December 22, 2017 / 2:59 PM / 7 months ago

Fora dos palcos, funcionários do Municipal do Rio lutam para sobreviver e manter a arte viva

Por Maria Clara Pestre

Bailarinas da Escola de Dança Maria Olenewa, do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, se preparam antes de ensaio da apresentação de final de ano, no Rio de Janeiro 08/12/2017 REUTERS/Ricardo Moraes

RIO DE JANEIRO, 22 Dez (Reuters) - No Theatro Municipal do Rio de Janeiro, cada movimento de dança, nota e acorde carrega o peso invisível de salários atrasados e quase dois anos de instabilidade.

Com a forte crise que abala o Estado do Rio, o Theatro encerra o ano de 2017 com funcionários endividados e artistas frustrados, após um ano sem apresentar nenhuma grande obra.

Anderson Dionísio é bailarino do Municipal há quase 25 anos, mas, com o atraso nos pagamentos, precisou trabalhar como mototáxi e vendeu móveis da sua casa para criar um estúdio improvisado, onde dá aulas de dança.

“Estou fazendo o que posso, o possível e o impossível. Economizando, andando praticamente com velas dentro de casa para economizar luz e diminuindo os gastos. Tentando economizar para poder sobreviver após tantos anos de trabalho”, disse o bailarino, de 45 anos.

Anderson faz parte do grupo de funcionários do Theatro que passou os últimos meses com salários atrasados. Mesmo assim, o bailarino não deixou de ir ao Municipal, onde tem aulas quase diariamente.

“Se a gente fica uma semana sem trabalhar, o nosso corpo reclama. Duas semanas, o nosso corpo engessa. Depois os movimentos ficam difíceis de fazer”, disse.

Anderson não é exceção no Municipal, onde dezenas de bailarinos continuam trabalhando todos os dias apesar do atraso dos salários.

Para alguns, entretanto, até chegar ao trabalho é difícil.

“Eu cheguei a um lugar que é até engraçado de falar, eu não tinha dinheiro de passagem. Ou eu pagava minhas contas básicas e me alimentava ou pegava ônibus”, disse o bailarino Bruno Fernandes, que pegou uma bicicleta emprestada e começou a ir pedalando para o trabalho.

O trajeto lhe rendeu três atropelamentos e uma inflamação no quadril, que pode demandar cirurgia. “Eu sinto que eu estou me prejudicando cada dia que eu sento na bicicleta e venho... Se eu lesionar o meu quadril, como tem esse diagnóstico, eu diminuo de 10 a 15 anos na minha carreira, ou até mais”, disse o bailarino, com 33 anos.

Além do corpo de baile, diversas áreas do Municipal do Rio sofrem com a falta de recursos.

Mônica Maciel, cantora do coro do Theatro desde 1999, acumula uma lista ampla de trabalhos extras que viraram, atualmente, sua única fonte de renda.

“Eu dou aula de canto, eu aplico reiki, eu tenho uma lojinha na minha casa. Eu organizo eventos”, disse a cantora. “Eu faço tudo, tudo que eu posso, que me convidam, que esteja nas minhas possibilidades e que eu concorde eu faço pra poder ajudar na situação.”

VEJA O ENSAIO FOTOGRÁFICO EM reut.rs/2BXeBqV

CRISE GERAL

O atraso no pagamento de funcionários do Theatro Municipal é mais uma faceta da crise que abala o Estado do Rio de Janeiro, onde servidores públicos de diversas áreas vivem há meses a angústia de não saber quando e como vão receber.

No Theatro, a irregularidade começou no final de 2015, inicialmente apenas atrasando o dia do pagamento, até que os salários começaram a se acumular iniciando uma instabilidade que se estende, com alguns breves períodos de regularização, até hoje.

Para regularizar os salários dos servidores, o governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, fechou um empréstimo de 2,9 bilhões de reais com o banco BNP Paribas, dos quais 2 bilhões foram liberados no dia 20 de dezembro para pagar parte dos valores pendentes.

