December 14, 2016 / 6:13 PM / in 2 years

ESTREIA–“Sully” reconstitui façanha de piloto que pousou Airbus no rio Hudson

SÃO PAULO (Reuters) - Chesley “Sully” Sullenberger era um piloto experiente, com mais de 20.000 horas de voo, às vésperas de completar 58 anos quando, em 15 de janeiro de 2009, viveu a mais eletrizante experiência de sua vida.

Pouco depois da decolagem do aeroporto LaGuardia, em Nova York, com 150 passageiros e 5 tripulantes a bordo de um Airbus A320, os dois motores entraram em pane, após uma colisão com um bando de pássaros. Acreditando que não haveria tempo para retornar e aterrissar em um dos aeroportos próximos, Sully, ousadamente, decidiu pousar o avião sobre as águas do rio Hudson. Como se sabe, todos se salvaram.

A extraordinária história ocupa o centro do novo filme do veterano Clint Eastwood, “Sully – o herói do Rio Hudson”, mesmo nome do livro de memórias do piloto, escrito em parceria com o jornalista Jeffrey Zaslow, que inspira em parte o roteiro de Todd Komarnicki.

Embora uma reconstituição muito realista do sensacional episódio constitua parte substancial do filme —realizada em estúdio em Burbank, California, no mesmo lago artificial que sediou uma das sequências de “Tubarão”—, o centro nervoso do enredo é a investigação conduzida pela agência estatal de segurança dos transportes dos EUA, a National Transportation Safety Board (NTSB), sobre o arriscado procedimento levado a cabo por Sully, com assistência do co-piloto Jeff Skiles (Aaron Eckhardt).

Aí localiza-se o centro da controvérsia que inclusive extrapola o filme. Na tela, a apuração, conduzida por Charles Porter (Mike O’Malley) e Elizabeth Davis (Anna Gunn) —nomes fictícios, ao contrário dos pilotos—, é francamente hostil aos investigados, colocando em dúvida se o pouso no rio não teria sido uma temeridade e especulando que uma aterrissagem em LaGuardia ou Teterboro (aeroporto em Nova Jersey) teria sido não só possível como recomendável.

A investigação, que poderia ter cassado a licença dos pilotos e acarretado outras punições, funciona, portanto, como um drama de tribunal, em que Sully e Jeff lutam para atestar a correção de suas atitudes, que são minuciosamente repassadas, uma por uma.

Com aparência envelhecida para assemelhar-se ao personagem real, Tom Hanks assume por inteiro o papel de um homem investido da paixão pela defesa de sua honra mas que é igualmente atravessado pela dúvida —ele também se questiona sobre o que fez. Afinal, não é todos os dias que um piloto pousa na água e vive para contar a história, assim como todos os passageiros.

A polêmica transbordou para a vida real, já que os investigadores sentiram-se atingidos ao serem pintados como os vilões da história, o que eles negam. O próprio Sully, no entanto, em entrevista por e-mail ao jornal “The New York Times”, garantiu que o filme reflete “perfeitamente a tensão vivida naquele momento” e que o processo foi “adverso, com nossas reputações postas em jogo”.

Além do mais, o piloto, hoje aposentado, teve acesso prévio ao roteiro, fez várias observações e foi presença constante no set, o que serve de aval à visão apresentada no filme de Eastwood —que, a bem da verdade, vai bem mais longe do que o livro escrito pelo piloto.

Em termos cinematográficos, Eastwood, 86 anos, mostra que continua afiado. Mesmo um espectador familiarizado com a história de final feliz terá tudo para temer pela sorte dos passageiros, dependendo do socorro de balsas e helicópteros que teriam que ser rápidos, devido à baixa temperatura dos ventos e da água do Hudson em pleno inverno.

Hanks esmera-se numa interpretação cheia de nuances que tem tudo para render-lhe a sexta indicação ao Oscar e uma possível conquista da terceira estatueta —ele já tem duas em casa, pelos dramas “Filadélfia” (94) e “Forrest Gump” (95).

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

* As opiniões expressas são responsabilidade do Cineweb

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