13 de Outubro de 2014 / às 23:21 / em 3 anos

COLUNA-O apoio de Marina: coerências, contradições e o que fica para o futuro

(O autor é editor de Front Page do Serviço Brasileiro da Reuters. As opiniões expressas são do autor do texto)

Por Alexandre Caverni

SÃO PAULO (Reuters) - Cobrar coerência nas decisões dos políticos costuma ser uma tarefa inglória, mas é preciso reconhecer que Marina Silva (PSB), ao declarar apoio a Aécio Neves (PSDB) no segundo turno da eleição presidencial, tem vários pontos a seu favor. Mas algumas questões mostram também que não existem decisões perfeitas e que elas têm sempre consequências sobre o futuro.

O apoio da terceira colocada no primeiro turno parecia certo desde suas declarações dadas logo depois de conhecidos os resultados das urnas no último dia 5. A candidata do PSB disse naquele momento que a maioria tinha escolhido a mudança e que ela levaria isso em consideração ao decidir sobre o que fazer em seguida.

Ela afirmou ainda que a decisão se daria com bases programáticas, o que reforçava a impressão de que ela optaria pelo tucano, já que seu programa de governo, especialmente na parte econômica, tinha inúmeras afinidades com o do PSDB.

No final, Marina fez tudo o que prometeu naquele domingo. Se a maioria escolheu a mudança e ela queria ser coerente com isso, a opção tinha que ser o tucano. Por mais que a presidente Dilma Rousseff (PT) diga que “governo novo, ideias novas”, se alguém quer mudar mesmo, vai preferir outro e não o mesmo para fazer essas mudanças.

Sobre as bases programáticas, Marina foi muito mais coerente que o partido que a abriga, o PSB, que anunciou apoio a Aécio na quarta-feira antes de apresentar sugestões programáticas ao tucano.

A ex-senadora primeiro levou pontos que gostaria de ver abraçados por Aécio. E somente depois que ele assumiu um compromisso formal com alguns deles, incluindo “levar adiante o resgate da dívida social brasileira”, Marina declarou seu apoio.

Mas pelo menos uma contradição óbvia ficou: para quem passou a campanha toda falando que a polarização PT X PSDB era perversa para a política brasileira e que se apresentou como uma terceira via, a nova política, a defesa agora da alternância de poder como uma das justificativas para sua decisão pode soar apenas como uma desculpa para simplesmente derrotar o PT.

As razões para Marina querer derrotar o PT e Dilma já eram conhecidas antes de a campanha começar. Ela culpa, ao menos em parte, movimentações do governo petista pelo fracasso na criação de sua partido, a Rede Sustentabilidade, em 2013.

A campanha só aumentou essas razões. A propaganda petista de rádio e TV pegou pesado. Um exemplo primoroso é a peça que trata dos supostos riscos sobre emprego e salários que a autonomia legal do Banco Central, defendida por Marina, poderia trazer.

Outro é a peça que mostrava os livros escolares das crianças ficando em branco por falta de investimento no pré-sal. Dilma não ajudou nada ao acusar a candidata do PSB de mentir e acrescentar que isso é desvio de caráter.

Por outro lado, não deixa de ser curioso o apoio de Marina a Aécio, cuja campanha bateu na tecla de que ela era uma espécie de segunda candidata do PT, afinal passara nesse partido longos anos, inclusive lá permanecendo quando eclodiu o escândalo do mensalão.

Aliás, uma peça de propaganda do candidato tucano contra a ex-senadora agora teria um complemento: Marina era do PT e foi para o PV, dali saiu para fundar a Rede, para depois ir ao PSB... e agora está apoiando o PSDB.

O apoio também completa um giro de 180 graus na trajetória partidária de Marina.

Seguindo os passos já mostrados acima, quando ela deixou o PT foi para uma legenda alinhada com sua principal bandeira, a ecologia e a sustentabilidade; dali partiu para tentar montar um partido próprio na mesma linha, a Rede, incorporando ainda intensa participação das redes sociais.

E mesmo o PSB, escolhido para abrigar a Rede em gestação, tinha sido da base petista por 10 anos desde 2003. Agora apoia o grande adversário do PT e dos petistas.

Mais importante do que qualquer consideração de curtíssimo prazo, porém, o apoio tem consequências para o futuro.

Se ela foi muito criticada em 2010 por ter preferido a neutralidade no segundo turno daquela eleição presidencial, entre Dilma e o tucano José Serra, foi justamente essa decisão que permitiu a ela neste ano se apresentar como representante da nova política e atacar a polarização PT X PSDB.

Mesmo grupos dentro da Rede, que vetam qualquer tipo de apoio a Dilma mas não descartam o voto em Aécio, não veem com bons olhos um apoio formal ao tucano.

Vencendo quem vencer no dia 26, o apoio ao PSDB agora servirá de munição para o PT contra uma eventual candidatura de Marina daqui a quatro anos. Se o vencedor agora for Aécio, a posição da ambientalista pode ser mais difícil ainda em 2018, já que provavelmente, se quiser disputar a Presidência, terá que enfrentá-lo em busca da reeleição.

A questão final, porém, pode ser outra. Várias pessoas que acompanharam a entrevista que a ex-senadora deu logo após o primeiro turno tiveram a impressão de que ela mostrava, acima de tudo, estar aliviada.

Será que Marina ainda quer ser presidente da República?

* Esta coluna foi publicada mais cedo no terminal financeiro Eikon, da Thomson Reuters

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