February 4, 2015 / 1:43 PM / 3 years ago

ANÁLISE-Eficiência energética pode abrandar racionamento, mas chuvas têm que voltar ao normal

Por Anna Flávia Rochas

SÃO PAULO (Reuters) - Medidas de eficiência energética aplicadas desde já poderiam evitar a necessidade de um racionamento drástico de eletricidade neste ano, mas não resolvem sozinhas a situação sem que chuvas ocorram próximas da normalidade, segundo especialistas do setor.

O ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, admitiu na semana passada que o governo federal estuda medidas de eficiência energética que seriam lançadas em cerca de 60 a 90 dias. Entre analistas do setor elétrico, a avaliação é de que medidas de incentivo à redução de consumo chegam tarde, deveriam ter ocorrido desde 2014, e a necessidade de economia agora é maior e mais urgente, dada a situação dos reservatórios das hidrelétricas.

A Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Conservação de Energia (Abesco) pretende entregar nesta semana uma proposta ao governo federal com uma série de medidas para reduzir o consumo em 10 por cento em até 5 anos. A proposta é dividida por segmento de consumo, com ações específicas.

A entidade afirma já estar em contato com Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Ministério de Minas Energia e Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) sobre ações de eficiência energética.

Recentemente, o presidente da Abesco, Rodrigo Aguiar, voltou de viagem do Japão, realizada com representantes do MDIC, para entender medidas aplicadas por aquele país para rápida redução do consumo de energia após o desastre nuclear de Fukushima.

Além de ações de eficiência energética de médio prazo, Aguiar defende que é possível reduzir rapidamente o consumo em alguns segmentos como, por exemplo, no residencial, por meio de troca de lâmpadas fluorescentes por LED (diodo emissor de luz).

No segmento comercial, ele calcula que alguns estabelecimentos podem economizar entre 25 e 50 por cento de energia com troca de lâmpadas e sistemas de ar condicionado mais modernos. Segundo ele, pelo menos 35 por cento dos sistemas de climatização utilizados no país têm mais de 15 anos e precisam ser trocados por outros mais eficientes.

Já o potencial de economia em algumas indústrias com a troca de motores por equipamentos mais novos é de cerca de 40 por cento, segundo a Abesco. Com base na experiência japonesa pós-Fukushima, quando o país asiático teve que reduzir fortemente o consumo, Aguiar sugere a criação de tarifas diferenciadas que incentivem a atividade de algumas indústrias durante a madrugada, deslocando parte do consumo do horário de pico que costuma ocorrer no meio da tarde.

“Muita coisa pode ser feita, até porque o volume de desperdício no país é muito grande”, disse ele, ao citar que, anualmente, são desperdiçados 48 terawatts-hora, cerca de 10 por cento de toda a energia consumida no ano passado.

O ex-diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), Nelson Hubner, sugere o incentivo ao uso de equipamentos de geração solar fotovoltaica nas residências, comércio e indústria, como forma de reduzir a pressão pela oferta de energia no sistema como um todo. Outra sugestão é o estímulo à compra de painéis solares para aquecimento da água, o que reduziria a demanda por energia do sistema para acionar chuveiros elétricos.

“Se começar agora, já poderíamos ter muita coisa instalada no meio do ano”, disse Hubner, afirmando que essa modalidade de geração de energia tem como característica a rapidez na instalação. “Uma usina solar você faz em três meses”, disse.

SEM CHUVA, PROBLEMA PERSISTE

Apesar das medidas de eficiência energética colaborarem para evitar o agravamento da situação, no curtíssimo prazo elas sozinhas não deverão ser capazes de evitar um racionamento de energia se as chuvas não melhorarem até abril, quando termina o período úmido.

Analistas do Citi estimaram em relatório recente que se as chuvas previstas de março a novembro forem de 70 por cento do normal, a demanda por energia precisaria cair em cerca de 10 por cento para que os reservatórios do Sudeste cheguem a 15 por cento da capacidade em novembro.