Com a liberação, os funcionários receberam o salário atrasado de outubro e o 13º de 2016, que estava pendente há um ano. O governo reconhece que ainda deve aos servidores do Municipal o pagamento de novembro, mas os funcionários consideram que também está atrasado o 13º de 2017, cuja primeira parcela costumava ser paga no meio do ano.

“Esse atraso não resulta de desimportância atribuída pela administração estadual ao Theatro, mas sim da falta de recursos disponíveis em caixa. Os salários serão pagos o mais rapidamente possível, de acordo com a disponibilidade de recursos”, disse a Secretaria de Estado de Fazenda do RJ (Sefaz) em comunicado à Reuters.

O governo do Rio espera que os 900 milhões de reais restantes do empréstimo sejam liberados em janeiro de 2018 para quitar a folha de novembro e o 13º salário de 2017, acrescentou a Sefaz.

ANO SEM ARTE

Mesmo com parte dos salários regularizados, a instabilidade de 2017 já deixou uma cicatriz na carreira dos bailarinos, que passaram um ano sem apresentar uma grande obra e sem acesso aos recursos que garantem seu preparo físico.

Para se manter em alto nível, um bailarino precisa de acompanhamento fisioterápico, musculação e alimentação regrada, explicou Déborah Ribeiro, primeira solista do Theatro Municipal.

“A gente não está podendo fazer essas coisas porque não tem salário. Então, uma coisa vai levando a outra, você acaba se machucando mais, você não se alimenta bem, diminui o tempo de sono”, disse a bailarina.

Sem recursos e sem salários, os bailarinos do Municipal estão há um ano sem apresentar um balé clássico, desde a temporada de “O Quebra-Nozes”, em dezembro do ano passado.

“Para o artista, não estar em cena, não estar colocando seu trabalho em cena é uma coisa que a gente vai morrendo aos poucos. A gente vai minando a nossa alma”, disse Déborah.

Ao longo do ano, o Theatro montou duas apresentações voluntárias, uma cantata e uma ópera, mas só participaram dos espetáculos os funcionários que conseguiam trabalhar mesmo sem receber.

“O balé do Municipal nunca deixou de se apresentar. E o Theatro passou por momentos adversos outrora, mas igual a esse momento é histórico”, disse o bailarino Bruno Fernandes.

FUTURO EM JOGO

A paralisação do Theatro Municipal também arrisca colocar em jogo o futuro da instituição, onde formandos da sua própria escola de dança veem com mais dificuldade o sonho de dançar na companhia.

A Escola de Dança Maria Olenewa, do Theatro, funciona normalmente apesar da crise, contando com a dedicação de funcionários que trabalham mesmo com os salários atrasados e com a ajuda financeira de uma associação externa.

Entretanto, alunos que se formam neste momento enfrentam a frustração de ver o teatro parado, reconhece o diretor da escola, Hélio Bejani.

“Existe uma tristeza de que a companhia está parada. Estava se preparando o Lago, tinha pelo menos seis meninas da escola que estavam participando e alguns meninos. Isso é frustrante”, disse, em referência ao espetáculo “O Lago dos Cisnes”, cuja temporada foi cancelada devido à falta de pagamentos.

Bruno, que é ex-aluno da escola, teme que a crise faça com que os novos formandos, e outros bailarinos iniciantes, deixem de querer dançar no Municipal. “Quando eu entrei na companhia eu me inspirava nos primeiros bailarinos, nos mais velhos, eu almejava aquele lugar, porque eu sabia que eu ia estar assegurado... Você imagina, qual é o espelho que esse jovem bailarino vê em mim hoje em dia?”

“Para a gente, a maior agressão, mais até do que as privações das necessidades básicas, é você ver a dedicação da sua vida toda sendo tratada como um nada”, disse o bailarino.

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