19 de Dezembro de 2013 / às 16:08 / em 4 anos

ENFOQUE-Para Campos, botão da "confiança" é o 1º que precisa ser acionado em 2015

Por Jeferson Ribeiro

Governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), durante encontro no qual foi anunciada a aliança com a ex-senadora Marina Silva, que se filiou ao PSB, em Brasília. A mudança mais urgente a ser feita por quem assumir a Presidência em 2015 será retomar a confiança do mercado e do empresariado, o que não está mais nas mãos da presidente Dilma Rousseff, pois ela manteria o ambiente de desconfiança, avalia Campos, que tentará derrotar a petista nas eleições do ano que vem. 5/10/2013. REUTERS/Ueslei Marcelino

RECIFE, 19 Dez (Reuters) - A mudança mais urgente a ser feita por quem assumir a Presidência em 2015 será retomar a confiança do mercado e do empresariado, o que não está mais nas mãos da presidente Dilma Rousseff, pois ela manteria o ambiente de desconfiança, avalia o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, que tentará derrotar a petista nas eleições do ano que vem.

“A coisa mais importante que o próximo presidente precisa fazer é recuperar a confiança do mercado e dos empresários”, disse Campos. “Esse é o primeiro botão a ser mexido.”

O presidente nacional do PSB, terceiro colocado nas pesquisas de intenção de voto, repete incansavelmente que sua plataforma vai incorporar a iniciativa privada em todos as áreas onde for possível fazer parcerias. “Não tenho preconceito”, diz, como se fosse um mantra, sem deixar de pontuar que seu pensamento é de “esquerda”.

Aos 48 anos e no segundo mandato à frente do governo estadual, Campos destaca a necessidade de adotar um discurso claro, mostrando que os problemas estruturais como a educação e as obras de infraestrutura têm solução de médio e longo prazo, sem mágicas, sem preocupações eleitorais.

O governador não quis conceder uma entrevista nos moldes formais, preferiu uma conversa longe de gravadores, em que expôs ideias e fez duras críticas ao governo. Para ele, suas chances eleitorais aumentarão se a situação econômica ficar como está.

Se piorar, a ponto de a inflação sair do controle, o dólar subir demais e o desemprego aumentar, os tucanos podem ter mais chances junto ao eleitorado. O potencial candidato do PSDB e presidente da sigla, Aécio Neves, tem aparecido em segundo lugar nas pesquisas lideradas por Dilma.

Por outro lado, se o desemprego seguir em níveis historicamente baixos, os preços se mantiverem sob controle e a atividade econômica acelerar, Dilma pode caminhar para uma reeleição tranquila.

“Para nós, não precisa piorar o país para ganharmos a eleição”, diz Campos, que aposta no anseio por mudanças no eleitorado. A última pesquisa Datafolha mostrou que 66 por cento gostariam de ver no próximo mandatário ações diferentes das tomadas por Dilma.

CRÍTICAS A DILMA

Para Campos, Dilma perdeu a capacidade de convencer o mercado e os empresários e é preciso uma nova administração para recuperar a confiança no país.

Ele considera que as primeiras fissuras da relação do governo com o mercado começaram quando Dilma lançou uma cruzada contra os juros altos, pressionando, nas palavras dele, o Banco Central a baixar a taxa Selic para o menor patamar histórico, ao mesmo tempo em que comprava uma briga com os bancos para que diminuíssem os spreads.

No caso dos investidores, as resistências em relação ao governo se solidificaram quando a presidente impôs a redução das tarifas de energia, antecipando o encerramento de contratos de geração e transmissão de energia. As empresas puderam renovar suas concessões, desde que aceitassem uma nova fórmula de remuneração pelos seus serviços.

Esse foi um dos maiores erros da presidente, na avaliação de Campos, porque além da falta de interlocução a petista demonstrou que não conhecia a fundo o setor que comandou no primeiro ano do governo Lula.

