October 22, 2014 / 8:04 PM / 4 years ago

Dilma e Aécio brigam por um prêmio-chave: vencer em seu Estado natal

Por Brian Winter

Presidente Dilma Rousseff, candidata do PT à reeleição, e Aécio Neves (PSDB) se cumprimentam depois de debate na TV em São Paulo. 14/10/2014 REUTERS/Paulo Whitaker

BELO HORIZONTE (Reuters) - A presidente Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) cresceram a sete quarteirões de distância um do outro, frequentaram o mesmo clube de tênis de elite, assistiram filmes na mesma sala e passearam pelas mesmas praças durante os anos 1960.

Eles torciam para equipes rivais de futebol, no entanto, e eventualmente trilharam caminhos políticos bem diferentes. Dilma fez parte de um grupo marxista que se opôs à ditadura militar, enquanto Aécio abraçou o ethos mais conservador do seu avô, uma figura histórica na política brasileira.

Hoje, Dilma e Aécio estão lutando pelos votos na sua cidade natal de Belo Horizonte e em todo Estado de Minas Gerais —um campo de batalha crucial na corrida que vai ser decidida nos últimos minutos.

A cidade de 5 milhões de habitantes é a capital do Estado que tem o segundo maior colégio eleitoral do país, algumas vezes chamado de “Ohio brasileiro” por conta do seu status de termômetro das eleições. Desde que a democracia voltou completamente em 1989, todo presidente vitorioso foi vencedor em Minas Gerais.

Aqui, como em outras partes do Brasil, quedas acentuadas nos níveis de pobreza e na taxa de desemprego na última década fizeram Dilma, 66 anos, ter um leve favoritismo para vencer o segundo turno.

Aécio, ex-governador de Minas Gerais de 54 anos, espera que a insatisfação com a economia estagnada e o suporte para as suas políticas pró-mercado o ajudem a diminuir a vantagem da sua rival de 4 pontos percentuais nas pesquisas de intenção de votos mais recentes.

A eleição mais disputada em décadas tem um drama extra em Belo Horizonte porque muitas pessoas aqui conhecem os candidatos —e seguem surpresos, mesmo depois de todos esses anos, como duas pessoas de origem tão similares podem buscar agendas tão diferentes.

“É só o que as pessoas querem conversar aqui”, comentou rindo Helvécio Ratton, 65 anos, um cineasta que é amigo de Dilma desde a universidade.

Ratton disse que ele e Dilma foram atraídos para a resistência de esquerda por conta da impressionante desigualdade no país, que era ainda pior naquele período. Durante os anos 1960, dezenas de milhares de pessoas pobres, muitas vezes doentes e analfabetos, migravam para Belo Horizonte todos os anos, muitos acabavam dormindo nas ruas da cidade.

Ele descreve a presidente como uma adolescente estudiosa que era “muito engraçada, que sempre ficava fazendo piadas”.

Esta descrição é diametralmente oposta a sua imagem atual, de uma líder severa e sem humor, reconheceu Ratton. Ele disse que ela mudou depois de ter sido presa e torturada pelos militares no início dos anos 1970. Ter feito carreira no mundo “masculino” da política brasileira também pode ter ajudado ela a agir com dureza, acrescentou.

“Em particular,” ele disse, “você ainda encontra a velha Dilma.”

NOS PASSOS DO AVÔ

O pai de Dilma era um aristocrata búlgaro que emigrou para o Brasil durante a Segunda Guerra Mundial e pagou para os seus filhos aulas particulares de francês e os matriculou nas escolas mais importantes da cidade —incluindo aquela que, coincidentemente, Aécio vai votar no domingo.

A família de Dilma ainda é dona da grande casa roxa em que ela cresceu e que hoje é usada para recepções de casamentos e outros eventos especiais. A responsável pela casa, que disse que se chama Thays, disse que nunca teve contato com a presidente, tendo contato apenas com um contador.

“Se ela perder,” disse Thays com um sorriso irônico, “achamos que o aluguel vai subir.”

Doze anos mais novo que Dilma, Aécio perdeu o tumulto da década de 1960. No lugar disso, ele assiduamente seguiu o caminho do seu avô, Tancredo Neves, que o precedeu tanto como congressista como governador de Minas Gerais.

O Neves mais velho era reconhecido como um político gentil e como construtor de consenso sque se opôs aos militares sem assustá-los. Quando os generais concordaram com uma transição administrada para a democracia nos anos 1980, Tancredo acabou sendo eleito, sem voto popular, presidente da República, mas morreu aos 75 anos antes de assumir o cargo.

Aécio imitou as maneiras impecáveis e a personalidade alegre de Tancredo mesmo quando era criança, disse Celina Ramos, que o conheceu aos 8 anos no clube Cruzeiro.

“Ele era um bom garoto naquela época e ele é um bom garoto agora”, ela disse.

Essas questões de personalidade e histórico pessoal são mais importantes para os mais de 15 milhões de eleitores de Minas Gerais do que em outras partes do Brasil, afirma o economista Paulo Paiva, ex-ministro do tucano Fernando Henrique Cardoso.

“ASSUNTO DE FAMÍLIA”

De fato, a campanha aqui parece estar focada em duas questões principais: qual candidato tem a melhor história de vida e quem merece mais crédito pelos programas sociais que ajudaram a reduzir a notória desigualdade brasileira na última década.

A equipe de Dilma inundou as rádios e televisões com estatísticas mostrando como o governo federal auxiliou Minas Gerais: 1,1 milhão das famílias no Estado estão recebendo pagamentos mensais de auxílio social, enquanto 146.151 estudantes participaram do programa de educação profissional do governo e assim por diante.

Os eleitores de Aécio, por sua vez, elogiam os programas que ele criou como governador de 2003 a 2010, como um que instala banheiros e cozinhas nas casas de pessoas pobres.

“Todos eles foram muito bons para mim,” disse Maria dos Anjos Souza, uma mulher desempregada de 41 anos, enquanto marcineiros contratados pelo Estado instalavam um novo piso na sua cozinha, na semana passada. Ela disse que não havia decidido seu voto ainda.

A campanha de Dilma ressaltou o seu passado militante, usando a foto da sua prisão em 1970 em anúncios de TV e em camisetas para retratá-la como uma resoluta defensora dos pobres.

Aécio perdeu espaço por conta das acusações feitas pela campanha de Dilma que os laços familiares fazem dele um elitista. Ele rebate dizendo que o fato de ter trabalhado ao lado do seu avô quando estava na casa dos 20 anos ajudou a torná-lo o candidato da “mudança segura”, com o apoio político e o conhecimento necessário para reviver a economia.

O efeito de tudo isso em Minas Gerais não está claro.

Um número maior de eleitores votaram em Dilma Rousseff no primeiro turno do que em Aécio, ainda que a presença de um terceiro candidato tenha dividido a oposição.

Na praça de Belo Horizonte na qual a casa da família Neves ficava, uma multidão de duas dezenas de pessoas se reuniu em um bar na semana passada para assistir o debate entre os dois candidatos.

Alguns gritaram com a TV ou uns com os outros, mas a maioria bebeu em silêncio, enquanto assistia.

“Temos que manter a calma””, disse Nilton Leme, 43 anos, que trabalha para uma mineradora. “Para a gente, isso é um assunto de família.”

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