubro, depois de oito anos de um exílio auto-imposto, um homem-bomba matou quase 150 pessoas num ataque cujo alvo era a comitiva em que ela estava, nas ruas de Karachi.

O ataque foi seguido por ameaças de militantes vinculados à Al Qaeda, irritados com o apoio de Bhutto à guerra contra o terrorismo promovida por Washington.

“É possível que tentem me assassinar”, disse ela ao jornal Asharq al-Awsat pouco antes de voltar ao Paquistão. “Já preparei minha família e meus entes queridos para qualquer possibilidade.”

Apesar de ter se mantido no ostracismo pela maior parte da última década, a altiva Benazir continuou sendo uma das políticas mais reconhecidas do mundo.

Em 1986, um mar de gente a recebera no Paquistão, para onde ela voltava para enfrentar um ditador militar que sete anos antes havia executado seu pai, o premiê deposto Zulfikar Ali Bhutto.

Ela se tornou a primeira premiê mulher do mundo muçulmano ao ser eleita em 1988, aos 35 anos. Foi deposta em 1990, reeleita em 1993 e derrubada de novo em 1996, entre denúncias de corrupção. Ela alegou que as acusações tinham motivação política, mas em 1999 preferiu exilar-se a questioná-las.

Em outubro deste ano, com 54 anos, Benazir voltou ao Paquistão para liderar o Partido do Povo do Paquistão (PPP) nas eleições nacionais. Dessa vez, porém, ela esperava conseguir uma transição pacífica do governo militar do presidente Pervez Musharraf --no poder desde 1999-- para uma administração civil.

Mas, no início de novembro, Musharraf impôs um estado de emergência e Benazir protestou com veemência, aumentando a pressão para que o presidente abandonasse seu cargo militar e realizasse eleições livres.

Mesmo quando Musharraf renunciou do posto militar sob pressão internacional, no fim de novembro, Benazir e seu rival de partido Nawaz Sharif mantiveram-no sob forte vigilância, alertando contra qualquer tentativa de fraudar as eleições.

A família Bhutto já está acostumada à violência. Os dois irmãos de Benazir morreram em circunstâncias misteriosas e ela dizia que matadores da Al Qaeda tentaram matá-la várias vezes nos anos 1990. Informações da inteligência dão conta de que tanto a Al Qaeda quanto o Taliban e grupos jihadistas paquistaneses mandaram homens-bomba atrás dela.

Benazir já tinha dito que, se estivesse no poder, permitira que as forças norte-americanas atacassem alvos da Al Qaeda em território paquistanês.

Seu nome significava “única”. Ela nasceu em 1953, filha de abastados proprietários de terra. Estudou em Harvard e Oxford. Sua missão política começou em 1977, quando seu pai, o primeiro líder paquistanês eleito pelo povo, foi deposto pelo comandante militar Mohammad Zia-ul-Haq. O pai dela acabou sendo enforcado menos de dois anos depois, após um julgamento controverso.

Benazir lutou contra Zia por anos, sem sucesso, e foi presa inúmeras vezes. Em agosto de 1988, Zia morreu num acidente aéreo. Benazir foi eleita naquele mesmo ano e o mundo elogiou a instalação da democracia no Paquistão.

Mas muita gente no poderoso serviço de segurança do país desconfiava dela, e o presidente Ghulam Ishaq Khan retirou-a do posto depois de um ano e oito meses, acusando-a de corrupção. Ela acusou o governo de fraudar as eleições para levar ao poder Nawaz Sharif, seu desafeto.

O retorno ao poder em 1993 também durou pouco, novamente sob denúncias de corrupção.

Asif Ali Zardari, o executivo com que Benazir se casou em 1987, era tido como seu maior ponto fraco. Ele passou oito anos preso e foi solto sob fiança em 2004. O acordo que permitiu a volta de Benazir em outubro ao país eliminou as acusações contra o marido.

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