3 de Outubro de 2014 / às 22:34 / em 3 anos

COLUNA-Para quem Dilma vai torcer no domingo?

(O autor é editor de Front Page do Serviço Brasileiro da Reuters. As opiniões expressas são do autor do texto)

Presidente Dilma Rousseff em São José dos Campos (SP), em 3 de outubro de 2014. REUTERS/Roosevelt Cassio

Por Alexandre Caverni

SÃO PAULO (Reuters) - A presidente Dilma Rousseff, que tenta a reeleição pelo PT, chega ao final da campanha do primeiro turno numa situação bem confortável, mas com uma boa dose de incerteza como todos sobre quem será seu adversário no segundo turno: Marina Silva (PSB) ou Aécio Neves (PSDB).

A pergunta que muitos podem estar se fazendo agora é para quem Dilma vai torcer para se tornar seu oponente solitário a partir de segunda-feira. Qual dos dois seria mais fácil de ser derrotado pela petista?

Parece que durante um bom tempo nas últimas semanas, a resposta seria facilmente Aécio. A entrada de Marina na disputa presidencial com a trágica morte de Eduardo Campos, que era o cabeça de chapa do PSB, se deu com uma força impressionante.

Ela juntou o chamado recall da eleição de 2010, quando teve quase 20 milhões de votos, com o fato de personificar, muito melhor do que qualquer outro candidato na disputa, o desejo de mudança demonstrado nas grandes manifestações populares de junho de 2013.

Por fim, sua entrada no jogo eleitoral se deu por meio de uma tragédia, atraindo uma forte empatia que a comoção com a morte do ex-governador de Pernambuco propiciou.

O resultado disso foi uma disparada nas intenções de voto para os dois turnos. Chegou a abrir 10 pontos percentuais contra Dilma em simulação de segundo turno.

Parecia que Marina seria uma candidata quase imbatível numa segunda rodada, quando teria o mesmo tempo de rádio e TV que a presidente. Ela teria o voto dos eleitores tucanos, daqueles identificados com as manifestações do ano passado, daqueles que progrediram durante os governos petistas, mas querem mais.

Naquele momento, a campanha de Dilma virou toda sua artilharia contra a candidata do PSB, deixando Aécio praticamente de lado.

O esforço petista foi para aproveitar o tempo maior na TV e no rádio no primeiro turno para minar a força de Marina numa segunda etapa. Na prática, foi como se a campanha do segundo turno já tivesse começado --os números àquela altura pareciam eliminar qualquer dúvida sobre contra quem seria o confronto.

Com a linha auxiliar da campanha tucana, que passou a explorar contradições de Marina e o sentimento antipetista de boa parcela do eleitorado ao lembrar o passado dela no PT, a estratégia de Dilma contra Marina deu certo. Tão certo que pode ter dado errado.

Todas as pesquisas mostram Marina em trajetória claramente descendente, e Aécio em leve recuperação. Embora não seja uma retomada forte, se o tucano conseguir ultrapassar a candidata do PSB vai começar a campanha do segundo turno muito mais embalado.

Aécio parecia ser um oponente mais interessante para Dilma por manter a velha polarização PT X PSDB e por ser um adversário mais conhecido --afinal, a campanha da presidente havia se preparado para enfrentá-lo. Também parecia ser o ideal, porque o eleitorado que votou em Lula e em Dilma nas última eleições não parecia disposto a votar num candidato do PSDB.

Mas se Aécio conseguir mesmo o que parecia virtualmente impossível há um mês, quando a vantagem de Marina era de 20 pontos percentuais, esse cenário previsível pode mudar.

Para começar, ele vai ter a seu favor uma virada para mostrar e para vender a ideia de que uma outra virada é possível. Além disso, uma boa parcela dos eleitores de Marina pode culpar Dilma pela eliminação da candidata do PSB e querer dar o troco no dia 26.

Mais importante: Aécio tem uma estrutura partidária e de alianças muito maior do que a de Marina. Aliás, se ele continuar na disputa, parte do seu sucesso na reta final do primeiro turno também terá que ser creditado a isso.

Dilma tem, portanto, motivos para torcer para Marina ou para Aécio a essa altura do campeonato. Mas, talvez, considerando sua personalidade, ainda que não admita isso publicamente, especialmente porque é uma hipótese praticamente impossível, pode ser que a presidente torça primeiro por ela mesma: liquidar a fatura e garantir a reeleição já no domingo.

Mas aí já é sonho e não torcida.

* * Esta coluna foi publicada inicialmente no terminal financeiro Eikon, da Thomson Reuters.

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