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Nova cota para importação de etanol deixa insatisfeitos produtores nos EUA e no Brasil

SÃO PAULO/BRASÍLIA (Reuters) - Uma nova cota para importação de etanol sem tarifa pelo Brasil não satisfez nem os produtores norte-americanos, que desejavam a suspensão definitiva da taxa, nem o setor agrícola brasileiro, que vê a medida como “uma necessidade política” prejudicial ao segmento.

Unidade de processamento de cana em Valparaíso (SP) 18/09/2014 REUTERS/Paulo Whitaker

Em um comunicado publicado nesta segunda-feira, quatro entidades agrícolas dos EUA disseram que, embora a janela de três meses da validade da cota abra espaço para novas negociações, a mera existência da tarifa prejudica os consumidores brasileiros, além de causar incertezas para os exportadores norte-americanos.

Apesar de a cota ser válida para todos os países, ela deverá ser tomada pelos norte-americanos, de longe os maiores exportadores do biocombustível ao Brasil.

“A Associação de Combustíveis Renováveis dos EUA, o Conselho de Grãos do país, a Growth Energy e a Associação Nacional de Produtores de Milho acreditam que a extensão de 90 dias da cota não atende nem aos consumidores do Brasil nem às próprias metas de descarbonização do governo brasileiro, especialmente enquanto os produtores de etanol do Brasil continuam a receber tarifas zero para entrar ao mercado dos EUA”, afirmaram as associações.

A medida temporária pode ser vista como uma vitória para produtores de grãos dos EUA antes das eleições presidenciais de novembro --o setor agrícola integra parte importante do eleitorado do presidente Donald Trump, que tentará a reeleição.

“Embora preferíssemos que o Brasil abandonasse totalmente suas tarifas de importação de etanol e retomasse sua postura de livre comércio... vemos a decisão de extensão temporária como uma oportunidade para que as discussões para esse fim continuem”, acrescentaram os grupos.

A prorrogação por três meses da cota de importação de etanol dos EUA pelo Brasil --que atinge 187,5 milhões de litros-- foi anunciada na sexta-feira, em movimento que visa ganhar tempo para a negociação de uma posição melhor para a exportação de açúcar brasileiro aos EUA.

Ao divulgar a decisão, o governo afirmou que o período de 90 dias permitirá novas discussões sobre o comércio de açúcar e etanol, podendo envolver também uma abertura “ao milho em ambos os países”.

A principal matéria-prima do biocombustível nos EUA é o milho, enquanto no Brasil a produção de etanol está concentrada na cana-de-açúcar.

O setor de cana no Brasil condicionava negociações sobre a tarifa a uma queda nas barreiras tarifárias dos EUA para o açúcar brasileiro.

Em entrevista à Reuters na sexta-feira, o presidente da Frente Parlamentar da Agricultura, deputado Alceu Moreira (MDB-RS), afirmou que a decisão prejudica o produtor brasileiro, mas que foi aceita como “necessidade política” para mais negociações com os EUA.

“É um sacrifício que os produtores estão fazendo sem receber absolutamente nada do governo durante todo o (período de pandemia de) Covid-19, mas é uma necessidade política solicitada pelo presidente (Jair Bolsonaro) que o setor achou melhor atender”, afirmou Moreira após a decisão.

“Por enquanto nós, os produtores, fizemos isso muito mais porque o presidente da República, com autoridade de presidente, pediu que precisava desses 90 dias em virtude de que o chanceler (Ernesto Araújo) orientou que teria oportunidade de fazer negócio, ampliar os negócios na relação com os americanos”, acrescentou o deputado.

Inicialmente, a cota de importação anual de etanol dos EUA, negociada no ano passado, era de 750 milhões de litros com tarifa zero. A partir do fim do acordo, em agosto, a tarifa passaria a ser de 20%.

Por Gabriel Araujo e Ricardo Brito, com reportagem adicional de Marcelo Teixeira em Nova York

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