Campos acredita também que outro motivo para a falta de confiança do mercado no governo está no enfraquecimento do ministro da Fazenda, Guido Mantega, e do presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, que tiveram seus poderes minados pela presidente.

“Ela é uma gerente no lugar de um presidente de conselho de administração. Isso só pode dar errado”, afirmou.

Campos também critica a forma como o governo promoveu as desonerações tributárias para alguns setores da economia. Ele avalia que quando se cria um grupo de “escolhidos” também se estabelece o grupo dos “excluídos”.

No caso específico das desonerações sobre a folha de pagamento, que neste ano consumiram cerca de 15,8 bilhões de reais do Tesouro, segundo dados do Ministério da Fazenda, Campos sugere que deveriam ter sido feitas de forma “transversal” para atender a todos os setores da economia que tivessem interesse.

Hoje, 42 setores se beneficiam dessa desoneração, que muda a forma de recolhimento junto à Previdência Social. As empresas que aderiram ao programa, passam a recolher uma alíquota entre 1 e 2 pontos percentuais sobre o faturamento bruto e não mais 20 por cento da contribuição previdenciária sobre a folha de pagamento.

Apesar das críticas, Campos não acredita que seja possível de uma hora para outra simplesmente abolir os benefícios dados a alguns setores econômicos. “Terá que ser avaliado”, disse.

Para Campos, o mecanismo usado pelo governo poderia ser mais inteligente e a desoneração deveria ser aplicada em um fundo específico dentro do sistema previdenciário que poderia ser usado para ampliar a capacidade de investimentos.

BANCOS PÚBLICOS NO MERCADO DE CRÉDITO

O socialista também acredita que os bancos públicos precisam recuar sua posição no mercado de crédito para dar espaço às instituições financeiras privadas, mas admite que os bancos estatais tiveram um papel importante durante a primeira parte da crise econômica mundial estimulando o crescimento do crédito e a economia. “Não pode continuar sempre com o mesmo papel.”

Para ele, a melhor forma de estimular a abertura de linhas de crédito para investimentos de longo prazo no sistema bancário privado é criar incentivos específicos para que eles possam oferecer condições semelhantes às do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

“É preciso criar mecanismos que liberem os bancos privados de exigências para que eles possam praticar essas linhas de crédito, sempre respeitando os limites das regras de Basileia”, argumentou, sem detalhar como isso pode ser feito.

META FISCAL “SEM ARTIFICIALISMOS”

No campo fiscal, em que o governo tem recebido duras críticas do mercado sob alegação de agir com pouca clareza e não cumprir as metas a que se propõe, o governador se junta aos críticos contra as manobras contábeis usadas pelo Tesouro no ano passado para atingir o superávit primário.

Para ele, o certo seria o governo reduzir a meta, mas cumpri-la sem artificialismos. Ele acredita que uma meta de 2,4 por cento do PIB para o superávit estaria de bom tamanho para o país, considerando o cenário internacional.

Caso fosse necessário, ele admite até um instrumento que já foi estudado pelo governo de ter um sistema de bandas para atingir a meta de superávit, o que ajudaria a absorver mudanças no cenário internacional e daria previsibilidade ao mercado.

COMÉRCIO EXTERIOR E MERCOSUL

Em um ano em que o Brasil registra seu pior desempenho de comércio exterior, Campos defende que o Mercosul --bloco aduaneiro formado, além de Brasil, por Argentina, Uruguai, Paraguai e Venezuela-- precisa de uma revisão urgente.

Este é um debate que não deveria nem mesmo esperar as eleições, “é um debate para agora”. Na avaliação dele, o Brasil está preso por um pacto comercial que fragiliza seu comércio exterior.

“O mundo inteiro está fazendo acordos bilaterais, menos o Brasil”, argumenta, acrescentando que o bloco tem problemas graves e não pode mais limitar as negociações comerciais do país.

