19 de Dezembro de 2013 / às 16:03 / em 4 anos

PERFIL-Obstinado, Campos é "trator político", mas administrador mais aberto

Por Jeferson Ribeiro

O governador de Pernambuco, Eduardo Campos, discursa durante um encontro no qual a ex-senadora Marina Silva anunciou sua decisão de se aliar ao PSB, em Brasília. O aprendizado no palanque começou cedo, aos 21 anos, quando participou ativamente da eleição do avô, Miguel Arraes, um dos ícones da esquerda na resistência à ditadura militar, para o governo de Pernambuco em 1986. Depois disso, recém-formado em economia, Eduardo Campos foi chefe de gabinete de Arraes, partindo daí para construir sua própria carreira política. 05/10/2013 REUTERS/Ueslei Marcelino

RECIFE, 19 Dez (Reuters) - O aprendizado no palanque começou cedo, aos 21 anos, quando participou ativamente da eleição do avô, Miguel Arraes, um dos ícones da esquerda na resistência à ditadura militar, para o governo de Pernambuco em 1986. Depois disso, recém-formado em economia, Eduardo Campos foi chefe de gabinete de Arraes, partindo daí para construir sua própria carreira política.

Mas se o ponto de partida foi o avô, quem conheceu um e conhece o outro vê fortes distinções. “Ele gerencialmente é melhor que o avô. Politicamente é mais autoritário que o avô”, resumiu um político pernambucano.

Em um campo de futebol, nas palavras de um assessor próximo, Arraes seria um meia cerebral, capaz de lançamentos precisos e com ampla visão de jogo. Campos traz mais um perfil para o ataque, jogaria com a camisa de centroavante, mas não daqueles trombadores.

As diferenças entre eles também são atribuídas ao ambiente político em que os dois foram forjados. Arraes enfrentou a ditadura e aprendeu a fazer política nas dificuldades do sertão. Campos, de 48 anos, desenvolveu seu traquejo político na democracia e com mais condições do que o avô.

Mas a obstinação herdada é, provavelmente, o traço mais marcante desse governador que quer chegar à Presidência da República.

Depois de ocupar cargos na administração do avô, de ser eleito deputado estadual e federal, ser o ministro mais jovem do governo Lula e se eleger governador duas vezes, Campos iniciou 2013 embalado pelo desempenho notável do PSB nas eleições municipais do ano anterior, dizendo a Dilma que não negociaria o apoio do partido à sua reeleição antes de 2014.

Em janeiro, ainda se considerava a possibilidade de que o PT mudasse a aliança com o PMDB para abrigar o PSB como vice de Dilma na disputa pela reeleição. Era mais uma esperança do que uma possibilidade para um partido que historicamente quase sempre esteve aliado aos petistas.

Meses depois, já convencido disso e percebendo os movimentos dos demais aliados do governo, o também presidente do PSB deu início ao seu próprio projeto de poder, que chegou ao ápice entre setembro e outubro, quando o partido deixa seus cargos no governo federal e filia, numa reviravolta eleitoral impressionante, a ex-senadora Marina Silva para disputar a Presidência ao lado do pernambucano.

Campos também se mostra obstinado para cumprir suas metas à frente de Pernambuco. Não poupa esforços e controla seu governo na ponta dos dedos.

Todos os secretários prestam conta pessoalmente ao governador sobre as 720 metas estabelecidas com a população no começo do segundo mandato, mas nem por isso ficam longe das cobranças diárias de Campos por meio de um grupo no WhatsApp, aplicativo de troca de mensagens, ou das críticas pelos atrasos que ele consegue monitorar direto do seu tablet.

Quando desconfia que suas exigências não estão sendo cumpridas, gosta de surpreender o interlocutor. Foi assim durante a construção do Hospital Dom Hélder Câmara. Campos havia fechado um acordo com a construtora e os trabalhadores para que houvesse um terceiro turno de trabalho afim de concluir a obra.

Ao analisar as imagens da câmera instalada na obra percebeu que não havia trabalho no turno da noite, segundo um auxiliar. Sem avisar ninguém, Campos se dirigiu até o canteiro de obras e foi atendido por um atônito vigia que se apressou a pegar o rádio e chamar o chefe para avisar da visita inesperada.

