March 27, 2020 / 8:49 PM / in 2 months

Viagra e 70 latas de refrigerante: as aventuras de um entregador na São Paulo em quarentena

SÃO PAULO (Reuters) - Poucas pessoas se aventuram pelas ruas de São Paulo nestes dias, mas Erik Thiago disse que só deixará de fazer entregas de bicicleta quando ficar doente ou as autoridades o forçarem a ficar em casa.

Erik Thiago 27/03/2020 REUTERS/Rahel Patrasso

Enquanto outros da cidade de 12 milhões de habitantes permanecem em casa para frear o coronavírus, o entregador de 22 anos pedala uma hora da comunidade em que mora na periferia do sul da metrópole para levar mantimentos, remédios e tudo o que moradores de bairros de classe alta pedirem.

Sem máscara e só com um frasco pequeno de álcool em gel para usar entre as entregas, ele sabe que está especialmente exposto – mas quer continuar trabalhando para guardar um dinheirinho para “quando estiver realmente grave a coisa”.

A maior cidade do Brasil, que concentra a maioria das 92 mortes causadas pelo coronavírus no país, praticamente parou. São pessoas como Thiago, normalmente jovens pobres, que permitem que o restante permaneça com as portas fechadas.

Thiago é uma das 200 mil pessoas da América Latina que fazem entregas para o aplicativo Rappi. A empresa não quis detalhar seus números para o Brasil.

Além de ser um aplicativo de entregas para refeições de restaurantes, o Rappi também dá aos entregadores listas de compras para que peguem itens nas prateleiras e um cartão de débito financiado pelos clientes para fazerem pagamentos.

Durante as restrições determinadas na cidade, as encomendas de Thiago mudaram de fast-food food para produtos não perecíveis. Um cliente pediu 70 latas de Coca-Cola.

Na quinta-feira, Thiago entregou alvejante, um pacote de linguiças e xampu antibactericida para animais de estimação, entre outras coisas. Às vezes as encomendas são mais delicadas: ele comprou o remédio para disfunção erétil Viagra a um cliente particularmente agradecido.

O trabalho de Thiago é considerado pelo governo estadual como “essencial”, mas isso não ajuda muito sua renda – em um dia bom, ele volta para casa com 100 reais. Mas a demanda varia dramaticamente. Ao longo das cinco horas em que a Reuters o acompanhou na quinta-feira, ele lucrou 31 reais, a maioria disso em gorjetas.

“Antes da epidemia ninguém dava gorjetas”, disse Thiago, que usava uma camiseta preta e shorts listrados. Entre as sobrancelhas se vê uma cicatriz de quando um carro o atingiu no ano passado.

Ele espera que o vírus traga algum reconhecimento para sua categoria de trabalho. “Neste momento eles olham para nós como para viciados de rua”, disse.

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