October 23, 2014 / 9:19 PM / 4 years ago

Melhora econômica e campanha dura apontam para reeleição de Dilma

Por Brian Winter

MATEUS LEME Minas Gerais (Reuters) - A presidente Dilma Rousseff (PT) parece estar posicionada para uma vitória apertada no segundo turno no próximo domingo, graças a uma ligeira melhora na economia e ao seu sucesso em retratar o seu rival como um elitista que poderia colocar o Brasil de volta a uma era mais insensível.

Dilma aparece nas pesquisas Datafolha e Ibope divulgadas nesta quinta-feira, com vantagens de 6 e 8 pontos, respectivamente, considerando os votos válidos (que excluem brancos, nulos e indecisos), contra Aécio Neves (PSDB), que defende políticas pró-mercado e austeridade fiscal.

No primeiro turno em 5 de outubro, contudo, as pesquisas subestimaram terrivelmente o apoio a Aécio. Agora, os dois lados têm alertado contra uma confiança exagerada nas pesquisas e alguns analistas afirmam que a disputa segue em aberto.

Mas, no geral, a dinâmica está a favor da Dilma, graças ao crescente apoio da classe média baixa brasileira —definido, de maneira geral, como pessoas vivendo em lares com renda entre dois e cinco salários mínimos por mês.

Este grupo, responsável por cerca de 40 por cento do eleitorado, tem se beneficiado enormemente sob o governo do PT de Dilma nos últimos 12 anos. Muitos deles parecem ter concluído que as coisas no Brasil não estão tão ruins assim —o que faz o risco de mudar para Aécio não valer a pena.

Um assessor sênior da campanha de Aécio reconhece que ele teve uma semana ruim, mas ressaltou que ele conseguiu uma recuperação nos últimos momentos no primeiro turno e poderia fazer isso novamente.

“Foi uma campanha do medo”, disse o assessor. “É nojento, mas acreditamos que as pessoas vão ver a verdade até domingo.”

A economia brasileira diminuiu o ritmo dramaticamente desde que Dilma assumiu o cargo em 2011 e sofreu uma recessão leve neste ano, alimentando a oposição contra as suas políticas intervencionistas.

De qualquer jeito, a economia voltou a crescer novamente em julho e em agosto, de acordo com indicador do Banco Central, o que seria os primeiros dois meses consecutivos de expansão desde meados de 2013.

Os trabalhadores brasileiros receberam um aumento salarial médio de 3 pontos percentuais sobre a inflação neste ano, o dobro que receberam em 2013. A taxa de desemprego está próxima de um recorde histórico, caindo para 4,9 porcento no mês passado.

Há, também, uma melhora recente na percepção da economia, com apenas 15 porcento dos eleitores dizendo ao Datafolha que eles esperam que a economia piore, taxa que era 25 porcento no fim de setembro e 36 porcento no início de junho.

Dilma e sua equipe de campanha alertaram que Aécio, herdeiro de uma rica família política, levaria o Brasil “de volta ao passado” —uma referência ao governo do PSDB dos anos 1990, antes que o boom no preço das commodities e a criação de programas de bem-estar social gerassem uma queda marcante na pobreza.

As declarações tiveram efeito em locais como Mateus Leme, uma cidade de cerca de 28 mil pessoas no Estado de Minas Gerais, onde Aécio foi um governador popular, mas agora é visto com cautela.

“As pessoas têm medo dele”, disse José Vicente de Paulo, 76 anos. “A vida melhorou um pouco e todo mundo está dizendo que ele vai acabar com isso.”

Mateus Leme se beneficiou da abertura de fábricas próximas de autopeças, graças a duplicação da venda de veículos em todo o país na última década. Ainda que o setor industrial tenha sofrido no ultimo ano, “todo mundo ainda tem dinheiro no bolso”, disse Ricardo Moraes, 29 anos, vidraceiro.

Moraes disse que tinha pensado em votar em Aécio, mas recentemente decidiu que “nós não devemos abandonar este caminho”.

Tão recentemente quanto o dia 15 de outubro, Aécio tinha uma vantagem de 11 pontos percentuais na classe média baixa, de acordo com o Datafolha. Na pesquisa divulgada na madrugada de quarta-feira, os dois estavam empatados neste segmento. Considerando a franca vantagem de Dilma entre os eleitores mais pobres, isso permitiu que assumisse uma ligeira vantagem geral.

INJETANDO DINHEIRO NA ECONOMIA

A decisão de Dilma de, efetivamente, abandonar as suas principais metas fiscais para este ano ajudou a injetar dinheiro na economia. O mês de agosto, por exemplo, viu o resultado primário registrar um déficit de 14,5 bilhões de reais, pior dados para o mês em mais de uma década.

Esse tipo de tática não pode durar muito, alertam economistas. As agências de classificação de risco disseram que o Brasil enfrenta o risco de downgrade a menos que Dilma ou Aécio façam fortes cortes de custos em 2015, o que podem jogar a economia em recessão outra vez. Mas, até lá, a eleição já terá passado.

Aécio, enquanto isso, parece ter ficado do lado errado de uma campanha extraordinariamente divisória para padrões brasileiros, que viu a multiplicação de inúmeros boatos e líderes dos dois partidos publicamente comparando os seus rivais aos nazistas.

Uma reunião de funcionários do governo de Minas Gerais na semana passada foi interrompida quando um funcionário recebeu uma mensagem de texto alertando sobre um desses boatos —que o programa federal de habitação para brasileiros de baixa renda seria suspenso se Aécio vencesse.

“De novo isso?,” disse Juliano Fisicaro Borges, um alto funcionário na Secretaria de Desenvolvimento Social de Minas Gerais que é administrado pelo PSDB. “Isso virou uma guerra.”

Enquanto isso, a Dilma parece ser virtualmente impermeável a uma série de escândalos de corrupção envolvendo o seu partido. Mesmo uma cobertura constante pela mídia sobre depoimentos de ex-diretor da Petrobras com acusação de um suposto amplo esquema de propina não abalou tantos eleitores.

DEBATE TENSO EM MOMENTO CRUCIAL

Um acirrado debate entre os dois candidates na semana passada pode ter sido o ponto da virada. Quando Dilma fez referência ao um incidente de 2011 no qual Aécio se recusou a fazer o teste do bafômetro em uma blitz, ele demonstrou arrependimento, mas também chamou Dilma de “mentirosa”.

A resposta não foi bem vista por eleitoras. Elas apoiavam Aécio por 46 a 42 por cento nas pesquisas depois do primeiro turno, mas no levantamento de quarta-feira preferiam Dilma por 47 a 41 por cento.

“Quando eu vejo um homem ser ignorante daquele jeito com um mulher... Eu penso o que ele faria com uma pessoa pobre,” disse o popular ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que escolheu a dedo Dilma para ser a sua sucessora, em um comício na cidade de Manaus horas depois do debate.

Uma seca histórica em São Paulo, uma das principais bases de apoio a Aécio, também o prejudicou. Os eleitores culpam o governo estadual, que é dirigido pelo PSDB, por permitir que o principal reservatório da cidade tenha ficado com apenas 3 porcento da sua capacidade —levantando acusações que o racionamento foi retardado só por conta das eleições.

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