29 de Outubro de 2007 / às 09:52 / em 10 anos

COLUNA-Decisão do Fed é senha para realocação global de capitais

Por Angela Bittencourt

SÃO PAULO (Reuters) - A senha para a realocação de capitais no mundo e para o posicionamento de bancos centrais será dada pelo Comitê Federal de Mercado Aberto do Federal Reserve na quarta-feira, dia 31.

O banco central norte-americano encerrará outubro definindo o juro básico e, talvez, o custo da linha de redesconto --duas taxas que sofreram redução de 0,50 ponto percentual em 18 de setembro.

O juro básico, denominado pelas Federal Funds, caiu a 4,75 por cento ao ano, menor nível desde maio do ano passado. A taxa de redesconto ficou em 5,25 por cento.

“Qualquer economista pode jurar de pés juntos que a avaliação do Fed será técnica. Mas é inegável que há uma discussão subjacente, representada pelo custo político de uma decisão econômica que pesará na confiança dos consumidores e no humor dos eleitores em 2008 --ano em que os americanos escolherão o próximo presidente”, alerta o tesoureiro de um banco estrangeiro que prefere manter o anonimato.

Guardadas as devidas proporções, o Brasil enfrentará situação semelhante na gestão da política de juros daqui para frente. Em 2008 haverá eleição para prefeitos e o resultado do pleito será definitivo para orientar o rumo da eleição presidencial de 2010 --quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva encerrará o segundo mandato.

“Em 2010, poderemos ter a sensação de atravessar o rubicão. De passar do céu ao inferno na economia internacional e doméstica, porque as decisões tomadas agora nos EUA e no Brasil terão consequências em aproximadamente dois anos”, explica Edgard Pereira, professor da Unicamp e economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi).

ELEIÇÃO E ENERGIA

Pereira considera a possibilidade de o Fed cortar novamente o juro básico na quarta-feira. “A flexibilização da política monetária norte-americana deve prosseguir porque os efeitos da crise imobiliária na economia são maiores que o esperado. Isto já é notado na retração do nível de endividamento das famílias”, comenta.

Ele esclarece que o afrouxamento monetário nos EUA e a pressão contínua dos preços das commodities, mesmo sofrendo correção nos próximos meses, aponta tensão futura nos preços, nos índices de inflação no mercado internacional.

“No Brasil, teremos uma sequência de anos de crescimento... No ano que vem, ano eleitoral, teremos expansão de gastos públicos e, entre 2008 e 2009, a questão energética alcançará o ápice. É verdade que alguns investimentos nesta área entrarão em atividade, mas também é verdade que os custos serão mais altos no futuro, mostram os leilões de energia.”

CONTAS MUTANTES

O ING Bank trabalha com a perspectiva de manutenção do juro pelo Fed na quarta-feira, mas o conglomerado espera a retomada dos cortes em 11 de dezembro e continuidade no ano que vem, levando o juro básico norte-americano a 4,0 por cento no segundo trimestre de 2008.

“Os EUA continuarão flexibilizando a política monetária e a contrapartida será a apreciação das demais moedas, o real entre elas. Um dos efeitos desse movimento será a substituição do fluxo de comércio pelo fluxo de capitais --processo já em curso”, diz Jobim que alerta para a franca mutação de algumas contas brasileiras.

“Calculamos que o superávit comercial cairá de 40 bilhões de dólares neste ano para 22 bilhões de dólares em 2008, quando voltaremos a ter déficit em conta corrente. Nossa estimativa é de déficit de 1,0 por cento do PIB no ano que vem e será o primeiro desde 2002.”

As contas externas mudam, sobretudo, por forte aumento das importações e maturação de projetos desenvolvidos com investimento externo direto.

“Quem investiu começará a ter lucro. As remessas crescerão”, comenta Jobim que projeta taxa de câmbio de 1,65 real por dólar ao final de 2007 e 1,75 real por dólar em dezembro de 2008.

RESERVAS E AUTONOMIA

Edgard Pereira, da Unicamp, explica que juro menor nos EUA significa “reforço de liquidez no mundo porque a aversão ao risco diminui. O corte das Fed Funds sanciona a queda dos juros americanos mais longos e os investidores partem em busca de aplicações mais atrativas”.

O aumento das reservas internacionais brasileiras é previsto e reservas fortes, lembra o professor, “dão mais autonomia à execução de uma política econômica, e principalmente política monetária, próprias”.

“Economia com nível de reservas elevado é mais sólida, mas isso tem consequências. Especialmente no Brasil, onde os ativos têm muita liquidez e a entrada e saída de recursos ocorrem com facilidade, o risco de ficar aplicado em moeda local é baixo... E o resultado da movimentação do capital acaba sendo uma sobrevalorização do real.”

Curto prazo para decisões globais corresponde a cerca de um ou dois anos, esclarece Pereira, para quem a força do real levará a uma profunda mudança na estrutura de produção no país, com as importações avançando em escala inédita e as exportações expostas ao comportamento das commodities.

“O ciclo de alta das commodities persiste, mas haverá uma reversão em tempo não muito distante... Neste cenário, devemos acompanhar com atenção o passivo externo líquido, o total que devemos em moeda estrangeira. Esse passivo vem crescendo e tem sido incrementado pela participação de estrangeiros nas ofertas iniciais de ações. Recentemente, excluí os investimentos externos diretos da conta e constatei que esse passivo externo não está longe do saldo das reservas cambiais. Portanto, elas crescem, mas são lastro de contas a pagar.”

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