April 4, 2018 / 11:46 PM / 21 days ago

WIDER IMAGE-Onças-pintadas da Amazônia surpreendem pesquisadores e turistas vivendo em cima de árvores

Veja o ensaio fotográfico em reut.rs/2q4y15b

Onça-pintada em árvore na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá 5/6/2017 REUTERS/Bruno Kelly

Por Bruno Kelly e Maria Clara Pestre

4 Abr (Reuters) - Em um local singular no meio da floresta Amazônica, onde águas inundam mais de 1 milhão de hectares de mata todos os anos, onças-pintadas podem ser vistas no topo de árvores, vivendo cerca de quatro meses a até 15 metros de distância do solo.

A 600 km de Manaus, dentro da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, pesquisadores do projeto Iauaretê presenciaram o comportamento pela primeira vez em 2013, vendo uma onça e seu filhote vivendo na copa de uma árvore. Entre 2016 e 2018, em várias visitas ao local, onças-pintadas foram fotografadas pela Reuters no alto dos galhos.

“Isso é uma coisa muito interessante, porque mostra que a onça mesmo sendo um animal grande, ela consegue suportar a inundação, se alimentar, reproduzir e criar os seus filhotes em cima da árvore durante três a quatro meses do ano”, disse à Reuters o pesquisador responsável pelo projeto, Emiliano Ramalho.

O comportamento das onças, que podem chegar a quase 2 metros e 90 quilos, é ditado pelo período de cheia da floresta de várzea, que ocorre normalmente entre abril e julho, influenciando também o modo de vida das mais de 10 mil pessoas que vivem dentro da reserva.

“Isso é uma coisa que, até a gente começar a pesquisar a onça aqui, nunca tinha sido descrita”, disse Ramalho.

O projeto Iauaretê, cujo nome significa onça verdadeira em tupi-guarani, é comandado pelo Instituto Mamirauá, organização vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação que estuda desde 2004 os hábitos de onças-pintadas para desenvolver ações de preservação da espécie.

“DIFÍCIL DE ACREDITAR”

Com esse objetivo, pesquisadores seguem um longo processo de monitoramento da onça-pintada que começa com a instalação de armadilhas, seguida pela captura e análise física do animal. Após avaliação, as onças são devolvidas a floresta com um rádio-colar, que envia suas coordenadas ao projeto.

Os pesquisadores passam, então, a acompanhar os sinais de localização sobrevoando a floresta, ou, em períodos de cheia, adentrando seu labirinto de árvores a bordo de pequenos barcos munidos de antenas de rádio.

Railgler dos Santos, morador da comunidade Caburini, localizada dentro da reserva Mamirauá, participou da captura de uma onça junto ao projeto Iauaretê e afirma nunca ter esquecido o que viu no meio da floresta.

“Até o momento de espirrar, quando eu fecho os olhos, só vem aqueles olhos pretos. Aquela escuridão, mas aqueles olhos permanecem lá”, disse o jovem de 25 anos.

O monitoramento levou à coleta de uma base de informações sobre as onças da região, incluindo sua presença sobre as árvores —comportamento inesperado, uma vez que o normal para a espécie seria deixar o local alagado para áreas secas da floresta.

“Ninguém duvidava que ela subia em árvore, ninguém duvidava que ela nadava, isso a gente já sabia, mas que ela conseguiria viver em cima das árvores durante três a quatro meses do ano era uma coisa difícil de acreditar”, disse o pesquisador Emiliano Ramalho.

EXPEDIÇÃO ONÇA-PINTADA

Para o pesquisador, o comportamento da onça-pintada, considerada como ameaçada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), realça a importância de preservar as florestas de várzea.

“Se a gente quer preservar a espécie, a gente precisa preservar esses ambientes onde a onça-pintada tem esse comportamento único de viver em cima das árvores... talvez seja a grande fortaleza para as onças, o lugar mais importante para a gente preservar as onças na Amazônia talvez sejam as várzeas”, disse.

Desse objetivo nasceu a “Expedição Onça-Pintada”, um pacote de turismo que leva até quatro pessoas a bordo de pequenos barcos para observar o predador símbolo do Brasil.

“A gente vai navegando no meio da floresta até achar a onça. Quando a gente chega lá a gente fica cerca de uma hora com a onça e depois deixa ela e volta para a pousada. Esse processo se repete durante três dias”, disse Ramalho, acrescentando que o pacote é realizado apenas três vezes ao ano.

A expedição, que custa 10 mil reais por pessoa, é realizada em conjunto com a pousada Uakari Lodge, administrada por moradores da reserva, gerando visibilidade para a preservação da onça e renda para as comunidades da região, o que, segundo Ramalho, tem alterado a forma como as pessoas veem o animal.

“As pessoas que convivem próximas da onça, em geral, têm um misto de sentimentos. Elas acham lindo o bicho, mas ao mesmo tempo têm medo. Elas admiram, mas têm raiva, porque o bicho come o gado delas, o porco, a galinha, o cachorro”, explicou o pesquisador, acrescentando que esse quadro costumava levar à morte de onças.

“Isso tem gerado coisas muito positivas porque as pessoas estão muito mais tolerantes. Embora a gente não tenha estimativas precisas de redução de número de onças mortas, a gente escuta as pessoas falando e eu acredito, de fato, que isso tenha melhorado essa relação que pode às vezes ser conflituosa”, disse.

As mortes por retaliação são, entretanto, o menor aspecto dos perigos que tornam a onça-pintada uma espécie ameaçada.

“No meu ponto de vista, um dos problemas mais graves é a gente fragmentar a floresta. Em especial as grandes obras de infraestrutura”, disse Ramalho, acrescentando que a falta de investimento representa um risco não só para a floresta Amazônica, mas para todo o planeta.

“Não é possível, hoje, a gente alcançar as metas mundiais propostas para aquecimento global e para preservação do planeta se a gente não preservar a Amazônia.”

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