25 de Julho de 2014 / às 18:59 / em 3 anos

ANÁLISE-Grande surpresa da eleição, dobradinha Campos-Marina ainda não decolou

BRASÍLIA (Reuters) - Apontada como a grande surpresa eleitoral, capaz de quebrar a polarização entre PT e PSDB neste ano, a chapa presidencial do PSB com Eduardo Campos e Marina Silva ainda não mostrou a musculatura política esperada e, nas pesquisas recentes, Campos não chega aos 10 por cento das intenções de voto.

Candidato do PSB à Presidêrncia, Eduardo Campos, durante cerimônia e, Brasília em que foi anunciada sua candidatura e a de Marina Silva para vice-presidente. 14/04/2014. REUTERS / Ueslei Marcelino

Na campanha socialista, porém, não há decepção com os resultados da união entre Campos e Marina. A aposta é que a partir de agosto, com a aparição mais frequente nos telejornais e com o horário eleitoral gratuito, será possível dar a arrancada esperada.

Enquanto isso, o PSB também estuda pedir à Justiça Eleitoral que obrigue os institutos de pesquisa a citar os nomes dos candidatos a presidente e a vice das chapas nos levantamentos.

Pesquisas internas dos socialistas apontam que, quando as pessoas tomam conhecimento de que Campos e Marina estão juntos, a intenção de votos da chapa sobe para 18 por cento, em algumas regiões até 20 por cento.

Antes de se associar a Marina, Campos tinha entre 3 e 4 por cento das intenções de voto. Com a aliança, esse apoio chegou a 13 por cento em alguns levantamentos neste ano, mas nas pesquisas da semana passada a intenção de voto ficou entre 8 e 9 por cento.

Na avaliação de cientistas políticos, no entanto, esse não é o único obstáculo para um avanço maior da chapa socialista.

“No fim, eles somaram deficiências e não vantagens. Na época (do anúncio da união) eu já achava que a Marina não iria transferir intenções de votos para o Eduardo Campos”, avaliou o cientista político Benedito Tadeu Cesar, do Instituto de Pesquisas e Projetos Sociais (Inpro). Ele argumenta que apenas em disputas locais essa transferência é mais provável.

Campos, que foi ministro do governo Lula e era aliado de Dilma, ganhou o apoio inesperado de Marina para a disputa presidencial em outubro do ano passado, quando a ex-senadora não conseguiu o registro do seu partido Rede Sustentabilidade no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e decidiu se filiar ao PSB. Desde então, os dois têm feito inúmeros eventos juntos e indicado que estariam lado a lado na disputa.

O professor David Fleischer, da Universidade de Brasília, também não acredita que essa arrancada ainda possa ocorrer.

“A esperança era que a Marina ia levar os 20 milhões de votos que ela recebeu em 2010 para o Campos. Mas, aparentemente isso não vai acontecer”, disse Fleischer à Reuters.

Fleischer avalia que o ex-governador de Pernambuco espera por uma herança que não existe.

“O que o Eduardo Campos esperava era a herança dos 20 milhões de votos. Mas esses 20 milhões eram de quem não queria votar no (José) Serra e na Dilma”, argumentou.

Em 2010 quando concorreu à Presidência pelo PV, a ex-ministra do Meio Ambiente do governo Lula teve cerca de 20 milhões de votos no primeiro turno. Apesar disso, as pesquisas não detectaram essas intenções de votos para Marina até a última semana antes da eleição.

O fato de terem propostas conflitantes em algumas áreas também foi apontado por Benedito Tadeu Cesar como um complicador nessa dobradinha. “Campos tentou se aproximar do agronegócio e do segmento empresarial, que não tem relação com meio ambiente e o discurso tradicional da Marina, que também vetou acordos eleitorais”, argumentou.

POUCO CONHECIDO

Os socialistas acreditam que a abertura de comitês populares como as “casas de Eduardo e Marina”, em que os eleitores cedem sua casa espontaneamente para distribuir material de campanha dos candidatos, e alguns comitês em parcerias com candidatos a governador funcionarão como motor para a arrancada da campanha socialista.

“Há uma falsa sensação de imobilismo”, disse à Reuters uma fonte da campanha sob condição de anonimato.

O ex-deputado federal Walter Feldman, que compõem a cúpula da campanha socialista e é mais ligado a Marina, disse em nome da Rede Sustentabilidade que serão milhares de comitês populares espalhados pelo país.

“É o eleitor se manifestando do seu jeito, no seu modelo, nas suas características, e não no modelo oficial das campanhas convencionais”, disse.

Um dia após fazer uma caminhada com Marina por Belo Horizonte, Feldman disse à Reuters que as pessoas ainda não sabem quem está concorrendo à Presidência.

“As pessoas não sabem de nada (ainda). Desconhecem o Eduardo. Uma grande parcela da população. Hoje, eu acho que mais de 50 por cento desconhece o Eduardo”, argumentou.

“Nós achamos que quando conhecerem o Eduardo, e souberem que a Marina é candidata a vice dele, isso deve impulsionar a candidatura bastante. Nós achamos que pode ir a 18, 20 por cento, isso pode chegar até a 30 por cento”, afirmou Feldman, otimista.

Um dos estrategistas da campanha do PSB revelou que um levantamento interno da semana passada mostrou que 75 por cento dos eleitores não sabem que Marina é vice de Campos.

Mas haverá dificuldades para superar esse desconhecimento rapidamente, já que os socialistas terão apenas 1 minuto e 49 segundos na propaganda eleitoral gratuita. E a tendência é que sejam realizados poucos debates entre os candidatos no primeiro turno da eleição.

O coordenador-geral da campanha, Carlos Siqueira, disse que é cedo para escrever a sentença da candidatura socialista.

“A campanha está iniciando agora. Nós não podemos ter, digamos assim, conclusões precipitadas, dizer que não rendeu, que não cresceu”, argumentou.

Para os cientistas políticos, porém, só uma reviravolta pode mudar o atual quadro. “Tirando algo imprevisível, que atinja a Dilma ou o Aécio, dificilmente haverá mudança”, avaliou Cesar.

“Somente em 1994, quando o Lula estava muito à frente do Fernando Henrique e teve o Plano Real é que houve uma grande virada. Depois disso, o fenômeno nunca se repetiu”, lembrou Fleischer.

“Mas a esperança é a última que morre”, concluiu o professor.

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