“Mas se precipitação cai para apenas 55 por cento do normal em março a novembro, então, a demanda teria de ser reduzida em 20 por cento”, escreveram os analistas Marcelo Britto e Kaique Vasconcellos, do Citi. Já para sustentar o patamar de consumo atual, as afluências entre março e novembro teriam que ser de 84 por cento do normal.

O ONS estima atualmente que as chuvas que devem chegar aos reservatórios do Sudeste/Centro-Oeste, que concentra 70 por cento dos reservatórios para geração hidrelétrica do país, devem ser de 52 por cento da média histórica em fevereiro.

A chance de ocorrer um racionamento de energia, segundo a consultoria Thymos Energia, é de 66 por cento neste ano. O diretor de regulação, Ricardo Savoia, considera que, dependendo das chuvas, o país pode ter que racionar entre 15 a 25 por cento do consumo neste ano.

ESPAÇO PARA REDUÇÃO

Apesar das novas iniciativas para diminuição do uso de eletricidade, especialistas consideram que há menos espaço para reduzir o consumo neste ano em relação a 2001, principalmente na indústria.

Com o PIB do país estagnado, o consumo de eletricidade no país em 2014 cresceu 2,2 por cento ante 2013. Quando considerado apenas o consumo das indústrias, houve uma queda de 3,6 por cento. As residências tiveram um aumento de 5,7 por cento e o comércio de 7,3 por cento.

A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) ainda não divulgou projeção para a carga prevista deste ano, mas pelo andar das estimativas de economistas para o PIB, o consumo não deve ter ficar muito longe do ano passado se não houver racionamento de energia.

Já em 2000, ano anterior ao do racionamento, o consumo de eletricidade do Brasil subiu 5,3 por cento ante 1999, sendo que a classe industrial elevou em 6 por cento a demanda, o residencial em 2,9 por cento e o comercial em 9,3 por cento, segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Em 2000, o PIB cresceu 4,3 por cento, desacelerando para 1,3 por cento em 2001.

“Se for comparado com o racionamento anterior, existia na época uma gordura em relação ao consumo de energia muito grande, tinham um espaço para redução do consumo maior do que tem hoje”, avalia o presidente da Comerc Energia, Cristopher Vlavianos.

Em 2001, o racionamento com meta de reduzir 20 por cento do consumo foi iniciado em julho depois que não se conseguiu reduzir a demanda do país em cerca de 10 por cento por meio de medidas de eficiência energética e conscientização iniciadas em abril. Entre as medidas estavam troca de lâmpadas incandescentes por fluorescentes, redução do consumo em prédios públicos, além de campanha em rádio e TV para incentivar a economia voluntária.

Atualmente, o repasse de aumento de custos da energia para a tarifa do consumidor, conforme ocorre por meio das Bandeiras Tarifárias que começaram a ser aplicadas em janeiro deste ano, é um estímulo à redução do consumo de energia. As contas de energia já sofrem fortes aumentos desde o ano passado e, neste ano, em alguns casos, a alta poderá chegar a 60 por cento, segundo fonte do governo afirmou à Reuters em meados de janeiro.

Savoia, da Thymos, avalia que residências poderão até dar uma contribuição maior para a redução do consumo do país, em relação a outros setores, dado que essa classe de consumo poderia reduzir o uso de equipamentos menos essenciais.

“Mas no comércio, não poderá simplesmente desligar a refrigeração de determinados empreendimentos. A nossa opinião é que a redução para atingir uma meta de racionamento vai ser um pouco mais árdua que o racionamento passado”, disse.

Já na indústria, Vlavianos da Comerc considera que estas já buscam consumo mais eficiente para redução de custos, muitas já se tornaram autoprodutoras de energia, e há menos espaço para economia.

Com reportagem adicional de Leonardo Goy, em Brasília

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