February 19, 2019 / 9:04 PM / 8 months ago

Ford fechará fábrica no ABC este ano após sair de negócio de caminhões na América do Sul

Por Alberto Alerigi Jr.

Caminhões da Ford em São Bernardo do Campo 2/4/2015 REUTERS/Paulo Whitaker

SÃO PAULO, 19 Fev (Reuters) - A Ford anunciou nesta terça-feira vai sair do negócio de caminhões na América do Sul e fechar neste ano sua fábrica em São Bernardo do Campo, na região do ABC paulista.

A fábrica, que produz também o compacto Fiesta, emprega cerca de 3 mil funcionários e o impacto da decisão será “significativo” sobre o número de demissões da unidade, afirmou a montadora.

A unidade, a primeira da montadora norte-americana no Brasil, foi inaugurada em 1967, e em 2001 passou também a produzir caminhões.

A Ford afirmou que vai continuar as vendas do carro e dos caminhões da linha Cargo, F-4000 e F350 até o final dos estoques.

“Não faz sentido manter produção em São Bernardo sem manter a produção de caminhões”, afirmou a empresa.

Procurado, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC não pode comentar o assunto de imediato.

A Ford, que em caminhões compete no Brasil contra os grupos Volkswagen (VOWG_p.DE), Daimler e Volvo, teve vendas de 9.300 caminhões em 2018, crescimento de 19 por cento sobre o ano anterior.

O desempenho, porém, ficou abaixo da expansão de vendas do segmento no período, de 46 por cento, segundo dados da associação de montadoras de veículos, Anfavea.

Já o Fiesta acumulou vendas de 14.505 veículos em 2018, queda de cerca de 24 por cento sobre 2017, segundo dados da associação de concessionários Fenabrave.

O anúncio da Ford ocorre após a General Motors ameaçar em janeiro não continuar a operar da mesma forma no Brasil e estava negociando incentivos tributários com o governo do Estado de São Paulo, onde mantém fábricas em São Caetano do Sul e São José dos Campos. A montadora fechou acordo com metalúrgicos, congelando salários este ano e promovendo reajuste abaixo da inflação em 2020.

“O Brasil era um dos maiores mercados de caminhões para Ford. Mas o anúncio não se relaciona ao momento atual da indústria de veículos do país, que projeta crescimento este ano, após um forte crescimento das vendas de caminhões no ano passado”, disse o gerente de desenvolvimento de negócios da consultoria automotiva Jato Dynamics, Milad Kalume Neto. “É uma decisão estratégica deles para focar em carros e comerciais leves (SUVs)”, acrescentou.

A Ford também tem uma fábrica de veículos e motores em Camaçari (BA), inaugurada em 2001, onde produz o Ka e o utilitário EcoSport, e uma unidade de produção de motores e transmissões em Taubaté (SP), que não foram atingidas pelo anúncio desta terça-feira. Em Camaçari, a empresa está negociando uma redução de 700 funcionários com sindicato local, informou a entidade.

A montadora norte-americana havia informado em 10 de janeiro que iria demitir milhares de funcionários e fechar fábricas na Europa como parte de um plano para voltar ao lucro na região. Os fechamentos na Europa e em São Bernardo do Campo, segundo a Ford, fazem parte de um plano de reestruturação de 11 bilhões de dólares. Em comunicado, o presidente da Ford América do Sul, Lyle Waters, afirmou que a montadora segue comprometida com a região, onde não é lucrativa atualmente.

A Ford vai registrar encargos de 460 milhões de dólares com a decisão de fechar a fábrica em São Bernardo, com a maior parte do impacto sendo registrado neste ano. Desse total, 360 milhões referem-se a compensações de funcionários, concessionários e fornecedores.

O presidente da associação de concessionários da Ford (Abradif), Luiz Albuquerque, afirmou que a decisão da montadora “nos dá tranquilidade, porque a Ford estava perdendo dinheiro na região nos últimos quatro ou cinco anos e o encerramento da produção de caminhões vai quase que completamente zerar o prejuízo que tiveram nos últimos anos”.

Albuquerque comentou que se reuniu com a liderança da Ford na semana passada e recebeu garantia de novos investimentos da montadora em carros no país nos próximos três ou quatro anos.

Com reportagem adicional de Marcelo Rochabrun, em São Paulo, e Ben Klayman, em Detroit

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