Essas histórias de cobrança por resultados podem ser colhidas aos montes entre integrantes do governo pernambucano e demonstram o quanto Campos gosta de manter as coisas sob o seu controle.

Controle esse que é visto por adversários como traços de coronelismo, já que a figura do governador parece ser onipresente nos demais Poderes e nas administrações municipais.

“Muitos têm medo de dar declaração contrária ao governador”, afirmou o deputado estadual Daniel Coelho (PSDB), uma das poucas vozes ativas da oposição na Assembleia Legislativa.

Pela primeira vez na história de Pernambuco, segundo Coelho, alguém exerceu tanto controle sobre os outros Poderes e conseguiu agregar a elite econômica e política.

“Há um incômodo silencioso na sociedade de Pernambuco”, disse Coelho, referindo-se ao ambiente político no Estado.

TRATOR POLÍTICO

O perfil controlador de Campos pode torná-lo alvo de comparação com a presidente Dilma Rousseff, que também gosta de controlar seus auxiliares, mas políticos locais ouvidos pela Reuters fazem uma distinção.

Argumentam que o “traço mais autoritário” dele é sentido mais na condução política. Na gestão do governo, ele recebe melhor as críticas e aceita ser confrontado.

“Na política, ele é um trator”, disse um político pernambucano.

O presidente da Assembleia Legislativa o Estado, deputado Guilherme Uchoa (PDT), é um exemplo do controle exercido por Campos na cena política local. Desde que o socialista assumiu o governo, a Constituição estadual foi modificada algumas vezes para permitir a reeleição de Uchoa, que está no cargo desde 2007.

Apesar de “tratorar” os adversários, Campos age com pragmatismo na política. Exemplo disso, é a aliança fechada para a disputa municipal do ano passado com o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), seu antecessor no governo estadual e grande rival de Arraes em Pernambuco.

Mas se há uma coisa que um adversário ou aliado político não deve fazer se não quiser experimentar a pior faceta do governador é encurralá-lo. Aí, a reação dele não perdoa quem estiver na frente, segundo aliados.

A articulação comandada pelo Palácio do Planalto para dividir o PSB e tirar sustentação da sua provável candidatura presidencial foi um desses momentos. O socialista reagiu ao movimento capitaneado pelos irmãos Cid e Ciro Gomes e os fez sair do partido.

Um interlocutor de Campos e de Luiz Inácio Lula da Silva conta que o ex-presidente alertou Dilma para não tentar encurralar o pernambucano, “porque ele não pisca”. Dilma decidiu não seguir o conselho aparentemente.

NA TRILHA SONORA, O BREGA

Nas horas de “aperreio” como essa, só uma boa música brega é capaz de fazer Campos relaxar. Se o intérprete for o cantor Reginaldo Rossi melhor ainda. O socialista também é fã do cantor e compositor de forrós Maciel Melo.

É com essa trilha sonora, na varanda de casa com a família e com os amigos, a maioria políticos e secretários de governo, que Campos consegue relaxar um pouco nos finais de semana, quando até se arrisca a tocar violão.

A casa é a mesma desde que se casou e fica nos fundos da residência dos pais de Renata, sua esposa.

Renata, aliás, é figura constante no governo, dá ideias, aponta problemas, aconselha o marido e dialoga com os secretários, mesmo sem ter um cargo na administração. “Ela é como um cimento que liga o governo todo”, descreveu um auxiliar do governador.

Campos é um sujeito de pouco luxo e não gosta de ostentar riqueza, segundo um político conhecido do governador. “É um cara de classe média, não gosta dos luxos, não fica se relacionando só com a elite”, disse.

Os finais de semana de descanso com a família ou de idas com as crianças ao cinema, porém, estão cada vez mais raros desde que Campos decidiu que disputará a Presidência.

Os dias cheios como governador que controla pari passu o cotidiano político e administrativo agora estão ficando ainda mais longos por causa das articulações para a disputa presidencial.

“A ficha deles (Campos e Renata) está começando a cair agora”, disse um auxiliar próximo.

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