Durante o governo petista, o Mercosul foi priorizado e há regras que impedem acordos bilaterais dos países membros. As negociações devem sempre ser entre o bloco e o outro parceiro.

Para Campos, o Brasil tem muito mais capacidade de fechar acordos individualmente, o que fortificaria as exportações, do que se estiver com os parceiros.

MÁQUINA ELEITORAL E ALIANÇAS

Campos tem consciência de que enfrentará uma máquina eleitoral muito forte no ano que vem, mas aparenta confiança de que pode ser competitivo, mesmo com as pesquisas apontando um crescimento lento de suas intenções voto.

Ele argumenta que neste momento as pesquisas não conseguem detectar o jogo eleitoral e que ainda não é conhecido pela maioria da população.

“A pesquisa que importará será a de agosto do ano que vem.”

O governador terá dificuldades também para montar uma aliança grande de partidos e palanques estaduais. Ele reconhece essas dificuldades, mas também aposta que não serão as estratégias tradicionais de campanha --marketing, dinheiro e aliados fortes em todo país-- que vão definir o resultado da eleição.

O socialista aposta que haverá outras formas de mobilização na próxima disputa e que a Internet pode ter um papel mais importante. Nesse sentido, a aliança com Marina foi um fator positivo para Campos, uma vez que ela já tem experiências bem-sucedidas de mobilização em redes sociais.

O governador calcula que pode atrair o PPS --o que foi confirmado com uma indicação de apoio aprovada em recente reunião do partido--, o Partido da Pátria Livre e o PV para sua aliança. Acredita ser mais difícil ter o PDT e o recém-criado Solidariedade ao seu lado.

Mesmo esses eventuais apoios não trarão um ganho significativo para o tempo do candidato no horário eleitoral gratuito, que tem sido um fator importante nas últimas eleições.

Mas, para conseguir mais apoios nos Estados, o pernambucano aposta mesmo nas traições dentro das alianças eleitorais dos seus adversários, principalmente na supercoalizão que Dilma pretende manter para disputa do ano que vem.

UNIÃO COM MARINA

A aliança de última hora com a ex-senadora Marina Silva pode ajudar a canalizar essa busca por mudanças e convertê-lo em um impulso à candidatura de Campos.

Possível vice na sua chapa, Marina disputou a Presidência em 2010 e ficou em terceiro lugar com cerca de 20 milhões de votos. Ocupando um espaço importante numa fatia do eleitorado desde então, a ex-senadora se filiou ao PSB após ver naufragar o projeto de criação se seu partido, a Rede Sustentabilidade.

Campos aposta que a união pode trazer grande poder de mobilização social à candidatura e dar musculatura eleitoral ao seu projeto, rejeitando eventuais riscos decorrentes do perfil político da senadora e de seu ativismo ambientalista.

Para ele, Marina é um dos grandes quadros da política do país e que pode contribuir muito para a massa crítica de um futuro governo do PSB para o desenvolvimento sustentável.

Apesar dessa avaliação, assim que a aliança entre os dois foi anunciada os meios políticos e empresariais ficaram curiosos para saber como a união evoluiria. Bastaram alguns dias para que os primeiros sinais fossem de risco para a união e animadores para os adversários.

Nas primeiras entrevistas que concedeu, Marina deixou claro que não gostaria de estar associada a lideranças ruralistas e citou nominalmente o deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO), com quem Campos mantinha negociações para montar uma aliança em Goiás.

Campos teve que fazer algumas reuniões para garantir a investidores e políticos que Marina não representaria uma trincheira contra o agronegócio.

Mesmo assim, Campos aposta que Marina pode ajudá-lo, e muito, a vencer as eleições do próximo ano.

Aliados do governador já aguardavam esses atritos iniciais, porque a aliança foi fechada em poucas horas, no prazo limite para filiações partidárias, e consideram natural que no começo as divergências apareçam mais que as convergências.

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